| Foto: http://planetamariano.blogspot.pt/2013/07/nossa-senhora-da-piedade-pieta-de.html |
A sua habilidade
em administrar as suas emoções era tão grande que conseguiu jantar na última
ceia, mesmo sabendo que seria crucificado na manhã seguinte. Sabia do futuro
sombrio, mas não admitia que as intempéries fossem um ladrão da sua tranquilidade
no presente.
Embora
Maria soubesse de algumas coisas que aconteceriam com o seu filho, tudo parecia
surreal, como um anagrama. A sua prisão foi repentina e a sua condenação
sumária, as suas feridas intensas. Bastou uma noite para o futuro nunca mais
ser o mesmo.
Ao ver o
seu filho agonizar na cruz, Maria mergulhava dentro de si. Não conseguiu fugir
das imagens que transitavam na sua memória. O menino que ela amamentou, embalou
e acarinhou e a cuja cabeça massajou tinha agora uma coroa de espinhos. O
menino que sempre foi honesto, fiel aos seus pensamentos era agora tratado como
o mais vil dos impostores.
Ela
investia contra o cordão de soldados, queria abraçar os seus pés, cuidar das
suas feridas e estancar o seu sangue, mas foi impedida de passar. Maria chorava
copiosamente.
A mais
forte das mulheres nesse momento era a mais impotente. A que se tornaria a mais
famosa e a mais elogiada de todos os tempos entre as mulheres agora era a mais
anónima e ninguém a ouvia. Os paradoxos que acompanharam o seu filho teceram
também alguns textos da sua história. Ela não queria fama, elogios e exaltação,
apenas abraçar o seu filho, pelo menos pela última vez.
Ele
estava trémulo na cruz. Podia sentir as lentas batidas do seu coração, querendo
descansar dos sofrimentos. Os pulmões, ofegantes, mal conseguiam respirar. O
seu cérebro estava em sofrimento, tinha vertigens, queria desmaiar, mas ele
esforçava-se para se manter lúcido até ao último minuto de vida. A sua coragem
era impressionante.
A sua
visão estava embaçada pelo edema, pelo sangue e pelo suor que penetravam nos
seus olhos. De repente, ele ouve o som de uma mulher angustiada. Conseguiu
distingui-lo de entre os inumeráveis sons de multidão. Era a sua mãe. Já era
insuportável beber do seu cálice, mas vê-la assistir ao seu drama expandida
ainda mais a sua dor.
Num esforço descomunal, num momento solene, ele move um pouco a
sua cabeça em direcção aos sons que ouve. Queria dizer-lhe algo, mas não tinha
fôlego.
Então, uma cena de raríssima beleza desenhou-se nos solos do
Calvário, uma das mais belas descritas pela literatura. Os parcos raios de luz
que penetraram na sua retina identificaram a sua mãe. Talvez tenha sido o mais
intenso olhar produzido entre um filho e uma mãe num clima de angústia.
Ele queria protegê-la e aliviá-la, mas era simplesmente
impossível. Ela queria tratar dele, mas também era impossível. Nesse momento,
Maria, com o seu olhar intuitivo, mais uma vez viu o invisível. Sentiu que
Jesus queria dizer-lhe algo. Essa percepção mexeu com as raízes da sua alma.
Reuniu uma força poderosa, agarrou os braços do jovem João e
enfrentou o cordão dos soldados. A mulher que tomou o filho nos braços para
fugir do psicopata Herodes, que deixou família, amigos, suporte material e
dormiu noites e noites sobre o chão, não podia ser contida por uma escolta.
Rompeu o cordão com intrepidez e aproximou-se da cruz.
Jesus sentiu a sua aproximação e, mais uma vez esqueceu-se de si
mesmo, deixou de lado a sua dor para se preocupar com a dor dos outros, agora
com a dor da sua mãe.
Reagiu de forma surpreendente, revelando mais uma vez que seria
impossível um autor construir uma personagem com as suas características de
personalidade. Num esforço magistral Jesus inclinou o seu peito para a frente e
respirou.
As fibras musculares lesadas aumentaram drasticamente o seu
sofrimento. Foi um movimento instigado pela energia do amor. Mas o ar era pouco
e as suas forças, diminutas. Não poderia falar muito. Então, soltou a sua voz,
dizendo: «Mulher, eis aí o teu filho.»
Esta curtíssima frase veio carregada de afecto e simbolismo sem precedentes.
Como não podia usar as mãos, falou meneando a cabeça ferida pela coroa de
espinhos. Apontou para João e disse para Maria tomá-lo como filho.
Mais uma vez, diante deste texto inúmeras pessoas ao longo da
História, inclusive inumeráveis teólogos, perguntam-se por que Jesus chamou
Maria de «mulher» e não de «mãe». Não entendem que Jesus usou novamente a sua
famosa senha: «mulher».
Não houve frieza, mas poesia. Não houve distância, mas intimidade.
Duas pessoas quando se conhecem intimamente e se amam profundamente não
precisam de discursos para comunicar. Bastam pequenos gestos, os símbolos do
afecto.
Jesus, como o mais amável dos filhos, parecia querer dizer a
Maria: «Mãe, eu amo-te, sabes quem eu sou. Entregaste-te por mim, agora eu
entrego-me também por ti. Sei que é quase impossível o que te vou pedir, mas
procuro colocar-te não como minha mãe, mas como uma mulher, a mais
bem-aventurada, a escolhida pelo meu Pai. Sê uma mulher forte. Eis João, toma-o
como teu filho. Sempre que tratares dele é como se estivesses a tratas de mim…»
Muitos filhos, com o decorrer do tempo, esquecem-se dos seus pais.
Não os visitam, não os abraçam, não lhes dão atenção. Usam como desculpas para o
afastamento os compromissos profissionais, as actividades sociais, as dívidas,
a fortuna, a doença, a distância, as viagens. O amor deles é limitado. Falta-lhes
gratidão.
Jesus jamais se esqueceu de sua mãe, mesmo quando estava a morrer.
Deu-nos um exemplo sublime de que os nossos pais devem ser uma prioridade na
nossa história.
Quando o seu coração físico estava quase a parar, ele amou-a mais
ardentemente com o coração emocional. Quando os pulmões mal se abriam, eles
inspiraram dolorosamente para pressionar as cordas vocais para confortar a sua
mãe…»
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