sábado, 14 de maio de 2022

"Paulo de Tarso - A CAMINHO DE DAMASCO" - Joy Harington (parte 2)

SEGUNDA PARTE. A caminho de Damasco — Página: 27
(Tradução: Padre José Vicente Martins, SJ em 2013)


Estêvão é apedrejado. Começa a perseguição. Saulo de Tarso fica cego no caminho para Damasco. Visitado por Ananias, recupera a vista, e prega na sinagoga. Cristo crucificado. Fuga de Saulo de Damasco.   


Em dois anos o número de “Nazarenos” em Jerusalém tinha aumentado em milhares. Partilhavam uns com os outros tudo o que tinham, e alguns, imitando o gesto de Barnabé, vendiam as suas terras e traziam o dinheiro à irmandade para ser distribuído entre o povo 
conforme as suas necessidades. Muitos dos Judeus de terras estrangeiras, tinham-se juntado a eles. Entre estes estava um jovem chamado Estêvão.
    Naquela manhã, como de costume, o pátio da casa de Marcos estava cheio de gente. Eram os pobres da cidade que ali se amontoavam diariamente para receberem o pão. Junto da porta estava um grupo de mulheres de véu preto, as viúvas. Todas, excepto uma delas, receberam a sua parte de pão e foram-se embora. Estêvão atravessou o pátio para  o lugar onde a velha senhora se encontrava  sozinha.
    “Porque não recebeu o pão, mãe?”
     Tristemente a mulher respondeu: “Só  o  dão  aos  Judeus  locais:”
    “Donde é você?”
    “Da Cilícia. O meu marido e filhos morreram e eu vim para a terra-mãe, para estar junto do meu povo. Mas entre eles sou uma estrangeira.”Estêvão meteu-lhe na mão algumas moedas. “Tome lá isto, mãe, e vá comprar pão para si, mas amanhã venha aqui outra vez.”
A mulher beijou-lhe a mão e com um envergonhado sorriso de gratidão partiu rápida pela  rua abaixo. Estêvão ficou a olhá-la. Barnabé veio ao seu encontro, mas hesitou ao  vê-lo tão concentrado a pensar. Depois  Estêvão disse-lhe: “Têm que ser alimentados. Toda a gente  deve ser alimentada.”
Quando Barnabé e Estêvão entraram na sala de cima, os doze estavam sentados, preparados para tomarem a sua refeição da manhã.  De pé, junto da porta  esperavam que Pedro partisse o pão e rezasse a bênção. “ Bendito é Tu, Senhor, Rei do Universo, que da
terra nos dás o pão.” O pão foi passado à volta, e os irmãos começaram a conversar uns com os outros. Barnabé aproximou-se.
    “Posso falar contigo, Pedro?”
     Pedro recebeu-o com um sorriso. “Irmão Barnabé! Senta-te e come.”
     Quando Barnabé atravessou a sala e se sentou a seu lado, Pedro notou Estêvão de pé, junto da porta. “Quem é o teu amigo?” perguntou tranquilamente. “Parece um estrangeiro.”
    Pedro ficou surpreendido com a reacção a esta pergunta.
    “O que é um estrangeiro? Eu sou de Chipre. Dizes que sou um estrangeiro?”
    Sentindo que de alguma maneira tinha ofendido o seu amigo, Pedro apressou-se a pô-lo à vontade. “Eu conheço-te como um verdadeiro filho de Israel e um fiel seguidor do Senhor'', disse com um sorriso. “Apenas queria dizer que o teu amigo se parece mais com um Grego que com um Judeu.”
    “Ele é um Judeu de Alexandria. Há muitos como ele lá em baixo no pátio, e todos eles foram baptizados em nome de Jesus.”
    Pedro ficou desolado. “Desculpa-me, irmão, eu não o reconheci. Há agora tantos, tantos milhares. É difícil conhecê-los a todos.”  Da  mesa, chamou por Estêvão. “Senta-te e come, meu irmão, és muito bem-vindo.”
    André e Mateus arranjaram um lugar para Estêvão, e abasteceram-no de comida, bebida e perguntas. Aliviado, Pedro começou a comer. Mas Barnabé ia perturbá-lo mais profundamente.
    “Estes de que falei, não são os únicos, Pedro. Entre os milhares de que falas, há centenas de Judeus da Cilícia, Chipre, África e Ásia, e até Judeus de Roma….”
 


    Pedro interrompeu. “De Roma?” Está a expandir como disse o Mestre: “Ide a todo o mundo.”
    “Mas não está a resultar bem dessa maneira. Há o perigo de a irmandade se tornar uma seita de Jerusalém.”
    Pedro ficou admirado com esta observação. “Uma seita de Jerusalém? Que queres dizer?”
   “Dia após dia as pessoas de outros países estão a ser negligenciadas. Os seus pobres não recebem pão, as suas sinagogas não têm professores.”
   “Mas porquê?”
   “Tu mesmo pensaste que Estêvão ali era um Gentio.”
    Pedro entendeu. Falou humildemente. “Sim. Tive culpa. Somos apenas doze, como vês, entre todos estes milhares. Apenas doze para baptizar e ensinar e curar os doentes. Não podemos abandonar o nosso trabalho para distribuir o pão….Mas alguma coisa tem que fazer-se. Não podemos ter divisões entre nós. Não podemos ter descontentes…” Pensou por um instante, depois falou decisivamente. “Barnabé, entre estes homens de que falas, há lá algum que queira trabalhar para nós entre os seus conterrâneos?”
