sábado, 7 de janeiro de 2023

Portanto, Deus existe!

Milhões... Milhões... Milhões...

Esta palavra entrou de forma natural nos nossos dias. Geralmente associada ao dinheiro: os vencimentos (soa mal esta palavra) do CR7, a injeção de dinheiro na TAP(zinha) e no BES, as doações do PRR (mentirosas porque vamos pagá-las a bom preço) da União Europeia, a população na China e na Índia, o que vai para o armamento, etc, etc, etc.

Vem isto a propósito da minha última leitura de cabeceira - O universo - de Paulo Crawford, uma publicação da Fundação Francisco Manuel dos Santos e aqui deixo uma das minhas notas. Contudo fica este número, atualizado, da idade do universo - 13,77 milhares de milhões de anos.

Este número é uma imensidão, e se não fosse uma cifra exata seria o mesmo do tamanho do universo. Algo de inimaginável. Mas não precisamos de ir muito longe para encontrarmos grandezas deste calibre, o nosso cérebro é constituído por 86 mil milhões de neurónios. Tudo é grande.

Retive esta passagem, a dado momento, na página 51 e 52: "A descoberta de que o universo teve uma origem, não sendo estático, mas pelo contrário expande-se continuamente, tem consequências importantes do ponto de vista filosófico, como se verá adiante, mas também pode ter, do ponto de vista religioso, um significado profundo para os crentes, pois sugere que o universo teve um início. Por sua vez, um início implica de certo modo uma criação do universo. Não surpreende, pois, que em 1951,  o Papa Pio XII  tenha adotado o conceito de Big Bang, a origem do universo, como uma evidência do Génesis nos seguintes termos: <Segundo parece, a ciência atual, com uma vassourada através dos séculos, foi bem-sucedida no testemunho do instante augusto do Fiat Lux  primordial,  quando juntamente com a matéria brotou um mar de luz e radiação,  a partir do nada,  e os elementos se dividiram e se agitaram para formar milhões de galáxias. Assim, com aquela concretização que é característica das provas físicas, (a Ciência)  confirmou a contingência do universo e também a dedução fundamentada da época em que o mundo saiu das mãos do Criador. Portanto a criação teve lugar. Digamos: portanto, existe um Criador. Portanto, Deus existe!>"


sábado, 31 de dezembro de 2022

Passagem de Ano Novo na Ucrânia.

O mundo prepara-se para comemorar a entrada do Ano Novo em 2023. Depois de dois anos condicionados pelo 'covid' e os distanciamentos sociais associados, a passagem deste ano seria uma alegria a retomar, que considero em algumas latitudes de histeria, mas o psicopata líder de um país - a Rússia - resolveu criar outra das suas guerras, desta vez na Ucrânia, levando o mundo para outros constrangimentos. Pensou, o criminoso, numa ocupação rápida, quiçá para poder festejar o seu poderio bélico e de terror num novo ano. As contas estão a tornar-se demasiado tingidas a vermelho, manchadas, e muito, de sangue nas suas forças militares. O povo ucraniano tem resistido de forma muito surpreendente com a ajuda de países amigos. Mas julgo que a passagem de ano terá um cenário comum aos outros dias, onde mísseis criminosos tentarão atingir territórios ucranianos, deixando os céus repletos de artefactos, não pirotécnicos mas de terror.

Slava Ukraini




A morte de Bento XVI e quando sorriu para o meu filho.

 Hoje, dia 31 de dezembro de 2022, faleceu o querido Papa Emérito Bento XVI. A sua longa idade antevia que em breve ele estaria a caminho da Casa do Pai. Li algures na Bíblia, numa nota em Génesis 5, que "Uma vida longa é uma Bênção de Deus" e esta foi a vida deste homem de Fé e um Revolucionário.

Aquando da sua Resignação "escrevi-lhe" esta Carta aqui publicada neste blogue em 11 de fevereiro de 2013. Passados estes anos mantenho o mesmo sentimento e uma enorme gratidão.

