TERCEIRA PARTE. Simão Pedro — Página: 45
(Tradução: Padre José Vicente Martins, SJ em 2013)
Aos discípulos em Jerusalém junta-se Tiago o Justo. Barnabé traz-lhes Saulo. Saulo volta a Tarso. Visão de Pedro e visita ao Centurião Romano em Cesareia. Baptiza toda a família.
Em Jerusalém os discípulos que ainda lá permaneciam, encontravam-se na sala de cima da casa de Maria e de seu filho Marcos. Tinha-se juntado a eles um da própria família do Senhor, outro carpinteiro de Nazaré, Tiago, ao qual os discípulos deram a alcunha de “O Justo''. Naquela tarde ele e Pedro estavam sentados a conversar.
“Sabes, Tiago,” disse Pedro, “o que não percebo é como estivemos todo aquele tempo com o Mestre na Galileia, sem nunca te termos encontrado.”
Tiago era a alma da honestidade. “Eu mantive-me afastado propositadamente. Sabes, eu não queria andar misturado com Jesus e com o que Ele andava a fazer. Sabes como é numa família se um dos membros começa a atrair a atenção para si próprio e a apresentar novas ideias, os outros tendem a afastar-se dele. Uma espécie de embaraço!”
“Vergonha?”
“Sim, até vergonha.”
“E que foi que te mudou?”
Tiago hesitou antes de responder. Depois, olhando para a cara humilde e compadecida de Pedro, lembrou quanto da sua própria experiência o outro tinha partilhado e percebeu que ali estava o único homem que o podia entender.
Foi depois de Ele ter sido crucificado. Foi um choque terrível. Eu nunca pensei que se chegasse a isto, e é claro que fiquei mais envergonhado que nunca por fazer parte da mesma família. Parecia ser a desgraça final…”
Pedro acenou, lembrando a prisão no jardim, e o pátio fora da câmara do julgamento. Ele sabia como a vergonha e o medo fizeram que mesmo aqueles que O amavam mais profundamente, esquecessem o seu amigo quando Ele foi feito prisioneiro. Houve um momento de silêncio, e depois Tiago falou de novo:
“–- E então, um dia pouco depois, eu estava na oficina a preparar uma peça de madeira quando senti que alguém estava ao meu lado. Levantei a vista e era Ele, Jesus…. Bem, podes imaginar o que senti.”
Pedro sabia. “Medo.”
“Paralisado com medo. Pensei que era um espírito. Então Ele começou a falar comigo a respeito do trabalho que estava a fazer, e lentamente a estranheza e o medo mudaram para alguma coisa próxima e familiar, como se voltássemos a ser novamente rapazes a trabalhar juntos na oficina. Comecei a pensar que estava a dormir e a sonhar… E foi o que disse a mim próprio nos dias seguintes. Foi um sonho; e tentei afastá-lo da mente….Então começou toda aquela perseguição contra vós e parecia… bem, como se de novo estivessem a tentar crucificá-lo a Ele: e decidi que desta vez, eu me havia de encontrar no lugar certo.”
Pedro inclinou-se e colocou a mão sobre a do seu novo amigo. “Estamos satisfeitos por te termos junto de nós, Tiago. Não há muitos de nós que tenham ficado na cidade.”
"O que aconteceu com aquele homem, Saulo de Tarso, que começou com todo o problema? ”
”A última notícia que tivemos dele, foi que estava a caminho de Damasco. Mas não trouxe nenhum prisioneiro, senão teríamos sabido.”
Pedro voltou-se para falar com Marcos que estava à janela.
“Há alguma notícia de Barnabé?”
“Não. Oxalá que venha.”
Pedro notou a preocupação que as palavras de Marcos traduziam.
“Há-de vir.” Marcos suspirou. “O que é que está a perturbar-te, rapaz?”
“Há uma coisa que quero perguntar-lhe.”
Pedro olhou para a cara preocupada do rapaz. “Alguma coisa tão séria?” perguntou ele com um sorriso.
Marcos respondeu. “Julgo que é sério.” Então motivado pelo calor e delicadeza do olhar de Pedro, aproximou-se e ficou de pé ao seu lado.
“Lembras-te da última semana quando cá estava Filipe…?”
Pedro acenou que sim. Filipe era um dos apóstolos que tinha estado a fazer um grande trabalho no sul.
“Bem, ele disse-nos que um daqueles que baptizou, era um Gentio.”
Tiago olhou de Marcos para Pedro completamente admirado.
Um Gentio?”
“Sim,” disse Pedro, “um Etíope. Filipe encontrou-o em Gaza.”
Marcos voltou-se para Tiago.
“Parece que esse homem andava a ler as nossas Escrituras”, explicou, “E perguntou a Filipe o significado de algumas palavras do Profeta Isaías.”
“As palavras eram estas,” disse Pedro, “Ele foi levado como ovelha para ser abatida e como cordeiro mudo diante tosquiador, sem abrir a Sua boca”…perguntou a Filipe a quem se referiam as palavras, e então Filipe falou-lhe de Nosso Senhor, e o homem pediu para ser baptizado.
“Mas devia tê-lo feito, Pedro?” A voz de Marcos estava perturbada.
“Como podia ele ter recusado?” respondeu Pedro. “Seria como recusar um copo de água a um homem cheio de sede.”
“Mas o homem não era Judeu,” protestou Marcos. “Como é que ele podia entender?”
“Porque ele desejava entender.” Os olhos de Pedro brilhavam ao lembrar. Como o Mestre disse, “Bem-aventurados aqueles que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.”
Marcos voltou para a janela, sem estar convencido. Tiago estava também perturbado.
“É um grande passo, Pedro, aceitar os Gentios.”
“Um passo para a frente, talvez.”
Foram interrompidos por um alegre grito de Marco.
“Aí está o Tio Barnabé! E vem alguém com ele…Parece um mendigo.”
Pedro levantou-se.
“Barnabé estará a trazê-lo para comer. Traz pão e vinho, Marcos.”
“Não, ele deixou-o no pátio. Vem sozinho.”
Pedro atravessou para a janela, quando Marcos corria para a porta para saudar o seu tio A alta figura de Barnabé apareceu na entrada. Abraçou Marcos calorosamente e saudou os outros dois, mas não entrou na sala.
“Quem é o teu amigo lá fora, Barnabé?” perguntou Pedro pela janela.
Ele não respondeu logo. Três pares de olhos o encaravam inquisitorialmente. Depois olhando de frente para Pedro, disse com muita gravidade:
“Saulo de Tarso.”
O nome encheu a sala de um terror quase esquecido. Tiago levantou-se, a alegria de Marcos pela volta de seu tio foi tragada pelo medo. Pedro sentiu os dedos frios de pânico a apertar-lhe o coração. Esforçou-se para manter a voz firme.
“Saulo!”
“Encontrei-o na rua doente e esfarrapado. Não o reconheci a princípio. Ele tem uma estranha história para contar.”
Os dedos enregelados pressionavam os temporais de Pedro, comprimindo a vida do seu cérebro. Uma névoa fria parecia toldar-lhe os olhos quando fixava a cara de Barnabé, rezando para que a ardente esperança que ali percebia pudesse iluminá-lo. As vozes na sala soavam à distância.
“É uma ratoeira.”
“Ele está doente.”
“Leva-o para longe.”
“Ele está com fome.”
“Fechem as portas.”
“Ele está a pedir para te ver, Pedro.”
“Pedro, Pedro, o que é que vais fazer?”
Subitamente na sua memória ressoou outra voz:
“Eu tinha fome e tu acolheste-me…Estava nu e vestiste-me…Na medida em que o fizerdes a um desses…”
A névoa clareou. O calor inundou o seu corpo. Compreendia que os seus três amigos estivessem a olhar ansiosamente para ele. A apelar para ele. À espera da sua resposta.
Então a sua palavra foi firme. “Barnabé trá-lo para cima.”
Olharam da janela quando Barnabé atravessava o pátio ao encontro daquele homem esfarrapado que estava sentado encostado à parede.
“Imaginemos que é uma ratoeira,” murmurou Tiago. "O que vai acontecer se toda a perturbação começar outra vez?
O medo tinha desaparecido da maneira de ser de Pedro que falou como o líder, o pastor do seu rebanho.
“Temos que arriscar isto. Este homem veio ter connosco como um mendigo. Alguma vez Nosso Senhor recusou mostrar amor e misericórdia a um mendigo?”
Era agora já escuro. Pedro acendeu uma lâmpada enquanto os outros olhavam em silêncio para as duas figuras que na penumbra seguiam pelo pátio para as escadas. Voltaram-se para a porta, ao ouvirem as pegadas a subir para a sala de cima.
E então finalmente ali estava ele de pé à luz da lanterna, Saulo o mendigo.
