Sempre gostei deste tipo de relação espontânea e o facto de quererem partilhar comigo o almoço era um sinal de que se sentiam bem com a companhia.
Durante as conversas cruzadas, e por iniciativa das alunas, surgiu o tema do namoro e da paixão. A dado momento uma das alunas disse o seguinte: "sabe professor, eu vou estudar muito para um dia ter trabalho, ganhar dinheiro e poder ter a minha casa".
As outras amigas acompanharam-na nesse desejo e após algumas interações de momento a mesma rapariga disse:"não vou permitir que um namorado ou marido me maltrate, me agrida, me bata... por isso eu quero ter a minha casa pois se ele não me respeitar pelo menos fico com a casa que irei comprar".
As amigas não esboçaram qualquer admiração, parecia que tudo era natural, mas para mim aquele desabafo deixou-me intrigado. A conversa prosseguiu até porque as raparigas nunca quiseram mudar de assunto.
De forma inclusa no comentário que proferi concordando com aquela premissa de vida, tentei apurar as motivações que pudessem estar subjacentes. Ao que a aluna disse, como que em continuação do que tinha acabado de dizer: "o meu pai quase todos os dias se embebedava e quando chegava a casa sem justificação batia na minha mãe... depois quando a íamos ajudar (eu e a minha irmã) éramos igualmente agredidas. Já não vivemos com ele."
Sei que levei um soco no abdómen pois a juntar ao desabafo vi um ser humano ferido por esta violência mas determinado a ter uma vida diferente da sua mãe.
E para ficar KO a rapariga pergunta-me, a sorrir e esperando uma resposta afirmativa: "o professor já bateu na sua mulher?"... Olhei-a nos olhos e disse-lhe: "nunca bati numa mulher nem nunca o meu pai bateu na minha mãe... não sei o que é isso". E nesse preciso momento a sua face transformou-se para um estado de admiração.
Continuámos a refeição e os diálogos. Estes por vezes sobrepunham-se tal era a necessidade de puderem falar com um adulto. A dado momento, e já num ambiente menos denso, a mesma rapariga disse que não iria ter um namorado, não confiava nos rapazes. Deixei-a expressar-se e então é que surgiu um breve silêncio interrompido com a seguinte afirmação, talvez demasiado poética, mas foi a que senti: "um dia irás encontrar o teu príncipe, eu acredito nisso".
Terá encontrado?...
E para melhor enquadrar o Amor gosto deste vídeo:
Por, António Tadeu Costa

