sexta-feira, 13 de maio de 2022

"Paulo de Tarso - FESTA DE PENTECOSTES" - Joy Harington (parte 1)

PRIMEIRA PARTE. A Festa de Pentecostes — Página: 13
(Tradução: Padre José Vicente Martins, SJ em 2013)

Simão Pedro prega no átrio do Templo. Cura do mendigo aleijado. Pedro e João presos por blasfémia. Levados à presença do Sumo-sacerdote. Gamaliel levanta-se em sua defesa.

Era a Festa de Pentecostes. O dia em que por todo o mundo os Judeus recordam o tempo em que Deus entregou a Moisés a Lei no Monte Sinai.
    Durante toda uma semana tinham estado a afluir a Jerusalém. Vinham de Este e de Oeste, ricos e pobres, brancos e negros, estudantes, comerciantes, doutores, advogados, homens de negócios, agricultores. Judeus das montanhas da Cilícia vestindo os seus casacos de pelo de cabritos, Judeus da África tão pretos como o ébano, Judeus da Macedónia já esquecidos da sua língua materna que apenas falavam Grego, Judeus de Roma vestindo a sua toga.
    Enchiam as ruas da cidade e engarrafavam os pátios do Templo, e das aldeias da Galileia e da Judeia caminhavam camponeses com as suas famílias ao longo das estradas poeirentas, conduzindo os seus camelos e jumentos carregados dos primeiros frutos da seara  para os oferecer a Deus no Templo, no grande dia da Festa de Pentecostes.
    Não eram muitos os que naquelas movimentadas estradas se lembravam de um homem chamado Jesus de Nazaré que tinha sido crucificado fora da cidade sete semanas antes.
    Era de manhã cedo no dia da grande Festa quando João Marcos, um rapaz de dezasseis anos, atravessou o pátio para a casa da sua mãe. Levava aos ombros um cântaro de água que tinha ido buscar ao poço no fim da rua. Ouviu-se o cantar de um  galo, mas de resto as ruas naquela manhã cedo estavam silenciosas. Marcos ficou surpreendido ao reparar que cerca de uma dúzia de pessoas se tinham juntado no pátio, esperando em silêncio e, aparentemente, em expectativa. Alguns deles olhavam para cima, para a janela da sala superior, a sala utilizada pelos hóspedes da sua mãe, os homens da Galileia.
    Marcos atravessou o pátio e subiu as escadas exteriores. Quando abriu a porta da sala de cima, a sua mãe que estava mesmo ao pé da entrada pôs o dedo nos lábios. Marcos olhou à volta da sala.  Estavam lá todos, todos menos Judas, é claro. O seu lugar tinha sido ocupado por um homem que Marcos não conhecia muito bem, um homem chamado  Matias. Simão Pedro estava sentado entre Tiago e João Zebedeu. Eram estes três os que tinham sido os amigos mais íntimos do Mestre. Marcos entendeu o silêncio que parecia dominar naquela sala de cima. Significava que os doze estavam a rezar. Muito cautelosamente colocou o cântaro no chão, deitou um pouco de água nos pés empoeirados e foi sentar-se ao lado da sua mãe. Na altura, Pedro levantou a voz. Falou com mais alguém que estava com eles naquela sala. Alguém que Marcos sabia estar lá, mas  que não podia ver.
    “Senhor Jesus, quando vivias connosco abriste as nossas mentes para entendermos as
Escrituras. Pedimos-Te que estejas connosco neste dia santo do Pentecostes.”
    Marcos e sua mãe associaram-se  aos homens quando cada qual  foi juntando a sua voz à oração.
    “Fica connosco neste santo dia de Pentecostes.” Fez-se uma pausa, e depois Pedro falou de novo:
    “Manda-nos o poder que Tu prometeste, Senhor, de maneira a estarmos preparados para espalharmos a boa nova do reino de Deus a todas as Suas pessoas reunidas em Jerusalém.”
    Desta vez as vozes ergueram-se como uma oração, “Manda-nos o poder, Senhor.” 
    O silêncio voltou a dominar novamente a pequena sala. Marcos lembrava-se de uma estranha, quase insuportável exaltação a percorrer-lhe o corpo. Que foi? Quando é que o tinha experimentado antes? Então recordou. Quando era ainda uma criança, tinha estado com o seu tio Barnabé em Chipre, na altura de um terramoto. Recordou o estranho, irrespirável silêncio de expectativa que envolveu a ilha de antemão. Foi como estava a ser agora. Alguma coisa — alguma coisa que ia abalar o mundo estava prestes a acontecer. Marcos estava a tremer, mordia fortemente os lábios para evitar o grito – era de alegria ou terror? – que precisava de lançar garganta fora.