Tiago ficou surpreendido ao ver um homem tão baixo. Baixo, sujo, pobre, com o cabelo e a barba branca do pó. As mãos agarradas ao seu casaco esfarrapado, pareciam não ter mais carne que as garras de uma ave. Era este o tirano? Mas foi nos olhos que Marcos reparou. Tinham estado fechados uns momentos a defenderem-se da luz. Depois abriram-se e foi como se dois grandes fogos se acendessem na sala. Marcos nunca tinha visto olhos assim: a arder, à procura, devoradores, e contudo havia neles paz e, mais estranho que tudo, amor. Sentiu o seu coração a bater com nova exaltação, uma exaltação que não incutia medo.
Pedro atravessou directamente ao encontro do homem na porta de entrada e pegou-lhe nas mãos.
“A paz esteja contigo, amigo.”
Levou Saulo para um sofá, ajoelhou-se a seus pés para lhe desatar as sandálias, depois deitou água limpa de um jarro sobre os pés feridos e sujos.
“Tu a lavar-me os pés?” Havia vergonha, súplica e admiração na sua voz rouca.
“É o que o nosso Mestre teria feito. Ele lavou-me os pés aqui nesta sala.”
Os olhos de Saulo, aqueles olhos ardentes, pesquisadores, viajavam à volta da sala.
“É esta a sala onde Jesus ficava?”
“Sim”, disse Pedro, enquanto secava os pés cansados. “Foi aqui que comemos juntos a nossa última ceia.” Olhou para a cara dos outros, e depois continuou no mesmo tom familiar.“E foi aqui que Ele veio primeiro ao nosso encontro quando ressuscitou dos mortos”. Não houve reacção de Saulo de Tarso, somente um horrorizado gesto de Tiago que ao ouvir estas palavras perigosas, e quando Pedro se levantou para pôr o jarro no seu lugar, não pôde conter por mais tempo a sua ansiedade. Aproximou-se à pressa de Saulo.
“Porque vieste ter connosco?”
Saulo levantou os olhos para olhar de frente os do outro.
“Porque também O vi.”
Os três discípulos olharam admirados para o seu visitante como se estivesse doido.
“Tu viste o Senhor?” disse Pedro, ajoelhando-se novamente a seus pés.
Viste-O a Ele e ouviste a Sua voz?”
“Onde?”
“No caminho para Damasco”
E sentando-se ali na sala de cima, Saulo de Tarso contou a sua estranha história aos apóstolos de Jesus.
Mas Saulo, o apóstolo de Cristo, era quase um perigo tão grande para a irmandade como Saulo o perseguidor. A notícia da sua volta a Jerusalém depressa se espalhou, pois ele, como em Damasco, falava publicamente nas sinagogas da verdade que lhe tinha sido revelada: ”Que Jesus que foi crucificado é o filho do Altíssimo Deus.” À irmandade, parecia que ele estivesse a procurar pagar pela morte de Estêvão, expondo-se ao risco de um destino semelhante. Todos estavam conscientes do perigo, mas foi Tiago de Nazaré que o traduziu em palavras. Ele e Pedro estavam sós na sala de cima. Pedro estava a juntar algumas poucas coisas num embrulho, porque ia sair para Jopa no dia seguinte. Tiago andava a passear sem parar à volta da sala.
“Tu não te importas de ficar aqui encarregado, pois não, Tiago?”
“Há só uma coisa que me incomoda," disse Tiago, aproximando-se para ajudar a atar o embrulho. “Este homem Saulo…”
“Ah!” Pedro podia entender.
“Oh, eu não duvido da sua sinceridade, mas na minha opinião vai andando com as coisas por um caminho errado. Todo este falar em público nas sinagogas… foi o que antes deu origem à perturbação.”
“Eu sei, eu sei,” concordou Pedro. “Eu próprio estava surpreendido.” E foi com graça que acrescentou, “Mas ele é uma surpreendente espécie de cavalheiro.”
“Quem dera que o convencesses a ir contigo. Ao fim e ao cabo, ele tem muito que aprender acerca da irmandade. Ajudá-lo-ia ver-te a trabalhar.”
“Eu sei lá?...Ah, não, ele fica melhor aqui. Barnabé tratará de olhar um pouco por ele.”
Enquanto eles falavam a porta abriu-se e os dois de quem tinham estado a falar, entraram sem uma palavra. Saulo encaminhou-se para o lugar mais afastado da sala e sentou-se sozinho, com a cabeça entre as mãos. Pedro olhou para Barnabé. "O que aconteceu”? perguntou tranquilamente.
“Não o deixaram falar,” disse Barnabé chocado.
“Onde?”
“Na sinagoga dos Cilicianos. Estavam lá alguns dos nossos irmãos. Tinham medo de serem vistos a falar com ele.”
“Porque é que tinham medo?”
“Dizem que alguns homens se queixaram de Saulo ao Sumo-sacerdote. Têm medo que as perseguições comecem outra vez.”
Tiago juntou-se a eles. Também falou com tranquilidade mas apressadamente.
“E ele será a primeira vítima. Temos que o afastar para longe, Pedro.”
Pedro olhou para o homem silencioso e curvado, e foi ter com ele.
“Saulo.”
“Sim.”
“Eu vou deixar hoje a cidade. Tenho que ir à costa. Porque não vais comigo?”
Olhando para o chão, Saulo falou como se fosse para si próprio numa voz monótona e mortiça.
“Eu pensava que me haviam de ouvir. Que acreditassem em mim. Eles sabem o que eu era antes.”
“É por isso que querem livrar-se de ti,” disse Pedro com gentileza. “Um vira-casacas, um traidor. É isso que eles pensam.”
Por fim, Saulo levantou a cabeça e olhou para Pedro.
“Queres que eu fuja?”
“Eles matam-te se ficares aqui.”
“Eles matam-nos a todos nós,” disse Tiago
Preocupado, Saulo levantou-se e apelou para o seu mais íntimo amigo.
"O que é que devo fazer, Barnabé?”
“Há apenas uma coisa a fazer,” insistiu Tiago, assumindo subitamente o comando, “deixa hoje a cidade. Amanhã pode ser demasiado tarde.”
“Barnabé?” Foi um grito a implorar ajuda. Não foi em vão que a José Barnabé lhe deram a alcunha de “o Filho da Consolação.”
“Vamos os dois. Viajamos com Pedro até Jopa e depois continuamos para Cesareia. Daí, podemos viajar até Chipre, ou mesmo até Tarso, a tua terra natal. Pedro manda-nos chamar quando esta perturbação tiver acabado,”
Saulo olhou para Pedro como quem apela. "Mas o que vai acontecer com o nosso trabalho?”
“Haverá trabalho que chegue para vós fazerdes. Vereis.”
Em Jopa, Simão o Curtidor vivia numa casa pequena de terraço raso junto do mar. No terraço e entre peles estendidas a secar nas paredes brancas, estavam dependuradas as redes de pesca do seu hóspede, Simão Pedro.
Era meio-dia e Pedro estava a descansar no terraço. Depois da sua pesca da manhã, tinha fome. Voltou-se e chamou:
“Simão, a refeição está pronta?”
Simão saiu de casa com uma pele.
“Ainda não, estou à espera que o peixe acabe de cozer.”
“Não há mais nada que se coma? Eu tenho fome.”
“Não, a não ser que queiras porco,” disse Simão enquanto estendia a pele na parede.
“Porco!” Pedro ficou chocado. Para um Judeu, porco era carne impura.
“É assim mesmo”, disse Simão com uma galhofa. “Desta pele de porco que vou pôr a secar.”
Pedro riu-se. “Era melhor teres cuidado com o que dizes – um destes dias vais ser tomado a sério. Com que então porco! Eu vou fazer uma soneca. Chama-me quando o peixe estiver pronto,” e depois de rezar as suas orações deitou-se a dormir à sombra das redes a secar. Havia uma ligeira brisa que fazia adejar a rede por cima da sua cabeça. Fechou os olhos e apesar da fome o impedir de cair em sono profundo, na sua mente sonolenta, o adejar da rede e a piada de Simão acerca do porco conjugaram-se num sonho estranho. A rede sobre a sua cabeça tornou-se pesada como se estivesse cheia com a boa pescaria de um dia propício, mas quando a baixaram para o chão ao lado dele, viu nela não só peixe mas todas as criaturas da terra – pássaros – répteis – bestas de toda a qualidade. Enquanto estava deitado a olhar para estas criaturas, subitamente ouviu no seu sonho uma voz:
“Levanta-te, Pedro – Mata e come.” “Não – não” – disse Pedro em voz alta. “Eu nunca comi nada impuro.”
Então ouviu-se de novo a voz.
“Não te compete a ti chamar impuro nada do que Deus fez.”
Estas palavras soavam-lhe nos ouvidos quando acordou. Da parte de baixo ouviu o som de ferraduras de cavalos, e depois alguém a chamá-lo pelo nome. Levantou-se depressa e correu pelas escadas abaixo. Estavam três homens à porta. Um deles, um soldado Romano, estava a falar com Simão.
“Sou eu o homem que procuram,” disse Pedro. "O que é que se passa?”
O jovem soldado mostrou-se aliviado. A sua busca tinha terminado.
“És tu Simão chamado Pedro?”
“Sim.”