   “Eu conheço um que daria a sua vida para espalhar a notícia do Messias.” Apontou para onde  Estêvão estava sentado.
    Pedro sabia o que devia fazer. “Toma nota dele, e escolhe entre vós outros seis. Precisamos de sete homens bons que trabalhem entre os Judeus de outras nações. Reúne-os já, Barnabé, e quando tiveres escolhido os teus homens, eu irei dar-lhes a bênção.”
    Os dois homens apertaram as mãos e Barnabé retirou-se da sala com Estêvão.
   “Pedro tem razão, sabes'', disse Mateus, o ex-cobrador de impostos que estava sentado no chão a contar o dinheiro que lhes tinham  dado. “É tempo inteiro  de trabalho para ter as contas em dia. Tanto é o que está a entrar.”
    “É como estar no teu antigo trabalho, Mateus? “perguntou João por graça.
    Mateus riu-se. “É, sabes, como estar de novo a ser cobrador de impostos. “Só que  agora não lhes entreguei nada, então!”
    No pátio por baixo da sala de cima estavam sete homens à espera. Vieram de muitos países diferentes e todos estavam vestidos em estilo Grego. Contudo, todos com excepção de um, eram de raça judaica.
    Barnabé desceu as escadas com Simão Pedro. “São estes os sete que  escolhemos,”   disse, enquanto encaminhava Pedro para o grupo. “Filipe…  Procoro… Nicanor… Timor… Parmenas… Estêvão….”  Pedro foi abraçando cada um como se  abraçasse um seu irmão. …” Nicolau de Antioquia…não Judeu de nascimento, mas  que há muito  segue a nossa fé…” Pedro hesitou, só por um momento, antes de abraçar o Gentio. Depois disse aos homens que se ajoelhassem e, impondo as  mãos à vez na cabeça de cada um , recitou a bênção. “Senhor, abençoa este Teu filho, de maneira que ele  possa  fielmente servir-te e alimentar o Teu povo, não somente com o pão que perece, mas com o verdadeiro pão do Céu que dá a vida ao mundo.”
    Na câmara do Conselho decorria um encontro informal do Senedrim. Saulo estava à frente do Sumo-sacerdote que o ouvia com paciência pouco habitual.
    “…O ensino blasfemo dos Nazarenos está a espalhar-se por todas as sinagogas de Jerusalém. Agora nomearam sete homens, um deles Gentio, para subornarem os pobres com pão e ensinarem aos Judeus de Roma e da Grécia e da África que Jesus o Nazareno era o Messias de Israel.”
    “És uma testemunha visual?”
    “Não, meu senhor, mas há aqui testemunhas.”
     Com um gesto dramático de mão, Saulo fez um sinal ao guarda que estava à porta. Todas as cabeças se viraram quando a porta se abriu e um jovem que tinha a aparência de um Grego, foi introduzido para dentro por outros dois, vestidos no mesmo estilo.
    Até Anás ficou pasmado. “Quem é este homem?”
    Saulo respondeu em triunfo. “Um pregador da sinagoga da Cilícia, meu senhor. Ele foi ouvido a dizer palavras blasfemas.”
   “Que palavras?”
    Com outro gesto dramático de mão, Saulo mandou a um dos captores que falasse. Era da África do Norte e falava o seu Hebraico nativo com acento estrangeiro.
   “Este homem disse que Jesus o Nazareno havia de mudar a lei de Moisés.”
    Saulo fez sinal a outro, que relatou:
   “Eu ouvi-o dizer que Jesus o Nazareno havia de vir outra vez e destruir o Santo Templo.”
    Anás olhou para o terceiro homem que estava aprumado e calmo entre os seus acusadores.
   “Como te chamas?” 
   “Estêvão.”
   “Tu ouves de que é que te acusam. É verdade?”
    Em vez de responder, Estêvão olhou à volta da assembleia com um sorriso quase de amor. Poderia ser um filho retornado ao seio da família, em vez de um prisioneiro sob ameaça de morte. Todos os olhos se viraram para ele quando avançou.
   “Meus irmãos e pais…”
    Houve um burburinho de aprovação com este modo correcto de se dirigir às pessoas.
    “Antes de me acusarem de blasfémia, pensem em retrospectiva a história da nossa nação. Onde começou? Não no Santo Templo, nem sequer aqui em Jerusalém, pois não?
Quando Deus apareceu ao nosso antepassado Abraão não foi nesta terra, mas na longínqua Mesopotâmia…” Estêvão fez um momento de pausa. Não havia dúvida que  estava a cativar o interesse da corte. Alguns inclinavam-se para a frente a olhar agora com surpresa para ele, curiosos para ouvirem como este extraordinário cativo iria continuar. Estêvão notou o interesse e sabia exactamente como havia de levar estes homens letrados ao fulcro da sua mensagem. Levantou a voz, e falou como um Rabi poderia falar aos seus alunos. “Durante quatrocentos anos os nossos pais viveram como estrangeiros numa terra estrangeira e foram tratados como escravos. Mas Deus tinha feito uma promessa a Abraão. Uma promessa de que passados os quatrocentos anos havia de   libertar os seus descendentes  e lhes entregaria esta terra onde hoje viveis. Quatrocentos anos, meus irmãos, e no tempo da promessa, Abraão não tinha filhos. No entanto acreditou em Deus. Não questionou a aliança que Deus tinha feito com ele. Não  duvidou que essa promessa  havia de ser cumprida…”
    Fez nova pausa para avaliar a medida do interesse. Estava empenhado não em cansar os seus ouvintes, mas determinado em que o desejo de mais partisse da parte deles. Passaram apenas poucos segundos até o Sumo-sacerdote gritar:
   “Continua.”