    Os seus olhos fixaram as caras dos outros. Os olhos da mãe estavam fechados, e ele  sentia no próprio corpo o rápido bater do coração dela; a cara de João tinha uma aparência que nunca Marcos tinha visto antes, como se a carne fosse transparente e uma luz brilhasse por detrás. Pedro estava tão tranquilo, que parecia ser uma escultura feita de pedra. E Marcos sentiu na cara e no corpo o ardor da luz; a firmeza da rocha; o bater do coração; o estremecer da própria vida a preceder a espera. As caras agitavam-se diante dos seus olhos, a transformarem-se numa só cara. Os corpos num só corpo. Um corpo à espera – à espera – à espera. Marcos foi o primeiro a ouvi-lo, um ruído, a princípio distante, mas aumentando de intensidade como o som de uma ventania arrasadora. Cada vez mais perto chegou à sala e encheu o corpo que estava à espera. A luz que Marcos tinha visto e sentido por trás da cara, subitamente explodiu como em chamas.
    A quietação foi alterada quando um após outro, os homens que aguardavam à espera se levantaram – e um enorme grito se levantou.
    “O Senhor enviou-nos o Seu Santo Espírito.”
    No pátio em baixo as pessoas ficaram surpreendidas ao ouvirem gritos, risos, e passagens de salmos a irromper daquela sala de cima que tinha estado tão tranquila.
    “Que  aconteceu, estão bêbedos ou quê?” perguntavam as pessoas umas às outras.
    Os discípulos desceram pela escada abaixo ainda a cantar e a gritar.
    “Parecem possessos”, diziam as pessoas, mas  acompanharam-nos  quando  seguiram  pelas  ruas estreitas a caminho do Templo.
    No pátio do Santo Templo, o Rabi Gamaliel estava sentado com o seu círculo de alunos. Estava a ler-lhes do rolo do profeta Jeremias:
    “…. E eis que vem o dia, disse o Senhor, em que farei uma nova aliança com a casa de Israel…” Subitamente a voz do Rabi foi abafada por um grande ruído de gritos e cânticos de fora das portas do Templo. O povo começou a correr através do pátio para ver o que estava a acontecer. Gamaliel interrompeu a aula e os estudantes juntaram-se à multidão junto da Porta Preciosa.
    Os cânticos e os gritos aproximavam-se cada vez mais quando um grupo de doze homens subiam a estrada estreita que levava ao Templo.
    “Quem são eles?” perguntou um alto estrangeiro de Chipre.
    “São os Galileus,” disseram-lhe.     
    “Galileus?” 
    “Sim. Eu pensava que  agora já tivessem deixado a cidade.”
    “Quem são eles?” perguntou um jovem de Tarso, um dos discípulos de Gamaliel.
    “Alguma nova seita. Seguidores de um Nazareno chamado Jesus.”
    “Ele está com eles?”
    “Jesus? Não. Ele foi morto e sepultado. Crucificado na última Páscoa.”
    Um grito se levantou mais alto que as outras vozes.
    “Jesus está vivo!”
    Os doze tinham agora chegado já ao Pórtico de Salomão e o povo estava a juntar-se à volta deles.
    O homem de Chipre voltou-se para o seu amigo, “Anda lá, Saulo, vamos ouvir o que é que estes Galileus estão a clamar.
     Avançou para o pórtico, e Saulo seguiu-o.
     A alegria e a exaltação dos Galileus tinham afectado o feriado das multidões que bastante naturalmente reclamavam contra eles, “Que vergonha. Cheios de vinho novo tão cedo de manhã!”
 

Pedro no dia de Pentecostes

    Simão Pedro levantou os braços e a multidão acalmou. A sua voz estava animada de exaltação. “Homens da Judeia e todos vós que estais nesta Santa Cidade, ouvi o que tenho a dizer-vos. Nós não estamos bêbedos, como podereis imaginar…são ainda só nove da manhã. –- !” 
    Uma agitação de riso percorreu a multidão e alguém gritou,”Que é que então tendes dentro de vós?”
    “O Espírito Santo.”
    “O quê?”
    “Que queres dizer, o “Espírito Santo?” 
     Novamente Pedro ergueu os braços. “Oiçam então, e eu vos direi. Hoje uma grande profecia foi cumprida e vós sois testemunhas.” 
    A multidão estava agora calada, e em expectativa. Pedro olhou à volta para o conjunto de rostos. “Eu não sou perito como alguns de vós, cavalheiros,” disse, “mas lembro-me de aprender estas palavras quando era ainda rapaz. “Hei-de derramar o meu Espírito sobre a humanidade. Os vossos jovens hão-de ter visões e os vossos anciãos hão-de ter sonhos. Mesmo sobre os meus servos e servas derramarei o meu Espírito.” Filhos de Israel, é esta a profecia que vedes cumprida. O Espírito de Deus derramado sobre a humanidade, sobre
mim e estes homens aqui que viram coisas mais admiráveis que visões e sonhos… Vimos coxos a andar, cegos a ver, pecadores a converterem-se em santos – mortos a voltar à vida.” Um murmúrio de descrença percorreu a multidão. Pedro levantou a voz. “Sim, nós vimos tudo isto, e não só nós, muitos de entre vós viram também – Não há ninguém que se lembre de Jesus o Nazareno?”