“Senhor, o Centurião Cornélio, oficial do regimento Italiano estacionado em Cesareia, envia as suas saudações. Pede que voltes connosco a sua casa em Cesareia.”
Por um momento Pedro ficou sobressaltado. Estava a ser convidado a ir a casa de um pagão para visitar uma família pagã. O soldado notou a sua indecisão.
“O Centurião tem nisso muita urgência, senhor. Diz que tem qualquer coisa para lhe comunicar.”
E de repente Pedro viu o significado do seu estranho sonho. Este estrangeiro que o chamava era uma das criaturas de Deus. Não competia a Pedro, o Judeu, rejeitá-lo por ser de uma raça diferente. Estendeu a mão ao soldado.
Entra, meu filho, tu e os teus amigos deveis descansar e comer. Amanhã irei convosco a Cesareia.”
Numa colina acima do porto atarefado de Cesareia, ficava uma vila Romana; o Centurião Cornélio estava à janela, a observar a estreita estrada costeira que vinha de Jopa para o norte. Por trás dele, na sala, a sua família e todos os criados do agregado familiar, estavam juntos.
“Aí vêm eles!”
O entusiasmo na voz do Centurião reflectiu-se na cara dos outros quando voltou do quarto a correr. Ficou à porta até eles terem desmontado, o soldado, os seus dois ajudantes e o homem que tinham trazido de Jopa. Depois correu a ajoelhar-se aos pés de Simão Pedro.
“Levanta-te”, disse Pedro. “Não deves ajoelhar-te diante de mim. Eu sou um homem como tu.”
Cornélio levantou-se e pegando na mão de Pedro, conduziu-o para casa. “Toda a minha família está à tua espera”, disse, e depois lembrando-se que este homem era um Judeu, parou e olhou para ele a perguntar, “vais entrar, não vais?”
Desta vez Pedro não hesitou. “Sim, disse com um sorriso, eu vou entrar.”
A família olhava em silêncio quando Cornélio conduzia o seu hóspede para o interior da sala. Os criados lavaram-lhe os pés e trouxeram comida e água, e depois de ele estar confortavelmente instalado, Cornélio apresentou-o à família e confiou nos criados. Pedro sorriu, a olhar para os rostos ansiosos e em expectativa, depois voltou-se para o seu hospedeiro.
“Agora diz-me, amigo, qual a razão de me teres mandado chamar?”
“Antes de te responder”, disse Cornélio “eu quero que saibas que há já muitos anos que eu e a minha família temos adorado o único verdadeiro Deus. Apesar de não sermos da tua raça, não circuncidados segundo o vosso costume, temos jejuado, rezado e dado esmola aos necessitados como ensinam os Rabis da tua fé.”
“Eu sei”, disse Pedro. “Os teus criados contaram-me durante a viagem.”
Cornélio sentou-se a seu lado. “Mas ultimamente”, disse, “tenho andado cheio de um estranho sentimento de inquietação. Mais do que isso, uma absoluta convicção de que alguma coisa anda perdida, ou antes de alguma coisa estar muito perto de mim, contudo sem a poder atingir. Era como se toda a minha natureza, corpo, coração e mente, estivesse a levar-me para uma grande verdade, e no entanto havia um véu entre mim e essa verdade. Todos os dias jejuava até às três da tarde, e depois pedia a Deus que me abrisse os olhos para este mistério, que sabia ser o segredo da própria vida.”
Hesitou. Pedro sentiu o seu próprio coração bater de exultação.
“Continua.”
“Eu sou um soldado, senhor. Não um homem dado a sonhos ou estranhas fantasias e não haverá muitos homens a acreditar naquilo que agora tenho para te dizer.”
“Eu acredito em ti.”
“Há quatro dias estava aqui a rezar como de costume, quando subitamente vi ali de pé um homem à minha frente. Estava vestido de branco, e parecia ter uma luz a brilhar à sua volta. Olhei para ele, sem me atrever a falar, não fosse ele desaparecer. Vês que não era um homem qualquer como tu e eu. Parecia como …” o soldado hesitou. “Bem, como um anjo.” Depois falou comigo dizendo: “Cornélio, as tuas orações foram ouvidas. Manda a Jopa pedir que um homem chamado Simão Pedro venha ter contigo…” O soldado examinou a cara de Pedro, procurando descobrir se ele na verdade acreditava nesta estranha história. Ficou calado por um momento, um pouco envergonhado por ter falado com tão desusada fluência. Quando continuou foi com uma voz mais normal. “Não demorei a chamar-te, senhor, e fez-me um grande favor em vir tão depressa. Poderás na presença do teu e meu Deus, dizer-nos as boas notícias que trouxeste?”
Pedro sentiu um grande fluxo de amor e gratidão. A voz dele foi quente e humilde.
“É como uma brisa fresca do Céu ouvir-te falar. Ensinaste-me alguma coisa. Vejo agora que Deus não faz distinção entre homens de raças diferentes, mas que entra dentro do coração de qualquer homem que verdadeiramente O ama e serve.”
Olhou mais uma vez para os rostos silenciosos e em expectativa que estavam à sua volta.
“Vou dizer-te o que desejais saber…Lembras-te de um tempo, há poucos anos, quando começou a correr por toda a Judéia uma história acerca de um homem de Nazaré da Galileia que andava a praticar o bem, fazendo andar coxos, dando vista aos cegos e curando os doentes mentais?”
“Claro que sim,” disse Cornélio com interesse. “Deve ser o mesmo homem que um oficial meu irmão encontrou quando estava de serviço em Cafarnaum. Lembro-me que me sentia cansado daquilo nesse tempo. Parece que um servente dele, um rapaz que tinha criado desde menino e de quem era amigo, apanhou lá uma febre. A maior parte da família dava-o por morto, mas o meu amigo tinha ouvido dizer que havia um Judeu naquele distrito que fazia curas e ele mesmo correu para O encontrar. O rapaz ficou curado desde aquele momento. É essa a história que contam.”
Pedro recuou anos e viu-se de pé ao lado do seu Mestre na estrada poeirenta.
“O Centurião de Cafarnaum,” murmurou. “Lembro-me claramente desse dia.”
“Estavas lá também tu?”
“Eu costumava pescar no Lago da Galileia. A minha casa ficava perto de Cafarnaum.”
“Então conhecias esse homem, esse taumaturgo? Qual era o nome dele?”
“Jesus de Nazaré. Eu estava com Ele, quando o teu amigo veio a correr pela estrada ao nosso encontro. Julgámos que ia haver perturbação. Não se vê muitas vezes um oficial Romano a correr! Ele correu ao encontro de Jesus e falou-lhe desse seu servente que estava tão desesperadamente doente. Jesus ofereceu-se para ir com ele a sua casa, mas o Centurião disse que não era necessário. Se Jesus dissesse uma só palavra, ele sabia que a doença abandonaria o jovem rapaz.”
“E foi o que aconteceu. Foi assim que ele me contou. Tinha grande fé neste…neste Jesus.”
“Sim, grande fé. Posso lembrar-me das palavras do Senhor a respeito dele. ‘Ainda não encontrei em Israel uma fé como esta’.”
Cornélio estava admirado. “Tu chamaste-lhe ‘Senhor’?”
“Sim”.
“Mas eu pensava que um Judeu não chamaria a nenhum homem ‘Senhor’. Não é assim? Somente Deus é Senhor?”
“Mas nós também chamamos Senhor ao Messias.”
“Queres dizer o ‘Cristo? Aquele Santo que acreditais que Deus enviará para libertar o vosso povo?”
“Sim.”
Com elevado entusiasmo perguntou, “Onde está Ele agora?”
Pedro ficou calado.
“Onde está Ele, esse Jesus de Nazaré, aquele que chamais Senhor?”
Por momentos a coragem de Pedro pareceu oscilar. Como podia ele começar a dizer a admirável verdade a este honesto soldado temente a Deus? Rezou a pedir ajuda enquanto a questão estava entre eles como um copo à espera de ser cheio. Por fim falou.
“Não ouviste o que lhe aconteceu a Ele?”
“Não, nunca mais ouvi outra vez falar sobre Ele, depois daquele acontecimento em Cafarnaum.”
“Ele foi crucificado.”
Pedro viu a esperança esbater-se nos olhos do seu novo amigo, como se o copo vazio fosse deitado abaixo da sua mão. A sua voz foi dura quando perguntou:
“Que é que Ele tinha feito?”
“Continuou a fazer o bem.”
“Deve haver mais alguma coisa a ver com isso. A lei Romana é justa. Não prenderíamos um homem por pregar e curar, e nem pensar sequer em crucificá-lo”
“Ele não foi preso pelos vossos soldados, mas pelo Seu próprio povo.”
“Pelos Judeus? Mas porquê, o que é que Ele tinha feito?”
“A acusação foi que Ele se tinha chamado a Si próprio “o Filho de Deus.”
Novamente Cornélio ficou profundamente admirado e agora um pouco impaciente.
“Não ensina a vossa fé que Deus é o Pai de todos os homens? Qual é então o crime, de um homem se chamar a si próprio filho de Deus?”