Quando visitou Portugal acompanhámos o Papa Bento XVI em três momentos: no Terreiro do Paço, em Fátima na Santa Missa  e igualmente em Fátima na Audiência. A família, eu a minha esposa e os meus três filhos estivemos e rezámos com ele. 






Acontece que após a Santa Missa e quando Bento XVI saía no papamóvel da Capelinha das Aparições, o meu pequenino filho encontrava-se junto ao gradeamento, e após a sua passagem, depois de ter dado um beijinho a um bebé, o meu filho, muito feliz, disse-nos: "O Papa sorriu para mim e disse-me adeus". O 'adeus' a que o meu filho se referia mais não era do que o Sinal da Cruz, abençoando aquele menino. O nosso filho estava tão contente que este estado de felicidade perdurou durante o dia. É um apontamento, sem significado para outros que não a família, mas sabendo que na altura se falava insistentemente na comunicação social que o Papa era um homem distante do povo e frio, não deixa de ser um aspeto a relatar.





Para memória futura, deixo o acesso à Rádio Renascença sobre o desenvolvimento das notícias e a um excelente podcast do Jornal Observador.

Rezemos por este Papa.

António Tadeu Costa

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Uma mensagem de Natal de 2022 muito revolucionária.

 Esta mensagem surgiu num grupo de partilha de mensagens entre professores em luta. No whatsapp há verdades que não necessitam de passar pelo 'polígrafo', nesta basta a Fé.

sábado, 24 de dezembro de 2022

"Paulo de Tarso - PARA ROMA" - Joy Harington (parte 10)

DÉCIMA PARTE. PARA ROMA — Página: 135
(Tradução: Padre José Vicente Martins, SJ em 2013)

Paulo faz sua última defesa a Festo e Agripa. 
Embarca para Roma. Naufraga perto de Malta, fica na ilha três meses. 
Finalmente Roma. Paulo, prisioneiro, tarda dois anos a comparecer perante César, e escreve cartas às novas Igrejas.