    Só um homem se lembrava. “Queres dizer aquele homem que foi crucificado na última Páscoa?”
    “Sim. O homem que vos foi enviado por Deus e que vós crucificastes.”
Levantaram-se vozes na multidão. “Não fomos nós que o matámos, foram os Romanos.”
   “Foi um dos vossos amigos. Um do vosso grupo que O atraiçoou.”
    Mas Pedro não era de ficar abalado. “Ele foi enviado por Deus para vós, Ele foi atraiçoado por um homem para vós. E vós entregaste-lo àqueles homens infiéis que O pregaram na cruz e O mataram…Mas a morte não O podia deter. Nem a nossa cegueira, nem a nossa maldade, nem o nosso medo podiam vencer o plano de Deus. Lembrais estas palavras, “Tu não deixarás a minha alma no lugar da morte, nem permitir que o Teu
Santo veja a corrupção?”
    Alguns dos ouvintes estavam a ficar impacientes e um clamou. “Que é que isso tem que ver com Jesus o Nazareno? Estás a citar o Santo Salmista David.”
    “Irmão,” disse Pedro, dirigindo-se directamente a quem tinha falado, “Numa coisa pelo menos estamos de acordo. O Santo Patriarca David morreu e foi sepultado e o seu túmulo está connosco até este dia. É portanto óbvio, não é, que David não falava de si próprio, mas de Alguém que havia de vir depois dele? Do Messias. E também, quando David disse, “O Senhor disse ao meu Senhor “Senta-te à minha direita,” a sua visão era do Messias, o Cristo, a sentar-se à direita de Deus. Um Messias que havia de nascer da sua própria linhagem, para viver como um homem entre os homens, para acabar com as amarras da morte e depois voltar a Deus Pai que havia de enviar o Seu Espírito, o Espírito do Cristo vivo, para viver nos corações dos homens…. Irmãos, foi precisamente isto que aconteceu. Jesus de Nazaré nasceu da casa de David. Viveu entre nós a pregar o Reino de Deus, e nós podemos testemunhar os sinais e milagres que Deus fez por Ele. Mas, aqui está a prova absoluta. Apesar de Ele ter sido atraiçoado e condenado à morte e crucificado; apesar de ter sido descido da cruz e sepultado num túmulo – Deus ressuscitou-o novamente para e vida. Todos nós aqui O vimos muitas vezes depois da Páscoa, falámos com Ele, tocámos nele, comemos com Ele. E ainda na semana passada quando falávamos com Ele lá em cima  no Monte das  Oliveiras como agora estou a falar convosco,  subitamente foi como se uma nuvem O envolvesse e O tirasse da nossa vista. Soubemos então o que tinha acontecido. Tinha voltado ao Céu para se sentar à direita de Deus Pai. E ao Nosso Pai Ele pediu para nós, o longamente prometido dom do Espírito Santo.” A voz de Pedro elevou-se a um grito. “É convosco, agora convosco declarar se ides arrepender-vos dos vossos pecados e serdes baptizados em nome de Jesus o Cristo.”
    Não havia dúvida que as admiráveis palavras de Pedro tinham dominado os seus ouvintes. Uma onda de exaltação percorreu a multidão quanto à pergunta, “Jesus o Cristo?” que foi assumida e transmitida de um a outro. Somente Saulo, o jovem de Tarso, ficou em silêncio e horrorizado.
    Por fim, uma única palavra saiu dos seus lábios. “Blasfemo!”
    O Cipriota voltou-se, admirado com a paixão que a voz do seu amigo denunciava. “E se isto é a verdade, Saulo?”
    “Barnabé!” Foi como um grito a pedir socorro.
    A multidão tinha-se motivado a um pico de exaltação febril. A voz de Pedro soou  mais alto que a dos outros. “Vamos lá então, todos os que  quiserem. Venham connosco ao nosso alojamento, comer e beber e serem baptizados.”
    O barulho foi abrandando gradualmente enquanto a multidão seguia os Galileus estrada abaixo. Barnabé  desejava acompanhá-los. Falou de novo com o seu amigo. “Eles estão a ficar em casa da minha irmã. Este a quem chamam o Messias também lá ficou na altura da Sua prisão.”
    “Quer dizer que também os conheces?
    “Não, ainda não. Há apenas  dois dias que saí de Chipre. Mas o meu jovem sobrinho escreveu-me a respeito dos homens da Galileia e daquele que foi crucificado. Pareceu-me um assunto feio e perigoso, e não gostava que a minha irmã estivesse também envolvida nisso. Mas agora…”
    “Enfeitiçaram-te com este enredo de mentiras!”
    “Não foi assim tanto o que me disseram, é a alegria e a vida que eles têm. Quer dizer – bem, aqui anda um grupo de homens longe de casa, com o seu líder executado como um criminoso. Esperar-se-ia que se sentissem enganados – medrosos – vingativos,--- não te parece?”