    Estêvão obedeceu à ordem com uma cortês vénia de cabeça. Depois, passando de grupo em grupo, dos sacerdotes aos Fariseus, dos guardas aos estudantes, continuou o seu discurso num tom de  amiga intimidade.
   “Depois de Abraão, os nossos pais não foram lá muito fiéis. Lembrais como José foi vendido pelos seus próprios irmãos para ser escravo no Egipto. Mas a maldade do homem não pôde derrotar o projecto de Deus. Deus esteve com José no Egipto, e aquele jovem Judeu, vendido como escravo, tornou-se regente da família real; e foi através dele que o povo Judaico foi para o Egipto e se multiplicou de tal maneira que pelo tempo da promessa de Deus dos quatrocentos anos estar quase terminado, os Judeus no Egipto tinham aumentado em número tão grande, que o novo Rei Faraó ficou enormemente alarmado. Ordenou que todos os Judeus fossem perseguidos e escravizados, e mandou que as crianças recém-nascidas fossem mortas de maneira que a raça tivesse que desaparecer. Novamente parecia a derrota do projecto de Deus….Mas foi nesse tempo que nasceu Moisés, um menino Judaico de tão notável beleza que quando a filha do Faraó o encontrou abandonado, o adoptou e criou como seu próprio filho. Assim, enquanto os seus compatriotas brincavam e sofriam como escravos, Moisés era treinado em toda a sabedoria do Egipto.”
    O Conselho estava agora realmente absorvido com esta viva apresentação da sua história. Estêvão sabia que era o momento de começar a levá-los mais directamente ao ponto fulcral do seu discurso.
   “Mas Moisés tinha um grande anseio de viver no meio do seu povo, uma enorme vontade de ajudar os filhos de Israel. Por isso desceu até ao meio deles e foi encontrá-los a…discutir. “Vós sois irmãos da mesma raça,” disse-lhes ele, “Porque estais a injuriar-vos um ao outro?” Mas os seus compatriotas Judeus voltaram-se contra ele dizendo “Quem te  constituiu nosso regente ou nosso juiz?” Não entenderam, vedes, que Deus tinha enviado Moisés para os libertar….E assim, foi rejeitado pelo seu próprio povo.”
    Estêvão fez um momento de pausa para permitir que estas últimas palavras surtissem o seu efeito. O Conselho estava ainda absorvido com o seu discurso. Não só absorvido, mas profundamente impressionado com o seu saber e a sua eloquência. Mas Estêvão não podia ainda dizer se eles percebiam onde as suas palavras os estavam a conduzir. 
    “Meus irmãos e pais,” disse, dirigindo-se a toda a corte com voz forte e vibrante. “Vós sabeis o que aconteceu a seguir. Como este mesmo Moisés que o povo de Israel tinha desonrado e desprezado era, como José tinha sido antes dele, enviado por Deus para ser o seu líder e salvador. Foi ele que os tirou do Egipto através do Mar Vermelho, mostrando com sinais e milagres que o poder de Deus estava com ele. Foi ele que disse aos filhos de Israel, “O Senhor Deus fará surgir para vós um profeta como eu de entre os vossos irmãos: é a ele que deveis ouvir.” Foi ele que recebeu as palavras vivas de Deus para  no-las transmitir a nós. E contudo, uma vez mais os nossos pais lhe viraram as costas. No preciso momento em que Moisés recebia os Mandamentos de Deus, estavam os filhos de Israel a adorar uma vitela de oiro.”
    Apesar de conhecerem tão bem a vergonhosa história, alguns dos anciãos Fariseus estavam agastados pela lembrança. “Aie, Aie, Aie,” lamentavam,  baloiçando-se para trás e para a frente, quando a vibrante voz de Estêvão se fazia ouvir.
    “Os nossos antepassados estavam a adorar um ídolo feito pelas suas próprias mãos, mesmo tendo com eles o Santo Tabernáculo que agora está aqui no Templo de Jerusalém. Pensavam, talvez, que Deus habitasse nesse Tabernáculo. Que mesmo rejeitando os Seus líderes escolhidos, mesmo desobedecendo aos  Seus mandamentos, mesmo fazendo falsos deuses de oiro, enquanto tivessem o Tabernáculo tinham Deus.”
    O lamento tinha terminado. Todos os presentes perceberam que Estêvão tinha acabado
de falar dos profetas de antigamente e estava prestes a falar do presente. Sentiu o ansioso silêncio de expectativa à sua volta. Sabia que o momento tinha chegado. Quando falou, foi com amor, como se estivesse a dirigir-se a irmãos da sua própria carne e sangue.