 
    PAULO tinha apelado para César e esperava a ordem de se dirigir a Roma. Os dois anos da sua prisão em Cesareia não foram anos perdidos, porque apesar de estar de mãos acorrentadas, com a ajuda de Lucas escreveu muitas cartas para fortalecer e encorajar as diferentes igrejas.
    Estava um dia à janela da sua cela  a ditar uma dessas cartas, dizendo que embora estivesse muito longe, se sentia ao lado deles em espírito, a olhar como um pai orgulhoso  para a firmeza da sua fé. Enquanto assim ditava, levantou o seu jarro de água e regou uma pequena planta que crescia no peitoril da janela. “Vós estais plantados em Cristo,” disse, ”e crescereis, como cresce do solo uma planta, tirando força pelas raízes  para se estender ao alto e ao largo em alegria e gratidão para com  Deus….”
    A porta da cela abriu-se e entrou o Centurião Júlio, com indicações do Governador Festo de que Paulo ia ser levado para a sala da corte.
   “Lucas,” disse Paulo,”talvez tenham chegado ordens de eu ir para Roma!”
   Júlio respondeu que não tinha ouvido nada a esse respeito , mas que Herodes Agripa estava com o Governador. “Ele é Judeu como tu,” sublinhou, “e por isso talvez vá dizer uma palavra a teu favor.”
    Paulo confirmou que estava ansioso por ir a Roma – embora, acrescentou com um sorriso, fosse mais agradável ir sem as cadeias.
    Desta vez  a atmosfera da sala da corte era aprazível e fácil, porque se tratava mais de um espectáculo para agradar às visitas reais do que de um julgamento legal. 
    Paulo tomou o seu lugar de frente para o Governador, e depois do silêncio de curiosidade quando entrava, levantou-se um burburinho, que acalmou quando Festo se  ergueu para explicar que ali estava um homem contra o qual toda a nação Judaica parecia ter levantado armas. Ele próprio não podia encontrar nele alguma falta, sobretudo nada que merecesse a morte; mas o prisioneiro tinha escolhido ir a Roma apresentar o seu caso ao Imperador.
   “Agora, encontro-me numa espécie de dilema,” disse, “porque uma vez que não existe contra ele uma acusação específica, que posso eu dizer dele na carta a Sua Majestade?”
    Os seus ouvintes riram, e o Governador continuou a dizer que esperava fervorosamente que o Rei Agripa ajudasse a desvendar o mistério de Paulo de Tarso.
    Paulo, chamado pelo Rei para falar, apelou para ele como um Judeu familiarizado com os costumes e controvérsias da sua raça.
    Desde a sua juventude, disse, tinha pertencido ao grupo mais rigoroso da religião deles, os Fariseus – um facto bem conhecido de todos os Judeus que tinham testemunhado contra ele. Estou aqui encadeado por uma única razão – por acreditar de todo o coração na promessa feita a nossos pais: a ressurreição dos mortos.”
    Festo voltou-se a olhar para Berenice, que devolveu com um ligeiro sorriso de triunfo e segredou a Agripa, “Foi isto que te disse.” 
    “Diz-nos então,” solicitou Agripa, “qual foi a questão que os Judeus em Jerusalém tiveram contigo e as tuas crenças.”
   “Eu vou dizer-vos,” respondeu Paulo. “Os homens que me acusaram afirmam que acreditam na vinda do Messias e na Ressurreição. Mas quando estas duas coisas em que dizem acreditar lhes são apresentadas à frente como factos vivos, não conseguem suportar a verdade. Preferem mentir e enganar e perseguir com disfarce rectidão, do que   aceitarem o cumprimento das promessas de Deus. Porque a promessa de Deus foi cumprida. O Messias veio para nós na pessoa de Jesus de Nazaré que Deus ressuscitou dos mortos.”
    Houve na corte um murmúrio de riso incrédulo. Agripa estava embaraçado, Festo desorientado. Somente Berenice mostrava extrema exaltação.
   “Porque é que,” perguntou Paulo, “vos parece incrível que  Deus  ressuscite  os mortos?”
    Festo disse que não estavam a desapreciar as suas crenças religiosas – mas somente a sua aplicação. Sabiam que Jesus de Nazaré tinha morrido crucificado cerca de trinta anos antes. Como é que Paulo podia dizer que Deus O tinha ressuscitado dos mortos?
    “Porque O vi,” disse Paulo calmamente. Berenice não pôde conter-se mais. “Quando, onde?” perguntou ela.