    A voz de Paulo foi dura. “Endoideceste, Barnabé? Não vês que esta monstruosa mentira é precisamente a maneira de estes fanáticos derrotados se vingarem da morte do seu líder?” Agora falava precipitadamente. “Um criminoso é executado. Os seus amigos roubam o corpo, e então manipulando os sentimentos do povo com citações tiradas  manhosamente  das Escrituras, anunciam que o seu líder voltou de novo à vida. Nota que ninguém O viu, a não serem eles. E no caso de perguntares, “Onde está Ele agora?” dizem-te que subiu ao Céu, “numa nuvem” se faz favor… Ora, dava para rir se não se tratasse de uma blasfémia condenável e viciosa.”
   “Mas qual seria o proveito disso?” Que é que eles poderiam esperar ganhar com isso?”
   “Fosse o que fosse que o seu líder pretendesse ganhar. Ele não foi crucificado sem um 
interesse, podes estar seguro disso. Afasta-te deles, Barnabé, por amor de Deus.
   Mas Barnabé ficou inalterável ouvindo as palavras do seu amigo. Afastou-se à pressa pela  estrada abaixo, deixando ficar o  amigo sozinho.
    Maria estava ocupada. Mais ocupada que durante alguns anos tinha estado. O pátio abaixo da sua janela estava apinhado de gente, e pedidos exaltados lhe eram transmitidos enquanto ela se apressava com a preparação de pratos e mais pratos de comida. Entregou um tabuleiro cheio à pequena rapariga de serviço.
   “Aí tens, Rhoda, leva tudo lá abaixo, e vem dizer-me  depois se precisam de mais.”
    Quando Rhoda se encaminhava para a porta, entrou Marcos à pressa com um grito, “Olha, mãe, quem está aqui.”
    Maria levantou os braços para o homem jovem e alto que estava a sorrir à porta de entrada. “Barnabé! Que bom! Eu sabia que tentarias vir cá para a Festa.”
    O  irmão dela apressou-se rapidamente ao seu encontro, e abraçou-a afectuosamente.
    “Marcos, traz  algum vinho para o teu tio, e depois vai ao poço buscar mais água.”
    Depois de Marcos ter saído com o cântaro vazio, disse Barnabé, “Maria, acabei de ouvir um dos teus Galileus a pregar no Templo.”
    Maria corou. “Estiveste lá, estiveste? Era Simão Pedro. Dizem que ele falou como um dos profetas de tempos passados, como se estivesse inspirado. Foram milhares que o acompanharam até aqui.”
    Barnabé falou com súbita pressa .“Maria, acreditas que Jesus ressuscitou dos mortos?” 
    Maria olhou para o seu irmão. “Ele disse-vos isso, não disse?”
   “Sim, ele disse.” O seu tom de voz foi duro.  Maria continuou a cortar o pão calmamente.  
   “Maria, porque é que ele lhes disse isso?”
   “Porque é verdade.” 
   “Então, tu acreditas que Ele era o Messias?” 
   “Eu sei-o.” 
     A simples aceitação da sua irmã de algo tão admirável, tão tremendo, fez com que ela  passasse a ser para ele uma estrangeira. Por um momento sentiu-se frio e calou-se. A sua voz tremia-lhe um pouco quando falou. “Mas…que é que isso quer dizer?”
    Maria olhou para o seu irmão com compaixão. “Pedro está sempre a dizer-nos que não tentemos olhar para a frente demasiado longe. “O pão-nosso de cada dia nos dai hoje.” Esta é uma oração que o Mestre lhes ensinou. Nenhum de nós sabe o que será o fim, diz ele. Tudo o que podemos fazer, é tentar seguir as pegadas do Mestre.”
    “Mas quanto àqueles que nunca O conheceram?”
     A voz calma de Maria teve agora um toque de irritação. “Mas tu podes conhecê-lo. Isso faz toda a diferença. Tens apenas que acreditar. Oh, eu não sou pregadora, não sou capaz de encontrar as palavras, sei apenas que é como uma porta que se abre, como o nascimento para uma vida nova.”
    Barnabé afastou-se dela e foi olhar da janela para baixo, para as multidões exaltadas no pátio. De entre o ruído das vozes uma se sobrepunha às outras.
   “Jesus é Senhor.”
   “Alguém chamaria a isto blasfémia,” disse ele.
    No pátio do Templo estava Gamaliel sentado com o seu círculo de alunos. O jovem Saulo estava de frente para ele.
    “Mestre, poderia dizer-nos a sua opinião a respeito da seita chamada “Os Nazarenos?”
    “Nazarenos?”
     Saulo não conseguiu disfarçar a revolta da sua voz. “Os homens da Galileia que seguiam Jesus de Nazaré.”
    “Oh, esses!” Gamaliel como de costume falou com liberalidade ponderada. Eles têm bastantes seguidores, não têm? Bem, por tudo o que tenho ouvido, têm estado a fazer muita coisa boa na cidade. A alimentar os pobres, a tratar das viúvas e órfãos, e a ensinar as pessoas a levar uma vida piedosa.”
    A voz de Saulo interrompeu a do seu mestre como uma chicotada. “Mestre, com todo o respeito, penso que não deve ter conhecimento do que eles estão a ensinar. Ouvi-os com os meus próprios ouvidos a proferirem blasfémias.”