    “Meus irmãos, o Altíssimo Deus não vive em templos feitos pelos homens. Recordai as palavras, “o Céu é o meu trono, e a terra o escabelo dos meus pés. Que espécie de casa me construireis? Onde está o meu lugar de repouso?” Disse o Senhor. “Não foram as minhas mãos que fizeram todas estas coisas?”
    Instantaneamente percorreu a multidão um murmúrio incansável e hostil. Saulo, apesar do seu ódio por este Nazareno, tinha estado tão emocionado como qualquer dos outros pela sua eloquência. Mas estas últimas palavras reacenderam o seu ódio e a sua determinação. Levantou-se:  “Está blasfemar contra o Templo, meu senhor.”
   Mas Estêvão não tinha terminado. A sua voz abafou a de Saulo quando enfrentou o Conselho.
 
Saulo aos pés de Gamaliel 


Estêvão


    “Eu vos digo, que vós tendes coração duro e vos recusais a ouvir. Como aconteceu com os  vossos pais, acontece também agora convosco. Sempre lutais contra o Espírito Santo. Nunca reconheceis o líder que Deus escolheu para vós.  Qual dos profetas os vossos pais deixaram de oprimir?...Perseguiram aqueles que anunciaram a vinda do Único santo. Fostes vós que O atraiçoastes e matastes.”
    O murmúrio imparável converteu-se num estrondo de ira. A voz de Estêvão elevou-se e, dirigindo-se directamente ao Conselho, proferiu a sua acusação final.
    “Vós, que recebestes a lei das mãos de anjos,  não a  soubestes guardar.”
    Os gritos de ira, transformaram-se em clamor. Saulo foi apressadamente colocar-se entre Estêvão e o Sumo-sacerdote. Desta vez estava decidido a fazer-se ouvir:
   “Ele está a insultar-vos, meu senhor.”
    Anás ficou dominado por um instante com aqueles olhos ardentes de ira, depois virou-se a olhar para a cara do jovem Nazareno que estava directamente atrás de Saulo. Ficou surpreendido pelo contraste. A cara de Estêvão parecia transfigurada. Os seus olhos calmos e felizes dirigiam-se para cima e para além do rosto apaixonado que estava à sua frente. Saulo virou-se para encarar o prisioneiro e fez sinal às duas testemunhas que o detivessem de novo. No mesmo instante ouviu-se a voz Estêvão.
    “Os Céus abriram-se e eu vejo Jesus de pé à direita de Deus.”
    Não podia ter-se ouvido maior blasfémia na corte. Anás e os outros sacerdotes taparam os ouvidos com as mãos e um grande lamento se levantou. Os jovens correram para Estêvão a gritar “Matem-no! “Morte para o blasfemo!” Pela primeira vez Anás levantou a voz:
   “Esperem. É contra a lei.” Ninguém lhe prestou atenção. Ao som de gritos e pragas, Estêvão foi arrastado para fora da corte. Saulo voltou-se para o Sumo-sacerdote.
   “Deixe que eu trate  deste assunto, meu senhor.”
    Anás acenou que sim e Saulo acompanhou aquela multidão barulhenta.
    Estêvão foi arrastado pelos seus carrascos até ao topo de uma montanha rochosa fora da cidade e atirado para dentro de um poço pouco profundo. Saulo estava de pé com as duas testemunhas. Agora era ele que estava  a comandar. Falou a transmitir uma ordem:
   “Deixem que as testemunhas atirem a primeira pedra.” A gritaria amainou quando os dois homens despiram os casacos e os atiraram aos pés de Saulo. Depois com uma  incrível espécie de formalidade, cada um agarrou numa grande pedra tosca. Saulo olhava enquanto eles atiravam as pedras contra o homem que estava dentro  do poço.
    Estêvão estava de joelhos, e apesar de ter o corpo terrivelmente ferido, a sua cara estava ainda transfigurada com aquela estranha alegria, e disse com voz forte como se fosse para um amigo que estivesse ali perto:
    “Senhor Jesus, recebe o meu espírito.”
     As pedras agora voavam em grande quantidade, até o corpo no poço estar quase coberto. Saulo estremeceu ao ver uma pedra tosca atingir-lhe a cara levantada para cima, e sentiu um assomo de lágrimas nos olhos quando ouviu novamente a voz do moribundo:
    “Senhor, não os culpes  deste pecado,” e viu a cabeça ferida a descair sobre as pedras.
    Saulo abafou o súbito surgir de piedade e foi com voz fria que se voltou para o homem que estava a seu lado. “Agora vamos àqueles que ainda ficaram.”
    Aquele dia marcou o começo da perseguição da igreja em Jerusalém. O jovem Saulo tomou à sua conta o purgar dos Nazarenos da cidade. Alguns dos discípulos escaparam para a Judeia e Samaria, mas centenas de homens e mulheres foram arrastados das suas casas e atirados para a prisão.
    A sala de cima, lugar de encontro da igreja de Cristo, estava agora tranquila. Dos doze discípulos somente Simão Pedro estava ainda na cidade, e das centenas que se tinham juntado aos Nazarenos, só  Barnabé e João Marcos lá permaneciam.