    “Dois anos depois de Ele ter sido crucificado,” disse-lhe Paulo. “Eu não era um dos Seus discípulos, sabeis, longe disso. Naqueles dias era eu o perseguidor, fui eu que atirei para a prisão homens que se atreviam a usar as palavras “Jesus o Messias,” eu que com a autorização dos Sumos-sacerdotes me metia a caminho de cidades distantes, para prender quem quer que acreditasse nEle. Tinha mais ódio no meu coração naqueles dias por Jesus de Nazaré, do que os homens que hoje querem tirar-me a vida.”
    “Mas diz-nos o que é que viste,” insistiu Agripa.
     Paulo dirigiu-se a ele directamente. “Eu vi o Messias. Estava diante de mim num braseiro de luz mais deslumbrante que o sol do meio-dia. Era Jesus.”
Agripa inclinou-se para a frente. “Como é que sabes?”
    “Foi ele que mo disse,” replicou Paulo. “Imaginas que eu, o maior inimigo de Jesus, iria  inventar uma tal história, e podia ter aceitado pregar mesmo aos Gentios o Messias de Israel, se não O tivesse visto e recebido dEle o meu mandato?”
    “Que mandato?”
    “Vou dizer-te com as Suas próprias palavras, Rei Agripa. “Eu te envio para abrires os olhos dos Gentios, para os tirar das trevas para a luz, do poder de Satanás para o Próprio Deus, para poderem conhecer o perdão dos seus pecados e ocupar o seu lugar com todos os que em Mim têm fé.” Podem duvidar que isto foi uma visão Celeste? Eu não tive dúvidas, e empenhei-me em obedecer ao mandato do meu Senhor. Foi esta a razão pela qual os Judeus me prenderam no Templo, apesar de o que eu prego ser apenas aquilo que os profetas e Moisés anunciaram: que o Cristo havia de sofrer e que Ele havia de ressuscitar dos mortos.”
    Agripa tinha ficado involuntariamente comovido com a sinceridade de Paulo, mas Festo estava cada vez mais assombrado e Impacientemente explodiu: “Tu estás a ficar doido, Paulo. Todo o teu estudo e aprendizagem te levaram à  loucura!”
    “Não, não estou doido, Excelência,” disse Paulo.”Estas coisas foram profetizadas, e  tornaram-se verdadeiras. O Rei sabe do  que estou a  falar. Diz-me Rei Agripa, acreditas nos profetas?” O Rei não respondeu. Ficou embaraçado ao ser um Judeu questionado por  outro Judeu daquela maneira. Inabalável, Paulo continuou: “Acreditas. Eu sei que acreditas.”
    Agripa sorriu comprometido. “Daqui a pouco estarás a afirmar que me tornei Cristão!”
    A voz de Paulo soou com todo o fervor dos seus dias de pregação. “Quisesse Deus que todos os que hoje me ouvem pudessem estar na situação em que eu me encontro.” Levantou as mãos acorrentadas. “Mesmo com estas correntes.”
    O Governador e os seus convidados reais falavam juntos em voz baixa.
   “Não podes punir este homem,” disse Berenice. “Há nele qualquer coisa de santidade.”
   “Ele não é certamente um prevaricador da lei” comentou Agripa. “Mas dizes que apelou para César?”
    Festo acenou que sim.
   “Então é para César que deve ir.”
    Assim, como prisioneiro com cadeias, Paulo começou a sua viagem para Roma. Com outros prisioneiros foi levado para bordo de um pequeno bote costeiro que viajava de Chipre para o porto de mar Asiático de Mira na Lycia, onde Júlio, o Centurião que os tinha a seu cargo,  negociava com o capitão proprietário de um barco Alexandrino de grão, para os transportar para a Itália.
    O barco estava já excessivamente carregado de grão e tinha uma tripulação numerosa. O capitão estava indeciso.
   “É uma ordem governamental. Serás bem pago por isto,” lembrava-lhe Júlio.
   “E os prisioneiros, são de confiança? Eu não quero perturbações a bordo, e não posso permitir nenhum atraso.” 
   “Podes ver que estão encadeados e bem guardados,”disse Júlio.
    O capitão olhou para os prisioneiros esfarrapados, seminus, encadeados pelos pulsos e   tornozelos. Então notou Paulo um pouco afastado deles com Lucas.
   “Ele é um caso especial, um cidadão Romano,” disse Júlio. “O Governador deu ordens para ele ser tratado como um passageiro, não como um prisioneiro. O outro homem é  um amigo dele, um médico que foi autorizado a acompanhá-lo na viagem.”  O capitão, satisfeito por levar um médico a bordo, estava preparado para tirar o melhor partido desta carga extra de prisioneiros. E assim embarcaram no barco, içaram a vela e começaram a viajar em direcção à próxima paragem do percurso para Roma.