   “Blasfémias? Isso é uma acusação séria. Tem cuidado com o que dizes, meu filho.”
   “Mestre, eu apenas relato o que vi e ouvi. Na semana passada um pescador Galileu, que parece ser o porta-voz deles, declarou publicamente que Jesus, o Nazareno, justamente crucificado, era o Messias de Israel.”
   “Bem?” 
    Saulo refreou com dificuldade a sua ira e levantou a voz. “Eles ensinam que este…este criminoso crucificado ressuscitou dos mortos e está agora sentado à direita de Deus. Não é isto blasfémia?”
    O Rabi Gamaliel olhou para o seu aluno, Saulo. Gostava deste jovem, um dos mais diligentes e profundamente religiosos da sua aula, mas deu-se conta da perigosa luz de fanatismo nos seus olhos escuros e furiosos. Falou-lhe tranquilamente, mas com firme autoridade. “Deus não nos fez para sermos juízes uns dos outros, Saulo. Espera que sejamos vigilantes, não fanáticos. Nós não sabemos em que tempo e de que maneira Ele há-de enviar o Seu Messias ao Seu povo, mas fomos avisados pelos profetas que haverá sinais e milagres em que os homens não acreditarão apesar de os verem. Eu penso que os homens estão à espera de uma espécie de Messias que eles criaram na sua imaginação. Os caminhos de Deus não são os nossos caminhos, Saulo, e o tempo mostrará se o ensino dos Nazarenos é verdadeiro ou falso.”
    Através do pátio soaram as agradáveis notas das trombetas de prata, a convocar o povo para a cerimónia da tarde. Gamaliel levantou-se e despediu os seus alunos. Saulo ficou sozinho, a tremer de raiva e de amargo desapontamento.
    Entre o povo que passava através da Porta Preciosa para a cerimónia da tarde, um homem era levado às costas de outro. A sua cara e ombros eram os de um homem no começo da vida, mas a pernas finas e sem vida, podiam ser as de um rapaz de dez anos. O seu amigo encostou-o a um dos grandes pilares.
    O aleijado falava alegremente, como alguém acostumado havia muito tempo a esta rotina. “Vens buscar-me depois da cerimónia?”
    “Claro. Boa sorte.”
    E foi juntar-se à multidão no pátio do Templo.
    O homem começou logo o seu clamor sing-song. “Por caridade dêem alguma coisa a um aleijado de nascença.”
    Dois homens, pescadores da Galileia, estavam a entrar na porta. Quando passaram por ele, o mendigo estendeu a mão. “Uma ajuda, bons senhores, uma ajuda para o aleijado.”
    Pedro e João pararam e olharam um para o outro. A mesma lembrança sobreveio à mente de cada um. A lembrança do seu Mestre a passar pelo meio de uma semelhante multidão e um homem aleijado a pedir ajuda. O mendigo tinha-se voltado  para outros  aos  quais estava a fazer o seu apelo. “Por caridade, ajudem um aleijado de nascença.”
    A voz de Pedro fez-se ouvir, “Olha para nós.”
    O homem virou-se ansiosamente para eles, estendendo a mão novamente.
Olhando fixamente para os olhos dele, Pedro disse-lhe com tranquila intensidade. “Não tenho oiro nem prata, mas dou-te aquilo que tenho… Em nome de Jesus Cristo de Nazaré…levanta-te e anda!”
    O homem olhou para eles com admiração. Pedro pegou-lhe na mão estendida e ajudou-o a pôr-se de pé,  suportando-o João do outro lado.
O olhar de admiração na cara do homem transformou-se numa inacreditável maravilha. Pedro e João sentiram os braços fortes dele a tremer quando o homem se inclinou pesadamente nos seus ombros. Primeiro disse em voz baixa,. “Eu estou de pé…os meus pés, os meus tornozelos, posso senti-los…estão a tremer, estão a doer…estão a voltar à vida!” E depois, um grito – “Louvado seja Deus….  Louvado seja o Senhor…Eu posso estar levantado.”
    “Agora anda.”
    “Andar?”
    “Entra no Templo e agradece a Deus.”
     Apoiado em Pedro e João o homem começou por dar um passo hesitante, depois outro, depois outro. A cada passo ganhava força e na altura em que se juntaram à multidão no pátio do Templo ia já a pular e a saltar.
    Do interior do Templo ouviam-se as vozes dos homens e rapazes do coro Levita. No pátio congestionado tudo estava tranquilo e os adoradores escutavam.
 

Barnabé e Saulo

 

O mendigo aleijado na Porta Preciosa

    Subitamente o silêncio  foi alterado e todos os olhos se voltaram para a Porta Preciosa quando roucos e exaltados gritos se misturaram com as vozes do coro.
    “O Senhor deu vida às minhas pernas. Louvado seja Deus que olhou para o sofrimento do Seu servo e teve pena de mim!”
     Os devotos adoradores começaram a murmurar, primeiro com irritação, depois com interesse.