    Pedro e Barnabé estavam sentados em silêncio na sala onde tanta coisa tinha acontecido naqueles últimos anos. O único som era do arrastar da vassoura de Rhoda quando varria o soalho. Rhoda estava perturbada. Havia já quatro semanas que só tinha havido este estranho silêncio, e este medo pavoroso que  parecia estar a ameaçar a sala.
    Naquela altura ela deixou de varrer e foi acomodar-se ao pé de Pedro. Ele olhou para a sua pequena face atemorizada.
   “Mestre, eles também virão aqui?”
    Pedro abanou a cabeça, dizendo. “Eu não sei Rhoda.”
    A voz de Rhoda vacilava. “Eu tenho medo, senhor. Sempre que há um toque na porta,  penso logo que são eles.”
    “Até agora deixaram-nos em paz.”
    Rhoda aproximou-se mais dele.”Está tudo tão tranquilo, não está, senhor? Precisamente quando tudo estava tão agradável. As multidões a vir e ir, as curas e os baptismos, e tudo. E agora tudo acabou.”
    Pedro pegou-lhe na mão. “Não, Rhoda, não acabou. É precisamente o começo.”
    Rhoda olhou para ele sem entender. “O quê?”
   “O começo da expansão.”
    Barnabé levantou a cabeça. “Como é que chegas a essa conclusão ?”
    “Ora, pensa–“ Pedro parecia ter readquirido algum do seu velho vigor. “Pensa naqueles que escaparam e levaram as palavras do Senhor a lugares longínquos… sabes, eu continuo a lembrar algumas coisas que o Mestre disse… “As portas do inferno não prevalecerão contra vós.”
    Subitamente ouviram-se pés a correr pelo pátio e escadas acima. Rhoda encostou-se a Pedro. “Vieram buscar-nos.” Ela deu um grito quando o trinco da porta foi levantado, mas a porta estava trancada. Estavam salvos por agora. Depois veio um toque forte e apressado. Barnabé fez um sinal a Rhoda. Os joelhos dela tremiam, e ela foi à porta perguntar, “Quem é?”
   “Sou eu, Marcos. Abre a porta.”
    Mas Rhoda estava completamente incapaz de o fazer. Ao som de uma voz familiar as pernas dela falharam, e a soluçar e a rir de alívio, caiu de joelhos. Barnabé destravou a porta e Marcos entrou para dentro da sala a correr. Respirava com dificuldade e as palavras saíam-lhe a arfar. “O tirano Saulo abandonou a cidade.”
    Os dois homens levantaram imediatamente a voz.
   “O Senhor seja louvado.”
   “Para onde é que ele foi?”
    O alívio durou pouco, porque as palavras seguintes de Marcos provocaram um novo terror.
    “Ele e um grupo de homens que estão a caminho de Damasco. Dizem que levam cartas da autoridade do Sumo-sacerdote para prender todos os Judeus que falem no nome de Jesus e para os trazerem com cadeias para Jerusalém.”
    Parecia que uma vez mais o desespero se tinha instalado na sala. Pedro rezou:
   “Senhor Jesus, acompanha os Teus discípulos em Damasco, particularmente o Teu servo fiel Ananias e protege-os da mão do Teu inimigo Saulo.”
    Era uma longa viagem  de Jerusalém a Damasco. Mas da Galileia em diante a estrada era boa, construída pelos Romanos como uma via de comércio para o Norte. Era essa a estrada que Saulo e os seus companheiros seguiam. À noite acampavam à margem, e de dia continuavam a viajar, umas vezes montados, outras a pé, conduzindo as suas mulas. Para além das montanhas, o país era mais fértil, e o calor mais intenso.
    Saulo caminhava à frente, e um dos companheiros levava a sua mula. O sol batia-lhe na cabeça e ele marchava como um soldado, mas a sua cara era  a de um homem doente e preocupado – com os olhos fixos e atentos, e as faces cavadas e perturbadas. Porque Saulo não se importava com o ambiente. Ainda que andasse por uma estrada a arder e poeirenta, eram as lembranças de Jerusalém que lhe perturbavam os sentidos. Pinturas, terríveis pinturas a dançar em frente dos seus olhos, e vozes a martelar-lhe nos ouvidos encaminhando-se para o cérebro. Vozes de homens, de mulheres e de crianças – “Eu acredito em Jesus o Messias…Fica junto de mim, Senhor Jesus – Eu vejo Jesus de pé à direita de Deus… Pai-nosso que estais no Céu… Senhor Jesus recebe o meu espírito…Senhor, não os culpes deste pecado…” E depois os gritos e as vozes misturadas tornavam-se uma só voz. Uma palavra repetida uma e muitas vezes num crescendo de sofrimento. “Jesus… Jesus… Jesus… Jesus… Jesus.” Os seus pés a andar tropeçaram. Saulo caiu no chão. Subitamente as vozes calaram-se, e então, do silêncio, ouviu outra voz diferente, muito tranquila e muito próxima. “Saulo…Saulo, porque me persegues?”
    Lentamente Saulo levantou a cabeça. Uma luz  brilhante lhe feriu os olhos e de pé em frente dele, na estrada banhada pelo sol, viu a figura de um homem.
    “Quem és tu?”
    “Eu sou Jesus a quem tu persegues.”
     Quando os companheiros de Saulo viram o seu líder cair, desmontaram das mulas e correram ao longo da estrada ao seu encontro. Depois pararam e olharam admirados. Saulo estava de joelhos, com os lábios a moverem-se, e ouviram-no a dizer.