“Entre o nosso povo as palavras evoluíram de maneira a significar o Messias.”
“Por isso foi uma acusação de blasfémia?”
“Sim.”
“Estou a ver. Mas, desculpa, a blasfémia pode ser um crime segundo a lei Judaica, mas a corte Romana não condenaria um homem à morte por causa disso. A corte Romana não podia saber o que é que isso significava. E os Judeus não têm poder para crucificar.”
“Isso é verdade. Mas se o Conselho do Sinédrio, a mais alta corte Judaica, encontra alguém culpado de blasfémia ou outro crime que segundo a sua lei é punível com a pena de morte, então apresentam-no ao Governador e exigem … que se faça justiça.”
“Justiça?” a voz do soldado era exigente. “Queres dizer que o Governador, penso que Pilatos, condenou esse homem a ser crucificado com uma acusação de blasfémia?”
“Não completamente. Os sacerdotes tinham pensado nisso, sabes. Portanto disseram a Pilatos que Jesus tinha andado a dizer ao povo que não pagassem o tributo a César e que Ele se tinha proclamado ‘Rei dos Judeus’.”
“Já entendo. E era verdade?” Era como se Simão Pedro estivesse a ser julgado. Rezou para poder ser uma testemunha fiel, apesar de o coração lhe doer com uma dor de recordação, mas a sua voz foi firme.
“Ele nunca se proclamou Rei, ainda que alguns de entre o povo que O tinham ouvido falar e vendo as milagres que fazia, O aclamassem como ‘Rei de Israel’.”
“E a outra acusação, do pagamento a César?”
“Eu posso dizer-te o que Ele disse a respeito disso. Eu estava com Ele no Templo quando um dos fariseus que desaprovavam a Sua pregação, querendo armar-lhe uma cilada, lhe perguntou se Ele pensava que era legítimo os Judeus pagarem tributo a César. Jesus não lhe respondeu directamente. Disse e fez como tantas vezes acontecia, fazendo com que o homem mesmo encontrasse a resposta.”
“Como?”
“Pediu ao homem que lhe mostrasse uma moeda. E quando ele a mostrou, Jesus perguntou-lhe de quem era a imagem gravada na moeda. Quando o homem lhe respondeu que era de César, Jesus disse-lhe, “então dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus’.”
Pela primeira vez desde a sua amarga desilusão que contrastava com as suas elevadas esperanças, Cornélio sorriu.
“Foi uma boa resposta. Uma resposta inteligente. Disseram isso a Pilatos?”
“Não, apresentaram testemunhas falsas.”
Sem piedade as perguntas continuaram.
“Quem, o teu povo ou o meu?”
“O meu povo.”
“Mas o que é que tu e os Seus outros seguidores fizestes? Eu assumo que tu eras um dos Seus – como lhes chamam? – um dos Seus discípulos?”
“Um dos primeiros.”
“Bem então, não podiam ter falado por Ele em Sua defesa, como estás a falar agora por Ele. Não podiam?”
Agora, tudo ia passando. A lembrança é que o atormentava.
“Todos os Seus discípulos O abandonaram.”
“Tu também?” Foi uma revolta de descrença.”
“Eu fui o pior. Eu neguei que O conhecia.”
Cornélio compreendeu no rosto do outro a sua agonia, as lágrimas de vergonha que lhe ensombravam os olhos, mas agora não podia suspender o interrogatório. Tinha que saber toda a história.
“Mas porquê?” perguntou ele com gentileza, repetindo a pergunta que tinha atormentado Pedro desde aquela noite terrível. Ele sabia a resposta, mas não podia falar.
“Estavas com medo?”
Pedro acenou que sim.
Havia mais uma pergunta que tinha que ser esclarecida.
“Acreditavas que Ele era o Cristo?”
Pedro levantou a cabeça e ao mesmo tempo elevou o espírito sobrepondo-se à vergonha e à tristeza. A notícia que tinha trazido não era a de um amigo morto, mas a de um Cristo vivo. Um calor lhe aqueceu a voz ao responder:
“Quando trabalhávamos juntos, e havia muito trabalho, parecia que não pensávamos tanto na Glória de Deus que estava nEle. Compreendes, éramos um grupo de amigos – era o que Ele mesmo nos dizia: ‘vós sois os meus amigos’ – e era um trabalho terreno de alguma maneira, alimentando os famintos, curando os doentes, falando com os pobres pecadores do amor de Deus, resistindo aos opositores, porque a oposição crescia quando nos empenhávamos. Era um trabalho duro, também, dia após dia, e nós gostávamos porque amávamos o nosso amigo. Mas um dia…” Pedro fez uma pausa. O Centurião susteve a respiração. “Um dia, três de nós tínhamos subido à montanha com Ele para rezar. Ele gostava de estar no alto, sozinho algumas vezes, e tinha-se adiantado de nós. Repentinamente quando eu olhei para ele – penso que entendes isto – parecia que a glória de Deus se mostrava em tudo à sua volta. Eu reconheci… que Ele era o Cristo o Filho de Deus vivo.”
A glória daquele dia brilhava nos olhos de Pedro ao lembrar-se. Ninguém naquela sala podia ter dúvidas da absoluta verdade que estava contida naquele testemunho. Para Cornélio foi o mais amargo momento da sua vida. Era esta a “boa nova” que lhes tinha prometido? Podia ser violento com o homem que lha transmitiu. A sua voz foi áspera.
“Crucificámos o Cristo de Deus. Foi isso que vieste transmitir-me? Os Judeus e com eles nós, matámos o nosso Salvador?”
“Sim.”
Cornélio tapou a cara com as mãos. Pedro olhou para ele com compaixão. Era este o caminho que tinha de ser feito –- o caminho da própria vida – pelo sofrimento à Ressurreição.
“Mas não foi esse o final da história.”
O rosto magoado estava levantado para ele.
“Cornélio, Jesus está vivo.”
“Mas tu disseste…?”
“Ele foi crucificado, morto e sepultado. Eu ajudei a levar o Seu corpo para o túmulo. Três dias depois o túmulo estava vazio.”
“O corpo foi roubado?”
“Não. Jesus voltou de novo à vida. O nosso pecado matou-O. A Sua bondade, a bondade de Deus trouxe-O vivo para nós.”
“Tu Viste-O?” Perguntou baixinho.
“Sim, eu vi-O.”
“Uma ilusão?”
“Não, não foi uma ilusão. Era Ele mesmo, o Próprio Senhor. O nosso Amigo e Mestre como O conhecemos, um homem de carne e ossos. Mas havia uma diferença. Ele tinha as marcas dos cravos nas mãos. Jantou connosco na mesma sala onde tínhamos comido na noite da Sua prisão. E depois do jantar Ele disse-nos o que devíamos fazer.
“Sim?”
“Disse: vós sois minhas testemunhas. Dou-vos a vós a mensagem do Pai. Ide por todo o mundo dizer às pessoas de todas as nações aquilo que vistes e ouvistes. Baptizai-as em meu nome e ensinai-lhes aquilo que vos ensinei. E não esqueçais que estou sempre convosco até ao fim do mundo.”
A glória que brilhava nos olhos de Pedro parecia encher a sala. Cornélio levantou-se com a cara transfigurada. A sua voz foi um grito de alegria.
“Então aí está. Ele está connosco. O Filho de Deus Vivo. E caindo de joelhos clamou, “Jesus – Senhor – Tudo o que tenho é o teu mandato para cumprir.”
Pedro olhava, profundamente comovido, quando a família e os criados se puseram a gritar e o que se ouvia na sala, era o nome de Jesus. Algumas palavras do seu Mestre lhe ecoavam na memória, “Por me teres visto acreditaste. Bem-aventurados os que sem me terem visto acreditaram.”
“Pedro, é verdade o que ouvimos? É verdade que estiveste na casa de um soldado Italiano em Cesareia e que baptizaste a sua família?”
Quem falava era Tiago de Nazaré. Um rigorista como era, segundo a lei que seguia, estava profundamente chocado pela acção de Pedro. Pedro esperava isso. Sentou-se entre os seus amigos na sala de cima, em Jerusalém, e contou-lhes a estranha história do seu sonho em Jopa, das palavras do Senhor, “não te compete a ti chamar impuro ao que Deus fez”, e a sua experiência na casa Romana.
Somente Marcos mantinha ainda alguma dúvida.
“Mas porque é que os baptizaste?”
“Como podia recusar baptizar pessoas que estavam cheias do Espírito Santo?”
Houve uma agitação de admiração por parte dos discípulos.
“É verdade”, disse Pedro. “Tão verdade como foi nesta sala no dia de Pentecostes. Toda a gente na família do soldado sentiu a presença de Cristo Vivo. Não havia dúvida. Eu não podia mentir numa situação daquelas. Lembrou o que o Mestre Lhes disse, ‘João baptizava com água, mas vós baptizareis com o Espírito Santo’. Perguntais-me porque os baptizei em nome de Jesus. Quem sou eu para procurar deter a mão de Deus?”