    Avançaram pouco porque o vento estava contra eles. Ventos fortes fustigavam a enorme vela central, enquanto os homens dos remos da condução lutavam por manter o barco na rota em mar bravo. O vento aumentou para grau de tempestade, mas por fim depois de muitos dias chegaram à ilha de Creta, e navegando com grande dificuldade pela costa ao longo da praia rochosa do sul, refugiaram-se no pequeno porto chamado Fair Havens, desceram a vela e ali lançaram âncora.
    Como um prisioneiro protegido, ainda que ainda com cadeias, Paulo estava na cabine com o capitão e com Júlio enquanto decorria uma consulta. O capitão, preocupado com a demora, não estava com boa disposição.
    “O tempo é sempre incerto nesta altura do ano,” disse ele, “mas nunca antes tive que lançar a âncora aqui.” 
   “Imagino que teremos que ficar aqui até o tempo melhorar?” perguntou Júlio.
   “Agora não vai melhorar até à Primavera. Levámos dois meses para chegarmos aqui. Foi o peso extra a bordo que nos atrasou. Eu tenho a carga para entregar, senhor, e não posso ficar aqui todo o Inverno.” 
   “Eu estou a pensar na segurança do barco e dos que vão a bordo.”
   “A segurança do barco é da minha responsabilidade.”
   “Claro, disse Júlio pacientemente “mas tu mesmo dizes que ele está sobrecarregado.”
   “Bem, não há nada que eu agora  possa fazer acerca disso, a menos que queirais deitar os prisioneiros pela borda fora.”
   “Vale tanto como a minha vida perder um único prisioneiro,” disse Júlio com um sorriso.
   “E  vale tanto como o meu trabalho, perder a minha carga ou atrasar a sua entrega,” e o capitão saiu à pressa  para o convés.
  “Tens razão.” Retorquiu Júlio. Ele tinha-se esquecido do prisioneiro Paulo, que tinha estado a ouvir a conversa e agora falou. “Nós devíamos ficar aqui. Seria loucura levantar a âncora com este tempo. É melhor atrasar do que perder o barco, a tripulação, toda a carga e tudo o mais.”
   “Eu penso que devemos deixar a decisão para o capitão,” disse Júlio, e abandonou a cabine para se juntar com o capitão no convés. Encontrou-o a informar-se com o timoneiro. O pequeno porto era de facto um céu, extraordinariamente calmo e abrigado do vento que soprava furiosamente no mar alto. 
   “Eu não sairia para o mar nestas condições, senhor,” dizia o timoneiro, “mas se o vento melhorar e tivermos vento de sudeste, podíamos seguir ao longo da costa até Phenix na parte ocidental da ilha. Estará na nossa rota e é melhor lugar para o Inverno do que aqui.”
   O capitão encontrou-se com Júlio e explicou-lhe a situação. Neste lugar, disse, estavam completamente isolados. Não havia cidade a não ser Lasea, uma pequena localidade a algumas milhas do interior.
  “Eu procurei que a minha tripulação pensasse nisso, senhor,” disse ele. “Posso ter que lhes dar alimento todo o Inverno – o que significa ter que arranjar abastecimento fresco. Em Phenix há uma cidade bem dimensionada. É um porto autêntico com outros barcos. Poderemos encontrar algum que aceite levar parte da minha carga ou os teus prisioneiros.”
    “Tens razão, senhor,” disse o timoneiro friamente. “Foi a peso extra que esteve contra nós, tanto como o tempo.” O Centurião sentiu que era inútil argumentar contra a opinião destes dois experientes homens do mar.
    “Como diz, Capitão,” respondeu ele, e desceu para inspeccionar os prisioneiros e dar a conhecer aos seus marinheiros as intenções do capitão.
    No dia seguinte, quando Lucas estava sentado a escrever o seu diário, e o capitão e Júlio com a discussão já esquecida  estavam a jogar os dados, Paulo estava sentado a ouvir o ruído da ondulação. Pareceu-lhe que estava a aumentar menos. Subitamente ouviram-se pegadas apressadas ao longo do convés e o timoneiro aproximou-se com grande exaltação.
   “O vento mudou, senhor!” gritava ele.