    “É o mendigo da Porta Preciosa. Ele está a andar.”
    “Mas ele toda a vida foi aleijado. Eu lembro-me de ele ser trazido para a Porta quando era ainda uma criança.”
    “Olha aqueles dois com ele, não são dois dos Nazarenos?”
     Os cânticos do Templo tinham chegado ao fim, e as vozes no pátio levantaram-se em exaltação, quando a notícia do mendigo aleijado se espalhou.
    “É um milagre.”
    “O mendigo aleijado foi curado.”
    “Foram os Nazarenos.”
     O jovem Saulo ficou logo alerta, e quando as multidões corriam para o Pórtico de Salomão onde Pedro e João tinham conduzido o mendigo, estava uma vez mais sozinho.
    Não ficou só por muito tempo. O Sumo-sacerdote, Anás, descia as escadas do Templo, acompanhado pelo Comandante do Templo. Quando Saulo os viu a conversar juntos, tomou a decisão de falar. Como Fariseu, era amargamente oposto ao regime sacerdotal, mas não tendo o apoio do seu Rabi, engoliu a soberba e decidiu apelar ao mais poderoso Judeu de Jerusalém. Aproximou-se do Sumo-sacerdote. “Meu Senhor.” Anás voltou-se. “Os Nazarenos estão a falar outra vez no Pórtico de Salomão.”
    “Quantos?”
    “Hoje só dois, meu senhor, mas juntaram uma enorme multidão. Um mendigo aleijado clama ter sido curado por eles.”
    “Não é pecado curar os doentes.
     Mas o Comandante imediatamente sentiu perigo. “Isso é verdade, meu senhor, mas lembras-te da perturbação que os assim-chamados milagres do seu líder causaram.”
    Anás lembrava-se. “Jesus de Nazaré? Mas Ele era um blasfemo.”
    Saulo falou  apressadamente. “Estes homens também pregam blasfémias, meu senhor. Dizem que este Jesus é o Messias e que Deus O ressuscitou dos mortos.”
    O Sumo-sacerdote voltou-se para o seu Comandante e falou com dureza. “Tem que se acabar com isto.”
    “Sim, meu senhor. Devo prendê-los?”
     Anás acenou que sim. “Mas como naquela outra ocasião, apanha-os tranquilamente.”
     O Comandante acenou, e fazendo sinal a dois dos seus guardas, encaminhou-se na direcção do Pórtico de Salomão. O Sumo-sacerdote seguiu o seu caminho. Saulo ficou a olhar com um ar de triunfo na sua cara.
    Na sala de cima Maria e Marcos estavam a arranjar os colchões para a noite. A casa estava tão cheia desde que os doze Nazarenos tinham ficado com eles, que Maria e o seu filho tinham que dormir nesta sala.
    Fechaste a porta, Marcos?”
   “Ainda não. Pedro e João ainda não estão cá.”
   “Tens a certeza?”
   “Sim. Os outros estão cá todos, mas esses dois não.
   “Onde é que terão tido que ir?”
    Ouviu-se o som de pés apressados a subir as escadas.
   “Devem ser eles.”
    Marcos foi à porta e olhou pelas escadas abaixo. “Não. É o Tio Barnabé.”
    Barnabé entrou por ali dentro. Parecia estranhamente animado.
   “Desculpa, Maria, por vir tão tarde, mas acabei agora mesmo de resolver uma coisa, e tinha que vir dizer-te.”
   “De que é que se trata, irmão?”
   “Eu não volto para Chipre.”
   “Mas a propriedade?”
   “Vou vendê-la.”
   “Que vais fazer então? Montar negócio em Jerusalém?”
   “Eu quero ficar aqui contigo e com Marcos. Posso?” 
   “Claro, irmão. Mas o que vais fazer?”
    Barnabé aproximou-se dela e pegou-lhe nas mãos. “Eu quero juntar-me a estes Nazarenos e trabalhar com eles.”
   “Barnabé!”
   “Ouve, Maria, quando tiver vendido a minha propriedade em Chipre e tiver o dinheiro, quero dá-lo a eles.”
   “Todo?”
   “Sim, todo. Nunca me trouxe felicidade. Só um monte de trabalho e aborrecimento, e, pior ainda que isso, estava a tornar-se uma espécie de dono de mim. Um mestre que tinha que servir. Bem, está tudo ao contrário, não é? O dinheiro deve ser um servo, não um senhor, e parece que encontrei o lugar onde pode servir melhor.”
    Maria não falou.
   “Não pensas que está certo, Maria?”
   “Eu sei que está certo.” Beijou o seu irmão afectuosamente.
    Marcos ficou igualmente exaltado com a notícia. “Quem dera que Pedro estivesse cá também  para lhe podermos dizer.
   “Onde está ele?”
   “Não sabemos,” disse Maria. “Ele foi ao Templo esta tarde com João e nenhum deles  voltou ainda para casa desde então, nem sequer para a refeição. Eles costumam habitualmente estar todos em casa antes disto. Temos que deixar a porta no trinco, Marcos, não podemos ficar levantados toda a noite.”