“Mas a Lei?” perguntou o jovem Marcos. “As palavras de Deus a Abraão, a Moisés. Que acontecerá connosco se começarmos a virar as costas à Lei? Onde vai tudo isto acabar?”
Pedro sorriu para o rapaz.
“O fim está nas mãos de Deus, rapaz. Nenhum de nós sabe o que será. Isso é alguma coisa que o Mestre nunca nos disse.”
“Sabes, Tiago,” disse Pedro, “o que não percebo é como estivemos todo aquele tempo com o Mestre na Galileia, sem nunca te termos encontrado.”
Tiago era a alma da honestidade. “Eu mantive-me afastado propositadamente. Sabes, eu não queria andar misturado com Jesus e com o que Ele andava a fazer. Sabes como é numa família se um dos membros começa a atrair a atenção para si próprio e a apresentar novas ideias, os outros tendem a afastar-se dele. Uma espécie de embaraço!”
“Vergonha?”
“Sim, até vergonha.”
“E que foi que te mudou?”
Tiago hesitou antes de responder. Depois, olhando para a cara humilde e compadecida de Pedro, lembrou quanto da sua própria experiência o outro tinha partilhado e percebeu que ali estava o único homem que o podia entender.
Foi depois de Ele ter sido crucificado. Foi um choque terrível. Eu nunca pensei que se chegasse a isto, e é claro que fiquei mais envergonhado que nunca por fazer parte da mesma família. Parecia ser a desgraça final…”
Pedro acenou, lembrando a prisão no jardim, e o pátio fora da câmara do julgamento. Ele sabia como a vergonha e o medo fizeram que mesmo aqueles que O amavam mais profundamente, esquecessem o seu amigo quando Ele foi feito prisioneiro. Houve um momento de silêncio, e depois Tiago falou de novo:
“–- E então, um dia pouco depois, eu estava na oficina a preparar uma peça de madeira quando senti que alguém estava ao meu lado. Levantei a vista e era Ele, Jesus…. Bem, podes imaginar o que senti.”
Pedro sabia. “Medo.”
“Paralisado com medo. Pensei que era um espírito. Então Ele começou a falar comigo a respeito do trabalho que estava a fazer, e lentamente a estranheza e o medo mudaram para alguma coisa próxima e familiar, como se voltássemos a ser novamente rapazes a trabalhar juntos na oficina. Comecei a pensar que estava a dormir e a sonhar… E foi o que disse a mim próprio nos dias seguintes. Foi um sonho; e tentei afastá-lo da mente….Então começou toda aquela perseguição contra vós e parecia… bem, como se de novo estivessem a tentar crucificá-lo a Ele: e decidi que desta vez, eu me havia de encontrar no lugar certo.”
Pedro inclinou-se e colocou a mão sobre a do seu novo amigo. “Estamos satisfeitos por te termos junto de nós, Tiago. Não há muitos de nós que tenham ficado na cidade.”
"O que aconteceu com aquele homem, Saulo de Tarso, que começou com todo o problema? ”
”A última notícia que tivemos dele, foi que estava a caminho de Damasco. Mas não trouxe nenhum prisioneiro, senão teríamos sabido.”
Pedro voltou-se para falar com Marcos que estava à janela.
“Há alguma notícia de Barnabé?”
“Não. Oxalá que venha.”
Pedro notou a preocupação que as palavras de Marcos traduziam.
“Há-de vir.” Marcos suspirou. “O que é que está a perturbar-te, rapaz?”
“Há uma coisa que quero perguntar-lhe.”
Pedro olhou para a cara preocupada do rapaz. “Alguma coisa tão séria?” perguntou ele com um sorriso.
Marcos respondeu. “Julgo que é sério.” Então motivado pelo calor e delicadeza do olhar de Pedro, aproximou-se e ficou de pé ao seu lado.
“Lembras-te da última semana quando cá estava Filipe…?”
Pedro acenou que sim. Filipe era um dos apóstolos que tinha estado a fazer um grande trabalho no sul.
“Bem, ele disse-nos que um daqueles que baptizou, era um Gentio.”
Tiago olhou de Marcos para Pedro completamente admirado.
Um Gentio?”
“Sim,” disse Pedro, “um Etíope. Filipe encontrou-o em Gaza.”
Marcos voltou-se para Tiago.
“Parece que esse homem andava a ler as nossas Escrituras”, explicou, “E perguntou a Filipe o significado de algumas palavras do Profeta Isaías.”
“As palavras eram estas,” disse Pedro, “Ele foi levado como ovelha para ser abatida e como cordeiro mudo diante tosquiador, sem abrir a Sua boca”…perguntou a Filipe a quem se referiam as palavras, e então Filipe falou-lhe de Nosso Senhor, e o homem pediu para ser baptizado.
“Mas devia tê-lo feito, Pedro?” A voz de Marcos estava perturbada.
“Como podia ele ter recusado?” respondeu Pedro. “Seria como recusar um copo de água a um homem cheio de sede.”
“Mas o homem não era Judeu,” protestou Marcos. “Como é que ele podia entender?”
“Porque ele desejava entender.” Os olhos de Pedro brilhavam ao lembrar. Como o Mestre disse, “Bem-aventurados aqueles que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.”
Marcos voltou para a janela, sem estar convencido. Tiago estava também perturbado.
“É um grande passo, Pedro, aceitar os Gentios.”
“Um passo para a frente, talvez.”
Foram interrompidos por um alegre grito de Marco.
“Aí está o Tio Barnabé! E vem alguém com ele…Parece um mendigo.”
Pedro levantou-se.
“Barnabé estará a trazê-lo para comer. Traz pão e vinho, Marcos.”
“Não, ele deixou-o no pátio. Vem sozinho.”
Pedro atravessou para a janela, quando Marcos corria para a porta para saudar o seu tio A alta figura de Barnabé apareceu na entrada. Abraçou Marcos calorosamente e saudou os outros dois, mas não entrou na sala.
“Quem é o teu amigo lá fora, Barnabé?” perguntou Pedro pela janela.
Ele não respondeu logo. Três pares de olhos o encaravam inquisitorialmente. Depois olhando de frente para Pedro, disse com muita gravidade:
“Saulo de Tarso.”
O nome encheu a sala de um terror quase esquecido. Tiago levantou-se, a alegria de Marcos pela volta de seu tio foi tragada pelo medo. Pedro sentiu os dedos frios de pânico a apertar-lhe o coração. Esforçou-se para manter a voz firme.
“Saulo!”
“Encontrei-o na rua doente e esfarrapado. Não o reconheci a princípio. Ele tem uma estranha história para contar.”
Os dedos enregelados pressionavam os temporais de Pedro, comprimindo a vida do seu cérebro. Uma névoa fria parecia toldar-lhe os olhos quando fixava a cara de Barnabé, rezando para que a ardente esperança que ali percebia pudesse iluminá-lo. As vozes na sala soavam à distância.
“É uma ratoeira.”
“Ele está doente.”
“Leva-o para longe.”
“Ele está com fome.”
“Fechem as portas.”
“Ele está a pedir para te ver, Pedro.”
“Pedro, Pedro, o que é que vais fazer?”
Subitamente na sua memória ressoou outra voz:
“Eu tinha fome e tu acolheste-me…Estava nu e vestiste-me…Na medida em que o fizerdes a um desses…”
A névoa clareou. O calor inundou o seu corpo. Compreendia que os seus três amigos estivessem a olhar ansiosamente para ele. A apelar para ele. À espera da sua resposta.
Então a sua palavra foi firme. “Barnabé trá-lo para cima.”
Olharam da janela quando Barnabé atravessava o pátio ao encontro daquele homem esfarrapado que estava sentado encostado à parede.
“Imaginemos que é uma ratoeira,” murmurou Tiago. "O que vai acontecer se toda a perturbação começar outra vez?
O medo tinha desaparecido da maneira de ser de Pedro que falou como o líder, o pastor do seu rebanho.
“Temos que arriscar isto. Este homem veio ter connosco como um mendigo. Alguma vez Nosso Senhor recusou mostrar amor e misericórdia a um mendigo?”
Era agora já escuro. Pedro acendeu uma lâmpada enquanto os outros olhavam em silêncio para as duas figuras que na penumbra seguiam pelo pátio para as escadas. Voltaram-se para a porta, ao ouvirem as pegadas a subir para a sala de cima.
E então finalmente ali estava ele de pé à luz da lanterna, Saulo o mendigo.
Tiago ficou surpreendido ao ver um homem tão baixo. Baixo, sujo, pobre, com o cabelo e a barba branca do pó. As mãos agarradas ao seu casaco esfarrapado, pareciam não ter mais carne que as garras de uma ave. Era este o tirano? Mas foi nos olhos que Marcos reparou. Tinham estado fechados uns momentos a defenderem-se da luz. Depois abriram-se e foi como se dois grandes fogos se acendessem na sala. Marcos nunca tinha visto olhos assim: a arder, à procura, devoradores, e contudo havia neles paz e, mais estranho que tudo, amor. Sentiu o seu coração a bater com nova exaltação, uma exaltação que não incutia medo.