    “Que devo fazer?”
    Somente Saulo ouviu a resposta.
    “Levanta-te agora e entra na cidade e lá te será dito o que tens que fazer.”
    Ele cambaleou e os seus amigos viram-no a tactear com as mãos. Correram para ele.
    “Saulo – Saulo – que aconteceu?”
    A sua voz foi um sussurro.
   “Levem-me a Damasco.”
   “Levem –?”
   “Ele está doente.” Um dos homens olhou de perto para a sua cara, para os olhos a procurar em vão. “Está cego!”
    Pegaram-lhe nas mãos e conduziram-no devagar para a cidade. E assim, com os pés a cambalear, e olhos sem ver, Saulo o perseguidor entrou em Damasco.
    “Ele tem sido sempre um homem doente.”
    “Não parecia muito doente quando iniciámos a viagem.”
     Mais vinho, senhores?”
     Judas o estalajadeiro colocou um jarro na mesa dos seus distintos hóspedes de Jerusalém. Era uma estalagem pobre, mas era a única na cidade, onde podiam entrar os Judeus. Ficava na rua chamada Direita, e fazia bom negócio, quando os comerciantes e negociantes Judeus vinham à cidade. Mas estes homens não eram negociantes, e pela conversa que tinha ouvido, ficou ele a saber qual era o seu trabalho . Procurou ouvir mais atentamente.
    “Este é o caminho onde há malária,” disse um dos jovens servindo vinho. “Ataca-te de improviso e perdes o entendimento.”
    “A falar ali na rua contigo mesmo!” disse outro com um sorriso.
    “De qualquer modo,” disse o primeiro homem, “Eu tenho a carta do Sumo-sacerdote. Se ele não recuperar depressa, nós vamos com o plano para a frente.” Olhou e franziu a testa quando reparou em Judas perto a procurar ouvir.
    “Quer que leve alguma coisa ao seu amigo lá acima, senhor?”
    “Podes tentar.”
     Judas pegou num prato de fruta e nalgum pão de cima da mesa e dirigiu-se às escadas que levavam ao andar de cima.
    “A paz esteja contigo, Judas.”
    Judas voltou-se. Era o seu amigo Ananias. Judas levou-o depressa para uma parte mais reservada e sussurrou-lhe um segredo:
    “Não devias estar aqui, Ananias.”
    “Eu quero falar com Saulo de Tarso.”
    “Ele está doente, e é sorte tua  que  esteja.”
    “Leva-me até ele.”
    “Mas ele está meio morto, não pode ver nem comer nem beber.”
    “Essa comida é para ele?”
    “Eu ia levar-lha e deixá-la ao pé da cama. Ele há já três dias que  não come nem bebe coisa nenhuma.”
    “Deixa que eu lhe leve isso.
     Com relutância, Judas deu o prato a Ananias que o tomou e subiu as escadas.
    Saulo estava deitado num colchão no chão. Parecia desesperadamente doente. Apesar de ter os olhos abertos não via nada. Somente os seus lábios ressequidos se moviam como se estivesse a rezar. Ananias entrou tranquilamente na sala. Olhou para aquele corpo magro na cama, e sentou-se no chão ao lado dele. O homem cego estava ainda rígido; não sabia que não estava sozinho. Ananias falou tranquilamente.
    “Saulo, meu irmão.”
    O seu corpo agitou-se, os olhos sem visão voltaram-se para ele, e um sussurro se ouviu dos seus lábios.
   “Quem é você?”
   “O meu nome é Ananias. Eu fui enviado pelo Senhor Jesus para vir ter contigo.  
   “Não!” A este nome o homem cego tapou os olhos com o seu braço a disfarçar-se com medo. “Não – Não – Não.”
     Ananias falou suavemente como se fosse com uma criança. “S-sh. Não há nada de que ter medo.” Teve que inclinar-se para a sua cara virada, para ouvir um sussurro:
   “Que é que tenho de fazer?”
    Ananias olhou com compaixão para Saulo, com os lábios a tremer, o punho cerrado, o braço tenso com que escondia os olhos sem visão.
   “Primeiro”, disse,” vais receber de novo a tua visão.”
    Devagar o braço relaxou. Ananias tomou-lhe com as suas duas mãos a mão a tactear quando Saulo se voltou de novo para ele. O tremor tinha parado, A cara com as faces encovadas e profundas linhas de sofrimento, podiam ter sido esculpidas em pedra. Contudo Ananias pôde sentir a súbita agitação de vida por detrás das feições gravadas, como uma mortiça chama luminosa que se despedia de uma fogueira a apagar-se, e sentiu o fogo de vida no seu próprio corpo a agitar-se e a correr ao encontro da chama recém-nascida. As velhas mãos deformadas, mãos fortes de um operário, tapavam os escuros olhos sem visão e os dois corpos eram como um só corpo. Um corpo inteiro, cheio de luz.