    Numa cela da prisão no recinto do Templo, Pedro olhava para fora pela pequena janela com uma grade. Era manhã cedo e um galo cantou. Aquele som dominou Pedro com uma lembrança terrível. João ouviu-o a murmurar:
    “Oh, Mestre, não me abandones.”
    João foi ter com ele. “Ele disse-nos que havia de ser assim, Pedro. Lembras-te? Que havíamos de ser perseguidos por Sua causa.”
    “Sim.” O galo cantou de novo e desta vez a voz de Pedro sobrepôs-se ao  barulho.   “Desta vez não O negarei.”  
    O Conselho estava reunido. A corte estava sentada em semicírculo, o Sumo-sacerdote e os Saduceus de um lado, os Fariseus do lado oposto. Gamaliel estava daquele lado com os outros Rabis. Os alunos deles, incluindo Saulo, ocupavam as três filas da frente. Gamaliel estava a falar à assembleia atenta.
   “Eu gostaria de relembrar a corte que estes Nazarenos não fizeram até agora nada contra a lei dos Fariseus. A doutrina da Ressurreição que eles pregam é, como sabe o meu senhor, uma das nossas crenças mais fortes.” 
    O Sumo-sacerdote estava impaciente. As estritas regras dos Fariseus não lhe interessavam.
   “Sim, sim. Nós sabemos.  A corte não está reunida para discutir esse ponto.”
    Gamaliel não era homem para ser descartado.
   “Está então reunida, meu senhor, por causa da assim-chamada cura de um mendigo?”
     Anás fez sinal a um dos anciãos que se levantou e com deliberado aborrecimento, entregou uma réplica ao velho Rabi.
    “Se for trazida uma acusação contra estes homens não será por pregarem a doutrina da Ressurreição, nem por se dizer que um aleijado tenha sido curado por eles, mas por estes homens pregarem que o Nazareno Jesus ressuscitou dos mortos, e que em Seu nome podem curar doentes. Sentou-se. O Sumo-sacerdote disse:
   “Está satisfeito, Rabi Gamaliel?”
   “Por agora, sim, meu senhor.
    Gamaliel sentou-se no seu lugar e Anás chamou um dos guardas.
   “Tragam os prisioneiros para dentro.”
    O guarda saiu. Anás relaxou e falou ao Conselho.
   “Eu não penso que a corte esteja aqui por muito tempo. Se me lembro correctamente, estes Nazarenos são homens ignorantes e covardes. Bastante bravos quando rodeados por uma multidão admirada mas em frente da autoridade fogem. Todos eles abandonaram o seu líder quando Ele foi preso.” 
   O guarda abriu a porta da cela.
  “O Sumo-sacerdote está à vossa espera.” 
   Quando Pedro seguiu João para a porta, o galo cantou pela terceira vez.
   Abandonaram a cela seguidos pelo guarda.
    Na câmara do Conselho o terceiro prisioneiro enfrentava a Corte. Estava orgulhoso, apesar de uma pequena dificuldade, nas suas pernas finas e compridas, com o queixo descaído ao ver aquela  formidável assembleia, mas quando o guarda entrou com Pedro e João, um sorriso de agrado iluminou a sua cara e chegou-se à frente para ficar tão perto deles quanto fosse possível. O ancião que estava a agir como prossecutor do Conselho, levantou-se.
   “Simão filho de João, João filho de Zebedeu e Jacob filho de Ezra. O Conselho deseja que entendais que não estais aqui por nenhuma acusação, mas para ser feito um inquérito acerca de certo incidente que teve lugar junto da Porta Preciosa ontem à tarde…Jacob filho de Ezra?
   “Sim?” O mendigo estava agora bastante satisfeito. 
   “Que idade tens?”
   “Eu não sei exactamente. Mas passei dos quarenta, isso sei.”
   “Qual é o teu trabalho?”
   “Bem, eu nunca tive trabalho, senhor.”
   “Porque foi isso?”
   “Porque era aleijado, senhor. Não podia andar nem estar de pé.” 
   “Aleijado? Há quanto tempo?”
   “Sempre, desde que nasci, senhor.
    Um dos Fariseus levantou-se para declarar:
   “Há testemunhas, para provarem a verdade disso, meu senhor.”
    O ancião ignorou a interrupção e continuou o seu questionário.
   “Queres dizer à corte como é isso de agora seres capaz de estar de pé e andar?
   “Com todo o gosto, senhor.” O mendigo virou-se agradavelmente para enfrentar a corte. “Foi assim: Eu estava sentado junto da Porta Preciosa ontem à tarde, porque é ali que sempre me tenho sentado, por ser por onde a maior parte do povo entra para o Templo  na parte da tarde…”
    O ancião interrompeu esta fluência reminiscente. “Conta apenas à corte o que  foi que aconteceu.”