Pedro atravessou directamente ao encontro do homem na porta de entrada e pegou-lhe nas mãos.
“A paz esteja contigo, amigo.”
Levou Saulo para um sofá, ajoelhou-se a seus pés para lhe desatar as sandálias, depois deitou água limpa de um jarro sobre os pés feridos e sujos.
“Tu a lavar-me os pés?” Havia vergonha, súplica e admiração na sua voz rouca.
“É o que o nosso Mestre teria feito. Ele lavou-me os pés aqui nesta sala.”
Os olhos de Saulo, aqueles olhos ardentes, pesquisadores, viajavam à volta da sala.
“É esta a sala onde Jesus ficava?”
“Sim”, disse Pedro, enquanto secava os pés cansados. “Foi aqui que comemos juntos a nossa última ceia.” Olhou para a cara dos outros, e depois continuou no mesmo tom familiar.“E foi aqui que Ele veio primeiro ao nosso encontro quando ressuscitou dos mortos”. Não houve reacção de Saulo de Tarso, somente um horrorizado gesto de Tiago que ao ouvir estas palavras perigosas, e quando Pedro se levantou para pôr o jarro no seu lugar, não pôde conter por mais tempo a sua ansiedade. Aproximou-se à pressa de Saulo.
“Porque vieste ter connosco?”
Saulo levantou os olhos para olhar de frente os do outro.
“Porque também O vi.”
Os três discípulos olharam admirados para o seu visitante como se estivesse doido.
“Tu viste o Senhor?” disse Pedro, ajoelhando-se novamente a seus pés.
Viste-O a Ele e ouviste a Sua voz?”
“Onde?”
“No caminho para Damasco”
E sentando-se ali na sala de cima, Saulo de Tarso contou a sua estranha história aos apóstolos de Jesus.
Mas Saulo, o apóstolo de Cristo, era quase um perigo tão grande para a irmandade como Saulo o perseguidor. A notícia da sua volta a Jerusalém depressa se espalhou, pois ele, como em Damasco, falava publicamente nas sinagogas da verdade que lhe tinha sido revelada: ”Que Jesus que foi crucificado é o filho do Altíssimo Deus.” À irmandade, parecia que ele estivesse a procurar pagar pela morte de Estêvão, expondo-se ao risco de um destino semelhante. Todos estavam conscientes do perigo, mas foi Tiago de Nazaré que o traduziu em palavras. Ele e Pedro estavam sós na sala de cima. Pedro estava a juntar algumas poucas coisas num embrulho, porque ia sair para Jopa no dia seguinte. Tiago andava a passear sem parar à volta da sala.
“Tu não te importas de ficar aqui encarregado, pois não, Tiago?”
“Há só uma coisa que me incomoda," disse Tiago, aproximando-se para ajudar a atar o embrulho. “Este homem Saulo…”
“Ah!” Pedro podia entender.
“Oh, eu não duvido da sua sinceridade, mas na minha opinião vai andando com as coisas por um caminho errado. Todo este falar em público nas sinagogas… foi o que antes deu origem à perturbação.”
“Eu sei, eu sei,” concordou Pedro. “Eu próprio estava surpreendido.” E foi com graça que acrescentou, “Mas ele é uma surpreendente espécie de cavalheiro.”
“Quem dera que o convencesses a ir contigo. Ao fim e ao cabo, ele tem muito que aprender acerca da irmandade. Ajudá-lo-ia ver-te a trabalhar.”
“Eu sei lá?...Ah, não, ele fica melhor aqui. Barnabé tratará de olhar um pouco por ele.”
Enquanto eles falavam a porta abriu-se e os dois de quem tinham estado a falar, entraram sem uma palavra. Saulo encaminhou-se para o lugar mais afastado da sala e sentou-se sozinho, com a cabeça entre as mãos. Pedro olhou para Barnabé. "O que aconteceu”? perguntou tranquilamente.
“Não o deixaram falar,” disse Barnabé chocado.
“Onde?”
“Na sinagoga dos Cilicianos. Estavam lá alguns dos nossos irmãos. Tinham medo de serem vistos a falar com ele.”
“Porque é que tinham medo?”
“Dizem que alguns homens se queixaram de Saulo ao Sumo-sacerdote. Têm medo que as perseguições comecem outra vez.”
Tiago juntou-se a eles. Também falou com tranquilidade mas apressadamente.
“E ele será a primeira vítima. Temos que o afastar para longe, Pedro.”
Pedro olhou para o homem silencioso e curvado, e foi ter com ele.
“Saulo.”
“Sim.”
“Eu vou deixar hoje a cidade. Tenho que ir à costa. Porque não vais comigo?”
Olhando para o chão, Saulo falou como se fosse para si próprio numa voz monótona e mortiça.
“Eu pensava que me haviam de ouvir. Que acreditassem em mim. Eles sabem o que eu era antes.”
“É por isso que querem livrar-se de ti,” disse Pedro com gentileza. “Um vira-casacas, um traidor. É isso que eles pensam.”
Por fim, Saulo levantou a cabeça e olhou para Pedro.
“Queres que eu fuja?”
“Eles matam-te se ficares aqui.”
“Eles matam-nos a todos nós,” disse Tiago
Preocupado, Saulo levantou-se e apelou para o seu mais íntimo amigo.
"O que é que devo fazer, Barnabé?”
“Há apenas uma coisa a fazer,” insistiu Tiago, assumindo subitamente o comando, “deixa hoje a cidade. Amanhã pode ser demasiado tarde.”
“Barnabé?” Foi um grito a implorar ajuda. Não foi em vão que a José Barnabé lhe deram a alcunha de “o Filho da Consolação.”
“Vamos os dois. Viajamos com Pedro até Jopa e depois continuamos para Cesareia. Daí, podemos viajar até Chipre, ou mesmo até Tarso, a tua terra natal. Pedro manda-nos chamar quando esta perturbação tiver acabado,”
Saulo olhou para Pedro como quem apela. "Mas o que vai acontecer com o nosso trabalho?”
“Haverá trabalho que chegue para vós fazerdes. Vereis.”
Em Jopa, Simão o Curtidor vivia numa casa pequena de terraço raso junto do mar. No terraço e entre peles estendidas a secar nas paredes brancas, estavam dependuradas as redes de pesca do seu hóspede, Simão Pedro.
Era meio-dia e Pedro estava a descansar no terraço. Depois da sua pesca da manhã, tinha fome. Voltou-se e chamou:
“Simão, a refeição está pronta?”
Simão saiu de casa com uma pele.
“Ainda não, estou à espera que o peixe acabe de cozer.”
“Não há mais nada que se coma? Eu tenho fome.”
“Não, a não ser que queiras porco,” disse Simão enquanto estendia a pele na parede.
“Porco!” Pedro ficou chocado. Para um Judeu, porco era carne impura.
“É assim mesmo”, disse Simão com uma galhofa. “Desta pele de porco que vou pôr a secar.”
Pedro riu-se. “Era melhor teres cuidado com o que dizes – um destes dias vais ser tomado a sério. Com que então porco! Eu vou fazer uma soneca. Chama-me quando o peixe estiver pronto,” e depois de rezar as suas orações deitou-se a dormir à sombra das redes a secar. Havia uma ligeira brisa que fazia adejar a rede por cima da sua cabeça. Fechou os olhos e apesar da fome o impedir de cair em sono profundo, na sua mente sonolenta, o adejar da rede e a piada de Simão acerca do porco conjugaram-se num sonho estranho. A rede sobre a sua cabeça tornou-se pesada como se estivesse cheia com a boa pescaria de um dia propício, mas quando a baixaram para o chão ao lado dele, viu nela não só peixe mas todas as criaturas da terra – pássaros – répteis – bestas de toda a qualidade. Enquanto estava deitado a olhar para estas criaturas, subitamente ouviu no seu sonho uma voz:
“Levanta-te, Pedro – Mata e come.” “Não – não” – disse Pedro em voz alta. “Eu nunca comi nada impuro.”
Então ouviu-se de novo a voz.
“Não te compete a ti chamar impuro nada do que Deus fez.”
Estas palavras soavam-lhe nos ouvidos quando acordou. Da parte de baixo ouviu o som de ferraduras de cavalos, e depois alguém a chamá-lo pelo nome. Levantou-se depressa e correu pelas escadas abaixo. Estavam três homens à porta. Um deles, um soldado Romano, estava a falar com Simão.
“Sou eu o homem que procuram,” disse Pedro. "O que é que se passa?”
O jovem soldado mostrou-se aliviado. A sua busca tinha terminado.
“És tu Simão chamado Pedro?”
“Sim.”
“Senhor, o Centurião Cornélio, oficial do regimento Italiano estacionado em Cesareia, envia as suas saudações. Pede que voltes connosco a sua casa em Cesareia.”
Por um momento Pedro ficou sobressaltado. Estava a ser convidado a ir a casa de um pagão para visitar uma família pagã. O soldado notou a sua indecisão.
“O Centurião tem nisso muita urgência, senhor. Diz que tem qualquer coisa para lhe comunicar.”
