terça-feira, 13 de maio de 2014

Eis a Mulher...

Numa data tão querida para nós portugueses, 13 de maio, aqui fica um texto, emocionante, de Augusto Cury (escritor, psiquiatra, psicoterapeuta e investigador) do seu livro: Maria, a maior educadora da História, (2007, editora Livros de Hoje, p. 166 - 170). Nestas páginas que transcrevi, com a ajuda da minha primogénita Filipa Costa, o autor recorda os momentos finais de Jesus na cruz e de sua Mãe.

Foto: http://planetamariano.blogspot.pt/2013/07/nossa-senhora-da-piedade-pieta-de.html

«Maria sabia que iria perder o seu filho, mas Jesus poupou-a à angustiante antecipação. Não queria que o futuro a atormentasse. Se havia um transtorno psíquico que Jesus sempre tentava prevenir era o de sofrer por antecipação.
A sua habilidade em administrar as suas emoções era tão grande que conseguiu jantar na última ceia, mesmo sabendo que seria crucificado na manhã seguinte. Sabia do futuro sombrio, mas não admitia que as intempéries fossem um ladrão da sua tranquilidade no presente.
Embora Maria soubesse de algumas coisas que aconteceriam com o seu filho, tudo parecia surreal, como um anagrama. A sua prisão foi repentina e a sua condenação sumária, as suas feridas intensas. Bastou uma noite para o futuro nunca mais ser o mesmo.
Ao ver o seu filho agonizar na cruz, Maria mergulhava dentro de si. Não conseguiu fugir das imagens que transitavam na sua memória. O menino que ela amamentou, embalou e acarinhou e a cuja cabeça massajou tinha agora uma coroa de espinhos. O menino que sempre foi honesto, fiel aos seus pensamentos era agora tratado como o mais vil dos impostores.
Ela investia contra o cordão de soldados, queria abraçar os seus pés, cuidar das suas feridas e estancar o seu sangue, mas foi impedida de passar. Maria chorava copiosamente.
A mais forte das mulheres nesse momento era a mais impotente. A que se tornaria a mais famosa e a mais elogiada de todos os tempos entre as mulheres agora era a mais anónima e ninguém a ouvia. Os paradoxos que acompanharam o seu filho teceram também alguns textos da sua história. Ela não queria fama, elogios e exaltação, apenas abraçar o seu filho, pelo menos pela última vez.
Ele estava trémulo na cruz. Podia sentir as lentas batidas do seu coração, querendo descansar dos sofrimentos. Os pulmões, ofegantes, mal conseguiam respirar. O seu cérebro estava em sofrimento, tinha vertigens, queria desmaiar, mas ele esforçava-se para se manter lúcido até ao último minuto de vida. A sua coragem era impressionante.
A sua visão estava embaçada pelo edema, pelo sangue e pelo suor que penetravam nos seus olhos. De repente, ele ouve o som de uma mulher angustiada. Conseguiu distingui-lo de entre os inumeráveis sons de multidão. Era a sua mãe. Já era insuportável beber do seu cálice, mas vê-la assistir ao seu drama expandida ainda mais a sua dor.
Num esforço descomunal, num momento solene, ele move um pouco a sua cabeça em direcção aos sons que ouve. Queria dizer-lhe algo, mas não tinha fôlego.
Então, uma cena de raríssima beleza desenhou-se nos solos do Calvário, uma das mais belas descritas pela literatura. Os parcos raios de luz que penetraram na sua retina identificaram a sua mãe. Talvez tenha sido o mais intenso olhar produzido entre um filho e uma mãe num clima de angústia.
Ele queria protegê-la e aliviá-la, mas era simplesmente impossível. Ela queria tratar dele, mas também era impossível. Nesse momento, Maria, com o seu olhar intuitivo, mais uma vez viu o invisível. Sentiu que Jesus queria dizer-lhe algo. Essa percepção mexeu com as raízes da sua alma.
Reuniu uma força poderosa, agarrou os braços do jovem João e enfrentou o cordão dos soldados. A mulher que tomou o filho nos braços para fugir do psicopata Herodes, que deixou família, amigos, suporte material e dormiu noites e noites sobre o chão, não podia ser contida por uma escolta. Rompeu o cordão com intrepidez e aproximou-se da cruz.
Jesus sentiu a sua aproximação e, mais uma vez esqueceu-se de si mesmo, deixou de lado a sua dor para se preocupar com a dor dos outros, agora com a dor da sua mãe.
Reagiu de forma surpreendente, revelando mais uma vez que seria impossível um autor construir uma personagem com as suas características de personalidade. Num esforço magistral Jesus inclinou o seu peito para a frente e respirou.
As fibras musculares lesadas aumentaram drasticamente o seu sofrimento. Foi um movimento instigado pela energia do amor. Mas o ar era pouco e as suas forças, diminutas. Não poderia falar muito. Então, soltou a sua voz, dizendo: «Mulher, eis aí o teu filho.»
Esta curtíssima frase veio carregada de afecto e simbolismo sem precedentes. Como não podia usar as mãos, falou meneando a cabeça ferida pela coroa de espinhos. Apontou para João e disse para Maria tomá-lo como filho.
Mais uma vez, diante deste texto inúmeras pessoas ao longo da História, inclusive inumeráveis teólogos, perguntam-se por que Jesus chamou Maria de «mulher» e não de «mãe». Não entendem que Jesus usou novamente a sua famosa senha: «mulher».
Não houve frieza, mas poesia. Não houve distância, mas intimidade. Duas pessoas quando se conhecem intimamente e se amam profundamente não precisam de discursos para comunicar. Bastam pequenos gestos, os símbolos do afecto.
Jesus, como o mais amável dos filhos, parecia querer dizer a Maria: «Mãe, eu amo-te, sabes quem eu sou. Entregaste-te por mim, agora eu entrego-me também por ti. Sei que é quase impossível o que te vou pedir, mas procuro colocar-te não como minha mãe, mas como uma mulher, a mais bem-aventurada, a escolhida pelo meu Pai. Sê uma mulher forte. Eis João, toma-o como teu filho. Sempre que tratares dele é como se estivesses a tratas de mim…»

Muitos filhos, com o decorrer do tempo, esquecem-se dos seus pais. Não os visitam, não os abraçam, não lhes dão atenção. Usam como desculpas para o afastamento os compromissos profissionais, as actividades sociais, as dívidas, a fortuna, a doença, a distância, as viagens. O amor deles é limitado. Falta-lhes gratidão.

Jesus jamais se esqueceu de sua mãe, mesmo quando estava a morrer. Deu-nos um exemplo sublime de que os nossos pais devem ser uma prioridade na nossa história.
Quando o seu coração físico estava quase a parar, ele amou-a mais ardentemente com o coração emocional. Quando os pulmões mal se abriam, eles inspiraram dolorosamente para pressionar as cordas vocais para confortar a sua mãe…»

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