    Indisciplinado, o homem continuou: “Bem, chegaram estes dois, e eu estendi a mão para uma dádiva, como sempre faço. Eles pararam e este, Pedro como lhe chamam, disse, “Olha para nós.” Fiz o que ele mandou, e quando ele pegou na minha mão, imediatamente senti a força a começar a afluir às minhas pernas até aos ossos dos tornozelos. Nunca antes tinha sentido neles alguma coisa. Apenas mortos é que estavam. Então ele disse, “Levanta-te e anda,” e eu levantei-me! Não só me levantei, andei, corri e saltei--assim.” E em frente da augusta assembleia, o mendigo, com os braços à volta dos ombros dos seus amigos, levantou as pernas ao ar, saltou para cima e para baixo, e correu a tremer para a porta e voltou atrás. Houve um sussurro de riso dos jovens estudantes, mas a voz do ancião foi firme.
   “Basta.” Voltou-se para Pedro. “Simão, filho de João, ouviste o depoimento deste homem. É verdade o que ele diz?”
   “Sim.”
    Quase persuasivamente, o ancião continuou: 
   “Queres dizer à corte porque poder ou em nome de quem tiveste a possibilidade de fazer esta cura?”
    Não houve mais que uma pausa de um segundo para a voz de Pedro declarar:
   “Em nome de Jesus Cristo de Nazaré que vós crucificastes e Deus ressuscitou dos mortos.” 
    Não houve agora risos. Apenas alguns sussurros de choque. 
    O ancião perguntou a João:
   “Que é que tu dizes, João filho de Zebedeu?”A resposta de João foi cheia de alegria:   
   “Ele foi curado pelo poder de Jesus o Cristo.”
    No silêncio morto que se seguiu, Saulo notou um trémulo desconforto na cara do Sumo-sacerdote. Deu então uma ordem ao guarda:
   “Leva os prisioneiros e que esperem lá fora.”
    Os três prisioneiros apressaram-se a sair. Novamente Anás interrompeu o silêncio.
   “O perigo é maior do que nós imaginávamos. Estes homens tornaram-se corajosos. É bastante claro que num espírito de vingança pela morte do seu líder, estão a tentar manipular os sentimentos do povo, incitando-o contra os seus chefes. Se os deixamos ir, vão causar tanta perturbação como a que causou o Nazareno.”
    O ancião que tinha ouvido os depoimentos, relembrou a Anás o perigo mais que imediato.
   “Não há dúvida, meu senhor, que uma cura miraculosa aconteceu.”
    O Sumo-sacerdote continuou a pensar alto:
   “E o povo sabe-o. Se guardamos estes homens na prisão, serão olhados como mártires, e a situação será pior do que é já. Poderia mesmo provocar as autoridades Romanas.” 
    Gamaliel levantou-se.
   “Posso sugerir, meu senhor, que não há perigo real nestes homens. São ambos Judeus
tementes de Deus. É só a exagerada ideia acerca do seu líder que pode ser perigosa. O meu senhor poderia explicar-lhes que, uma vez que todo o poder vem de Deus, não está certo usarem o nome do seu líder morto.”
   Anás ficou agradecido por qualquer proposta que o ajudasse a sair deste dilema.
  “Aceito a tua sugestão, Rabi Gamaliel…Chamem de novo os prisioneiros.”
   Um guarda abriu a porta e acenou-lhes. Pedro, João e o mendigo entraram e ficaram de pé como antes, em frente da corte.
   A voz do Sumo-sacerdote foi cativante ao dirigir-se aos dois Nazarenos.
   Tendo em conta o indubitável benefício que de alguma maneira trouxestes a este homem, a corte decidiu apreciar por alto certos aspectos do vosso caso e deixar-vos ir livres para continuar o vosso bom trabalho, com uma condição. De maneira nenhuma pregareis ou curareis em nome de Jesus de Nazaré.”
   Houve um momento de pausa e depois Pedro falou.
  “Meu senhor Sumo-sacerdote, deveis  julgar  se  é  certo  perante  Deus obedecer-lhe a Ele, ou obedecer-vos a vós.”
   Anás pareceu embaraçado, mas o seu tom mudou para ameaça.
  “Eu vos aviso, se falardes nesse nome, a punição será severa.”   
   João não hesitou um momento.
  “Nós falamos daquilo que vimos e ouvimos, meu senhor, não podemos parar.”
   “Ouvistes o que vos mandei.”
    Mas Pedro teve a última palavra:
   “Devemos fazer como Deus manda, meu senhor, porque não podemos pôr os mandamentos dos homens acima dos de Deus.”
    Saulo não pôde conter-se mais. Numa arremetida de ira levantou-se.
   “Estes homens são blasfemos! Merecem morrer!”
    Imediatamente Gamaliel se levantou. A sua voz era calma mas falou apressadamente.
  “Homens de Israel, tende cuidado com o que fazeis. Aviso-vos que deixeis estes homens em paz. Porque se o que eles ensinam vem dos homens, acabará por si mesmo, mas se vier de Deus, tudo o que possais fazer, não será capaz de o vencer. Tende cuidado para não vos encontrardes a lutar contra Deus.” 


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