E de repente Pedro viu o significado do seu estranho sonho. Este estrangeiro que o chamava era uma das criaturas de Deus. Não competia a Pedro, o Judeu, rejeitá-lo por ser de uma raça diferente. Estendeu a mão ao soldado.
Entra, meu filho, tu e os teus amigos deveis descansar e comer. Amanhã irei convosco a Cesareia.”
Numa colina acima do porto atarefado de Cesareia, ficava uma vila Romana; o Centurião Cornélio estava à janela, a observar a estreita estrada costeira que vinha de Jopa para o norte. Por trás dele, na sala, a sua família e todos os criados do agregado familiar, estavam juntos.
“Aí vêm eles!”
O entusiasmo na voz do Centurião reflectiu-se na cara dos outros quando voltou do quarto a correr. Ficou à porta até eles terem desmontado, o soldado, os seus dois ajudantes e o homem que tinham trazido de Jopa. Depois correu a ajoelhar-se aos pés de Simão Pedro.
“Levanta-te”, disse Pedro. “Não deves ajoelhar-te diante de mim. Eu sou um homem como tu.”
Cornélio levantou-se e pegando na mão de Pedro, conduziu-o para casa. “Toda a minha família está à tua espera”, disse, e depois lembrando-se que este homem era um Judeu, parou e olhou para ele a perguntar, “vais entrar, não vais?”
Desta vez Pedro não hesitou. “Sim, disse com um sorriso, eu vou entrar.”
A família olhava em silêncio quando Cornélio conduzia o seu hóspede para o interior da sala. Os criados lavaram-lhe os pés e trouxeram comida e água, e depois de ele estar confortavelmente instalado, Cornélio apresentou-o à família e confiou nos criados. Pedro sorriu, a olhar para os rostos ansiosos e em expectativa, depois voltou-se para o seu hospedeiro.
“Agora diz-me, amigo, qual a razão de me teres mandado chamar?”
“Antes de te responder”, disse Cornélio “eu quero que saibas que há já muitos anos que eu e a minha família temos adorado o único verdadeiro Deus. Apesar de não sermos da tua raça, não circuncidados segundo o vosso costume, temos jejuado, rezado e dado esmola aos necessitados como ensinam os Rabis da tua fé.”
“Eu sei”, disse Pedro. “Os teus criados contaram-me durante a viagem.”
Cornélio sentou-se a seu lado. “Mas ultimamente”, disse, “tenho andado cheio de um estranho sentimento de inquietação. Mais do que isso, uma absoluta convicção de que alguma coisa anda perdida, ou antes de alguma coisa estar muito perto de mim, contudo sem a poder atingir. Era como se toda a minha natureza, corpo, coração e mente, estivesse a levar-me para uma grande verdade, e no entanto havia um véu entre mim e essa verdade. Todos os dias jejuava até às três da tarde, e depois pedia a Deus que me abrisse os olhos para este mistério, que sabia ser o segredo da própria vida.”
Hesitou. Pedro sentiu o seu próprio coração bater de exultação.
“Continua.”
“Eu sou um soldado, senhor. Não um homem dado a sonhos ou estranhas fantasias e não haverá muitos homens a acreditar naquilo que agora tenho para te dizer.”
“Eu acredito em ti.”
“Há quatro dias estava aqui a rezar como de costume, quando subitamente vi ali de pé um homem à minha frente. Estava vestido de branco, e parecia ter uma luz a brilhar à sua volta. Olhei para ele, sem me atrever a falar, não fosse ele desaparecer. Vês que não era um homem qualquer como tu e eu. Parecia como …” o soldado hesitou. “Bem, como um anjo.” Depois falou comigo dizendo: “Cornélio, as tuas orações foram ouvidas. Manda a Jopa pedir que um homem chamado Simão Pedro venha ter contigo…” O soldado examinou a cara de Pedro, procurando descobrir se ele na verdade acreditava nesta estranha história. Ficou calado por um momento, um pouco envergonhado por ter falado com tão desusada fluência. Quando continuou foi com uma voz mais normal. “Não demorei a chamar-te, senhor, e fez-me um grande favor em vir tão depressa. Poderás na presença do teu e meu Deus, dizer-nos as boas notícias que trouxeste?”
Pedro sentiu um grande fluxo de amor e gratidão. A voz dele foi quente e humilde.
“É como uma brisa fresca do Céu ouvir-te falar. Ensinaste-me alguma coisa. Vejo agora que Deus não faz distinção entre homens de raças diferentes, mas que entra dentro do coração de qualquer homem que verdadeiramente O ama e serve.”
Olhou mais uma vez para os rostos silenciosos e em expectativa que estavam à sua volta.
“Vou dizer-te o que desejais saber…Lembras-te de um tempo, há poucos anos, quando começou a correr por toda a Judéia uma história acerca de um homem de Nazaré da Galileia que andava a praticar o bem, fazendo andar coxos, dando vista aos cegos e curando os doentes mentais?”
“Claro que sim,” disse Cornélio com interesse. “Deve ser o mesmo homem que um oficial meu irmão encontrou quando estava de serviço em Cafarnaum. Lembro-me que me sentia cansado daquilo nesse tempo. Parece que um servente dele, um rapaz que tinha criado desde menino e de quem era amigo, apanhou lá uma febre. A maior parte da família dava-o por morto, mas o meu amigo tinha ouvido dizer que havia um Judeu naquele distrito que fazia curas e ele mesmo correu para O encontrar. O rapaz ficou curado desde aquele momento. É essa a história que contam.”
Pedro recuou anos e viu-se de pé ao lado do seu Mestre na estrada poeirenta.
“O Centurião de Cafarnaum,” murmurou. “Lembro-me claramente desse dia.”
“Estavas lá também tu?”
“Eu costumava pescar no Lago da Galileia. A minha casa ficava perto de Cafarnaum.”
“Então conhecias esse homem, esse taumaturgo? Qual era o nome dele?”
“Jesus de Nazaré. Eu estava com Ele, quando o teu amigo veio a correr pela estrada ao nosso encontro. Julgámos que ia haver perturbação. Não se vê muitas vezes um oficial Romano a correr! Ele correu ao encontro de Jesus e falou-lhe desse seu servente que estava tão desesperadamente doente. Jesus ofereceu-se para ir com ele a sua casa, mas o Centurião disse que não era necessário. Se Jesus dissesse uma só palavra, ele sabia que a doença abandonaria o jovem rapaz.”
“E foi o que aconteceu. Foi assim que ele me contou. Tinha grande fé neste…neste Jesus.”
“Sim, grande fé. Posso lembrar-me das palavras do Senhor a respeito dele. ‘Ainda não encontrei em Israel uma fé como esta’.”
Cornélio estava admirado. “Tu chamaste-lhe ‘Senhor’?”
“Sim”.
“Mas eu pensava que um Judeu não chamaria a nenhum homem ‘Senhor’. Não é assim? Somente Deus é Senhor?”
“Mas nós também chamamos Senhor ao Messias.”
“Queres dizer o ‘Cristo? Aquele Santo que acreditais que Deus enviará para libertar o vosso povo?”
“Sim.”
Com elevado entusiasmo perguntou, “Onde está Ele agora?”
Pedro ficou calado.
“Onde está Ele, esse Jesus de Nazaré, aquele que chamais Senhor?”
Por momentos a coragem de Pedro pareceu oscilar. Como podia ele começar a dizer a admirável verdade a este honesto soldado temente a Deus? Rezou a pedir ajuda enquanto a questão estava entre eles como um copo à espera de ser cheio. Por fim falou.
“Não ouviste o que lhe aconteceu a Ele?”
“Não, nunca mais ouvi outra vez falar sobre Ele, depois daquele acontecimento em Cafarnaum.”
“Ele foi crucificado.”
Pedro viu a esperança esbater-se nos olhos do seu novo amigo, como se o copo vazio fosse deitado abaixo da sua mão. A sua voz foi dura quando perguntou:
“Que é que Ele tinha feito?”
“Continuou a fazer o bem.”
“Deve haver mais alguma coisa a ver com isso. A lei Romana é justa. Não prenderíamos um homem por pregar e curar, e nem pensar sequer em crucificá-lo”
“Ele não foi preso pelos vossos soldados, mas pelo Seu próprio povo.”
“Pelos Judeus? Mas porquê, o que é que Ele tinha feito?”
“A acusação foi que Ele se tinha chamado a Si próprio “o Filho de Deus.”
Novamente Cornélio ficou profundamente admirado e agora um pouco impaciente.
“Não ensina a vossa fé que Deus é o Pai de todos os homens? Qual é então o crime, de um homem se chamar a si próprio filho de Deus?”
“Entre o nosso povo as palavras evoluíram de maneira a significar o Messias.”
“Por isso foi uma acusação de blasfémia?”
“Sim.”
“Estou a ver. Mas, desculpa, a blasfémia pode ser um crime segundo a lei Judaica, mas a corte Romana não condenaria um homem à morte por causa disso. A corte Romana não podia saber o que é que isso significava. E os Judeus não têm poder para crucificar.”