    Saulo sentiu as mãos fortes e frias nos seus olhos a arder; sentiu o reacender de vida no seu corpo; lembrou os horrores que o tinham atormentado a desaparecer e o seu espírito a elevar-se ao encontro de um amor irresistível. Não sabia quanto tempo as mãos lhe taparam os olhos, mas subitamente onde tinha havido trevas havia luz, e  naquela luz  lhe pareceu voltar a ver a cara do homem da estrada de Damasco. À medida que os olhos se iam habituando à luz, pareceu-lhe que era a cara de um homem de idade. Era estranho, uma cara parecia resplandecer através da outra, como se juntamente tivessem sido fermentadas em amor e compaixão.
    “Eu posso ver!” Foi um grito de alegria.

Saulo cego a caminho de Damasco


Saulo e Ananias

                          
    No pátio em baixo, os companheiros de Saulo estavam ainda sentados à refeição. Judas estava a  tirar água da fonte que ficava a meio do pátio. Ao regressar a casa, ficou admirado. Do andar de cima  descia as escadas Ananias, acompanhado pelo jovem que durante três dias tinha estado demasiado fraco para se mover. Os homens à mesa olharam para cima.
    “Saulo!”
     Ananias e Saulo atravessaram o pátio em direcção à fonte.
    “Saulo!” chamou outra vez um dos homens. Não houve resposta. O homem virou-se para os seus companheiros. “Quem é aquele homem que vai com ele?”
    “Algum médico, suponho. Alguma coisa o curou e lhe devolveu a vista.”
    “Judas, quem é aquele homem?
     Judas hesitou. Estes homens eram inimigos do seu velho amigo. Tinha que ser cuidadoso.
    “O nome dele é Ananias. É um homem muito devoto e altamente respeitado por todos os Judeus em Damasco.”
    “É um médico?”
    “Não, é um lagareiro.”
     Um dos homens que tinha estado a olhar para Ananias e Saulo perguntou, “Que estão a fazer na fonte?”
     Judas voltou-se para ver.
    “O vosso amigo está a lavar-se. Ananias parece estar a ajudá-lo. Eu penso que ele está ainda muito fraco.”
    “Saulo de Tarso,” disse Ananias em voz baixa, “Eu te baptizo em nome de Jesus o Messias.”
    Foi assim que Saulo de Tarso, o principal inimigo dos discípulos de Jesus, que se metera a caminho de Damasco para prender todos os que falassem no Seu nome, começou a pregar ali nas sinagogas, que este mesmo Jesus era o Filho de Deus.
    O Rei Aretas, o regente Sírio de Damasco, estava sentado na sua sala de audiências.  De cada lado do seu trono estava sem se mover a sua guarda pessoal. Dois guerreiros Abissínios que tinham sido capturados e trazidos para a Síria para o servir.
    À frente dele estavam quatro jovens Judeus de Jerusalém. Aretas tinha tido problemas com os Judeus, mas corrigira a situação do passado e agora os Judeus que viviam em Damasco, comerciantes e artífices, eram cidadãos respeitadores da lei e não causavam perturbação.
    Um dos jovens entregou-lhe um rolo de pergaminho. “Isto é a carta do Sumo-sacerdote, senhor.”
    Aretas passou os olhos por ela. Estava escrita em Hebraico e em Grego. O Hebraico não lhe dizia nada, e apesar de poder conversar em Grego, lia-o com dificuldade. Um nome, contudo, conhecia-o perfeitamente.
    “Chamas-te Saulo de Tarso?”
    “Er – não, vossa majestade.”
    “Esta carta diz que o portador é um homem chamado Saulo de Tarso. Onde está ele?” 
    “Ele – ele ficou doente no caminho, senhor.
    “Onde está ele agora?”
     O Judeu hesitou um momento. O Rei repetiu a pergunta.
    “Eu perguntei, onde está ele agora?” 
    “A doença parece tê-lo enlouquecido, senhor, e uma coisa que pareceria impossível aconteceu.”
    O Rei  estava intensamente aborrecido com este palavreado Judaico.
    “Que  que aconteceu?”
    “Ele tornou-se um traidor, senhor. Juntou-se aos heréticos e anda a pregar nas sinagogas que o criminoso Jesus…”
    Aretas, aborrecido e irritado, interrompeu-o. –
   “Que criminoso? De quem estás agora a falar?”
   “Se lesse a carta, senhor.”
    Com um suspiro o Rei desenrolou de novo o pergaminho e passou os olhos por palavras pouco familiares…
    “Perturbação nas sinagogas…transgressores da lei…perigosa insurreição…trabalho em segredo para derrotar os regentes…blasfémia…Jesus … o Nazareno… o Messias….”
    Levantou os olhos. “É este o criminoso de que estás a falar?”
    “Sim, senhor.”
    “Já vejo, o que significa esta palavra “Messias”?”
    A resposta não demorou mais que uma pausa de segundos:
    “O Rei dos Judeus, senhor.”
     O Rei Aretas ficou  imediatamente em alerta.
    “O Rei? Estou a ver. Esta seita Judaica tem um líder e quer fazê-lo seu Rei. E o vosso amigo, emissário do Sumo-sacerdote juntou-se ao partido deste” – deu mais uma vista de olhos pela carta – “deste Jesus.” Isto é sério. Pode significar uma revolução. Cumpram as ordens dadas nesta carta, mas primeiro hão-de prender Saulo de Tarso e trazê-lo em cadeias não para Jerusalém, mas aqui para a minha frente.”
    O jovem Judeu estava admirado com a dureza do tom do Rei.