“Isso é verdade. Mas se o Conselho do Sinédrio, a mais alta corte Judaica, encontra alguém culpado de blasfémia ou outro crime que segundo a sua lei é punível com a pena de morte, então apresentam-no ao Governador e exigem … que se faça justiça.”
“Justiça?” a voz do soldado era exigente. “Queres dizer que o Governador, penso que Pilatos, condenou esse homem a ser crucificado com uma acusação de blasfémia?”
“Não completamente. Os sacerdotes tinham pensado nisso, sabes. Portanto disseram a Pilatos que Jesus tinha andado a dizer ao povo que não pagassem o tributo a César e que Ele se tinha proclamado ‘Rei dos Judeus’.”
“Já entendo. E era verdade?” Era como se Simão Pedro estivesse a ser julgado. Rezou para poder ser uma testemunha fiel, apesar de o coração lhe doer com uma dor de recordação, mas a sua voz foi firme.
“Ele nunca se proclamou Rei, ainda que alguns de entre o povo que O tinham ouvido falar e vendo as milagres que fazia, O aclamassem como ‘Rei de Israel’.”
“E a outra acusação, do pagamento a César?”
“Eu posso dizer-te o que Ele disse a respeito disso. Eu estava com Ele no Templo quando um dos fariseus que desaprovavam a Sua pregação, querendo armar-lhe uma cilada, lhe perguntou se Ele pensava que era legítimo os Judeus pagarem tributo a César. Jesus não lhe respondeu directamente. Disse e fez como tantas vezes acontecia, fazendo com que o homem mesmo encontrasse a resposta.”
“Como?”
“Pediu ao homem que lhe mostrasse uma moeda. E quando ele a mostrou, Jesus perguntou-lhe de quem era a imagem gravada na moeda. Quando o homem lhe respondeu que era de César, Jesus disse-lhe, “então dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus’.”
Pela primeira vez desde a sua amarga desilusão que contrastava com as suas elevadas esperanças, Cornélio sorriu.
“Foi uma boa resposta. Uma resposta inteligente. Disseram isso a Pilatos?”
“Não, apresentaram testemunhas falsas.”
Sem piedade as perguntas continuaram.
“Quem, o teu povo ou o meu?”
“O meu povo.”
“Mas o que é que tu e os Seus outros seguidores fizestes? Eu assumo que tu eras um dos Seus – como lhes chamam? – um dos Seus discípulos?”
“Um dos primeiros.”
“Bem então, não podiam ter falado por Ele em Sua defesa, como estás a falar agora por Ele. Não podiam?”
Agora, tudo ia passando. A lembrança é que o atormentava.
“Todos os Seus discípulos O abandonaram.”
“Tu também?” Foi uma revolta de descrença.”
“Eu fui o pior. Eu neguei que O conhecia.”
Cornélio compreendeu no rosto do outro a sua agonia, as lágrimas de vergonha que lhe ensombravam os olhos, mas agora não podia suspender o interrogatório. Tinha que saber toda a história.
“Mas porquê?” perguntou ele com gentileza, repetindo a pergunta que tinha atormentado Pedro desde aquela noite terrível. Ele sabia a resposta, mas não podia falar.
“Estavas com medo?”
Pedro acenou que sim.
Havia mais uma pergunta que tinha que ser esclarecida.
“Acreditavas que Ele era o Cristo?”
Pedro levantou a cabeça e ao mesmo tempo elevou o espírito sobrepondo-se à vergonha e à tristeza. A notícia que tinha trazido não era a de um amigo morto, mas a de um Cristo vivo. Um calor lhe aqueceu a voz ao responder:
“Quando trabalhávamos juntos, e havia muito trabalho, parecia que não pensávamos tanto na Glória de Deus que estava nEle. Compreendes, éramos um grupo de amigos – era o que Ele mesmo nos dizia: ‘vós sois os meus amigos’ – e era um trabalho terreno de alguma maneira, alimentando os famintos, curando os doentes, falando com os pobres pecadores do amor de Deus, resistindo aos opositores, porque a oposição crescia quando nos empenhávamos. Era um trabalho duro, também, dia após dia, e nós gostávamos porque amávamos o nosso amigo. Mas um dia…” Pedro fez uma pausa. O Centurião susteve a respiração. “Um dia, três de nós tínhamos subido à montanha com Ele para rezar. Ele gostava de estar no alto, sozinho algumas vezes, e tinha-se adiantado de nós. Repentinamente quando eu olhei para ele – penso que entendes isto – parecia que a glória de Deus se mostrava em tudo à sua volta. Eu reconheci… que Ele era o Cristo o Filho de Deus vivo.”
A glória daquele dia brilhava nos olhos de Pedro ao lembrar-se. Ninguém naquela sala podia ter dúvidas da absoluta verdade que estava contida naquele testemunho. Para Cornélio foi o mais amargo momento da sua vida. Era esta a “boa nova” que lhes tinha prometido? Podia ser violento com o homem que lha transmitiu. A sua voz foi áspera.
“Crucificámos o Cristo de Deus. Foi isso que vieste transmitir-me? Os Judeus e com eles nós, matámos o nosso Salvador?”
“Sim.”
Cornélio tapou a cara com as mãos. Pedro olhou para ele com compaixão. Era este o caminho que tinha de ser feito –- o caminho da própria vida – pelo sofrimento à Ressurreição.
“Mas não foi esse o final da história.”
O rosto magoado estava levantado para ele.
“Cornélio, Jesus está vivo.”
“Mas tu disseste…?”
“Ele foi crucificado, morto e sepultado. Eu ajudei a levar o Seu corpo para o túmulo. Três dias depois o túmulo estava vazio.”
“O corpo foi roubado?”
“Não. Jesus voltou de novo à vida. O nosso pecado matou-O. A Sua bondade, a bondade de Deus trouxe-O vivo para nós.”
“Tu Viste-O?” Perguntou baixinho.
“Sim, eu vi-O.”
“Uma ilusão?”
“Não, não foi uma ilusão. Era Ele mesmo, o Próprio Senhor. O nosso Amigo e Mestre como O conhecemos, um homem de carne e ossos. Mas havia uma diferença. Ele tinha as marcas dos cravos nas mãos. Jantou connosco na mesma sala onde tínhamos comido na noite da Sua prisão. E depois do jantar Ele disse-nos o que devíamos fazer.
“Sim?”
“Disse: vós sois minhas testemunhas. Dou-vos a vós a mensagem do Pai. Ide por todo o mundo dizer às pessoas de todas as nações aquilo que vistes e ouvistes. Baptizai-as em meu nome e ensinai-lhes aquilo que vos ensinei. E não esqueçais que estou sempre convosco até ao fim do mundo.”
A glória que brilhava nos olhos de Pedro parecia encher a sala. Cornélio levantou-se com a cara transfigurada. A sua voz foi um grito de alegria.
“Então aí está. Ele está connosco. O Filho de Deus Vivo. E caindo de joelhos clamou, “Jesus – Senhor – Tudo o que tenho é o teu mandato para cumprir.”
Pedro olhava, profundamente comovido, quando a família e os criados se puseram a gritar e o que se ouvia na sala, era o nome de Jesus. Algumas palavras do seu Mestre lhe ecoavam na memória, “Por me teres visto acreditaste. Bem-aventurados os que sem me terem visto acreditaram.”
“Pedro, é verdade o que ouvimos? É verdade que estiveste na casa de um soldado Italiano em Cesareia e que baptizaste a sua família?”
Quem falava era Tiago de Nazaré. Um rigorista como era, segundo a lei que seguia, estava profundamente chocado pela acção de Pedro. Pedro esperava isso. Sentou-se entre os seus amigos na sala de cima, em Jerusalém, e contou-lhes a estranha história do seu sonho em Jopa, das palavras do Senhor, “não te compete a ti chamar impuro ao que Deus fez”, e a sua experiência na casa Romana.
Somente Marcos mantinha ainda alguma dúvida.
“Mas porque é que os baptizaste?”
“Como podia recusar baptizar pessoas que estavam cheias do Espírito Santo?”
Houve uma agitação de admiração por parte dos discípulos.
“É verdade”, disse Pedro. “Tão verdade como foi nesta sala no dia de Pentecostes. Toda a gente na família do soldado sentiu a presença de Cristo Vivo. Não havia dúvida. Eu não podia mentir numa situação daquelas. Lembrou o que o Mestre Lhes disse, ‘João baptizava com água, mas vós baptizareis com o Espírito Santo’. Perguntais-me porque os baptizei em nome de Jesus. Quem sou eu para procurar deter a mão de Deus?”
“Mas a Lei?” perguntou o jovem Marcos. “As palavras de Deus a Abraão, a Moisés. Que acontecerá connosco se começarmos a virar as costas à Lei? Onde vai tudo isto acabar?”
Pedro sorriu para o rapaz.
“O fim está nas mãos de Deus, rapaz. Nenhum de nós sabe o que será. Isso é alguma coisa que o Mestre nunca nos disse.”

Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.

Sem comentários:
Enviar um comentário