   “E se ele se escapa, senhor.
   “Não deve escapar!”
   “Poderá vossa majestade arranjar uma montagem de guardas à volta das muralhas da cidade?”
   “Serão montadas guardas. Mas aviso-vos, se o vosso amigo escapar, sereis vós os responsáveis.”
    Com um gesto de mão mandou embora os quatro jovens. Cansados, fizeram uma vénia de saída. Aretas sorriu. Estes Judeus tinham entrado na corte com bazófia de importantes. Mas foram-se embora aterrados.
    Saulo não estava na estalagem de Judas. Procuraram em todas as casas na rua chamada Direita até chegarem a uma casa construída no alto, contra a muralha da cidade, a casa de Ananias o lagareiro. Correram escadas acima e forçaram a abertura  da porta. O ancião e o seu filho estavam a arrumar os enormes cântaros de azeite de oliveira em cestos preparados para serem levados pelos comerciantes. Ele olhou surpreendido para os quatro homens hostis que o confrontavam.
    “Onde está ele?”
    “Quem?”
    “Saulo de Tarso.”
    “Não está nesta casa.”
     Dois dos homens empurraram-no e procuraram numa divisão interior. O outro começou a rebuscar a oficina, atirando com os cestos vazios. Chegaram junto de três que estavam cobertos e atados.
    “Que é que está nestes?” disse o líder dando um pontapé num deles.
    “Azeite de oliveira, por favor tenham cuidado.”
    “Abram estes cestos.”
     Ananias viu-os a arrancar as coberturas dos primeiros dois cestos que continham dois grandes cântaros de azeite de oliveira. Um homem puxou de uma faca e arrancou a cobertura do terceiro cesto…também ele continha um cântaro de azeite.
    Não está aqui – procurem na sinagoga.”
    Ananias seguiu-os até à porta e viu-os a correr escada abaixo. “Tudo limpo.”
    O seu filho deixou o trabalho e correu apressadamente para a janela grande pela qual os cestos pesados eram descidos até ao chão fora da muralha da cidade. Puxou a corda da poleia e arrastou para dentro do quarto um dos grandes cestos que tinha estado dependurado do lado de fora. Ananias removeu a cobertura e seu filho ajudou Saulo a  trepar para fora. Ananias falou depressa:
    “Deves deixar a cidade esta noite, irmão Saulo.”
    “Saulo sabia da busca e do risco, mas deixar este amigo que lhe tinha aberto os olhos para a Verdade, deixá-lo a enfrentar o perigo?”
    “Mas que vai passar-se contigo?”  “Foi por minha causa que esta perturbação chegou a Damasco. Tu e o teu rapaz correis o risco de serdes levados em cadeias para Jerusalém.” 
    Ananias estava calmo e seguro. “Haverá mais perigo se ficares. Foste tu que falaste nas sinagogas publicamente. Há, como sabes, muitos crentes na cidade, mas reunimos privadamente aqui em minha casa. Como Judeus somos tolerados, mas só enquanto não provocarmos perturbação. Em segredo podemos ganhar a simpatia de todos os Judeus de Damasco. Em público seríamos presos antes de o nosso trabalho ter começado.”
    Uma onda de terrível solidão se abateu sobre Saulo que se lançou nos braços do ancião. “Vem comigo, vem comigo para Jerusalém.”
    Ananias beijou o jovem na testa. Compreendeu a sua solidão, e o seu medo súbito. Como um pai com amor de pai pela sempre criança que é o seu próprio filho crescido, susteve-o nos seus braços. “Não tenhas medo. Não te preocupes comigo. O meu trabalho é aqui. Sou bem conhecido na cidade. Forneço azeite para a casa do Rei. Nem Judeus nem Gentios podem provar alguma coisa contra mim.”
    A criança solitária era de novo o homem de acção. “Então devo ir sozinho. Mas como?”
Foi à janela. “Há guardas a toda a volta das muralhas.”
    “Quando for escuro baixamos-te até ao chão neste cesto,”disse o ancião. “Ninguém suspeitará. Estão acostumados ao nosso trabalho nocturno.”
    À porta, como gigantes pretos, estavam os dois guardas, de espadas cruzadas. E guardas armados patrulhavam o cimo da muralha da cidade.
    Ananias o lagareiro estava a trabalhar tarde, como de costume. Os comerciantes vinham de madrugada e havia já cerca de uma dúzia de cestos com cântaros de  azeite alinhados contra a muralha da cidade. Ocasionalmente os guardas paravam e olhavam para os cestos a descer da janela iluminada. Era alguma coisa para aliviar a monotonia. Mas era uma noite fria. Demasiado fria para estarem parados muito tempo. Os seus casacos não eram tão grossos como os dos companheiros que estavam em baixo a desatar as cordas dos cestos que chegavam ao chão. Eles não sabiam que um homem disfarçado estava a vê-los. Chegou o seu momento. Dois guardas tinham passado um pelo outro: três minutos avaliou. Ele levantou a cobertura de um dos cestos. Saulo subiu. O homem atirou o seu próprio casaco à volta dos ombros de Saulo. Apertaram as mãos e Saulo escapou-se a coberto da noite. 
 
Saulo escapa-se por cima da muralha de Damasco


 
Marco, Barnabé e Saulo em Jerusalém


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