    O capitão atirou com os dados e apressou-se a subir ao convés com o timoneiro, e depressa o barco ganhava vida com gritos e corridas.”Todas as mãos no convés… Preparados para levantar a âncora…Atentos para içar a vela.” Depois dos dias de  forçada ociosidade, os homens corriam para o seu trabalho com vontade, e um grito de alegria se levantou quando a enorme vela encheu com a brisa de sudeste e o barco saiu para fora de Fair Havens. O timoneiro seguiu o plano que tinha sugerido ao capitão e manteve o barco próximo das altas falésias encarnadas. Havia correntes perigosas a pouca distância no mar alto, e a única rota segura era navegar perto da praia. Tudo parecia estar a correr bem, quando de repente o temporal mudou novamente e uma terrível ventania de nordeste soprava das montanhas contra eles, afastando-os da praia. O timoneiro agarrou-se aos instrumentos de navegação, tentando desesperadamente manter o rumo. O convés inclinou-se perigosamente com o bombordo quase debaixo da água. Paulo e Lucas esforçaram-se para avançarem ao longo do convés e poderem dar uma ajuda aos marinheiros que se empenhavam com toda a sua força procurando evitar que a vela apanhasse todo o impulso da ventania. As falésias encarnadas que esperavam que fossem um abrigo para eles, pareciam agora agoirentos, e quando o barco se levantou e abateu no mar turbulento, foi como se fossem desfazer-se contra as rochas. O capitão viu o perigo e decidiu arriscar o mar alto. “Que corra mais depressa que o vento.”
    O timoneiro deixou escapar os remos da condução. Os homens das cordas da vela  não aguentaram o esforço e as cordas fugiam-lhes das mãos. Alguns deles caíram no convés devido à inclinação do barco ao dar uma volta, apanhando toda a rajada da ventania nas velas. O barulho do vento e a agitação do mar eram ensurdecedores e o madeiramento do barco chiava e rangia como se o barco estivesse a despedaçar-se. Em baixo no porão os prisioneiros gritavam e choravam de terror e caíam, com o impedimento  das suas cadeias. Paulo desceu para tentar  dar-lhes coragem. 
    No convés o capitão gritava outra ordem. “Ponham a chalupa a bordo.”
    O timoneiro olhou por cima da popa para o mar enfurecido, onde a chalupa que eles  rebocavam  atrás estava completamente submersa.
   “Não podemos puxá-la nestas condições, senhor.”
   “Ponham-na a bordo,” repetiu o capitão. “Podemos precisar dela.” Tomou os remos  da condução, enquanto o timoneiro mandava um grupo de marinheiros para a corda que arrastava a chalupa. “Levantar! Levantar! Levantar!” gritava ele. A chalupa elevou-se acima da superfície e foi atirada contra a parte lateral  do barco, mas precisamente quando parecia terem uma segurança firme, um dos homens perdeu o seu esforço , e a corda  começou a escorregar-lhes das mãos.
    “Todas as mãos! Todas as mãos!” gritava o timoneiro. Lucas deixou um marinheiro ferido que estava a tratar, e Paulo correu de entre os prisioneiros, e depressa a chalupa foi colocada a bordo. Mas o timoneiro chamou a atenção  do capitão para um outro problema.
   “O barco vai partir-se ao meio se isto continua, senhor,” disse ele.
    O capitão acenou.” Pensas que podemos fazer a vistoria?” perguntou ele.
   “Nem pensar senhor, disse o timoneiro.“Não, enquanto navegarmos a  esta  velocidade.”
   “Se pudéssemos navegar para sotavento de uma das ilhas, poderia haver ali abrigo suficiente. Tenham um homem preparado e mandem outro homem subir aos mastros para  ficar de atalaia  a fazer uma pesquisa.
    “Em cima, senhor?” perguntou admirado o timoneiro. 
    “Foi o que eu disse,” respondeu o capitão.
     Pouco depois um marinheiro, despido até à cintura e regado com spray, subia o mastro apertando  bem  de vez em quando o corpo contra ele, devido à força do vento. Arrastou-se até à barra transversal, e sentou-se ali de uma forma bastante precária. O capitão decidiu dar ordem de mudar de rumo.
    Subitamente houve um grito do pesquisador. “Terra… Terra  olá!”
   “Deve ser a ilha de Clauda, calculo, senhor,” disse o timoneiro, e quando o capitão lhe ordenou que tomasse a direcção  dela, ele contestou a dizer que seriam conduzidos para as rochas.
   “Seria melhor  isso, do que partir no mar alto,” disse o capitão.
    O timoneiro manteve a terra a estibordo e viajou para oeste, até estarem ao abrigo da ilha de Clauda. Aí baixaram a âncora e arrearam a vela, e Paulo e Lucas puderam ver os marinheiros a lançar um cabo à água na proa e arrastá-lo até ao meio do barco. Voltaram a fazer o mesmo depois. Isto era  “verificação” – lançando cabos por baixo do casco para verificar a segurança do madeiramento. Habitualmente fazia-se somente no porto. Os homens sentiram-se satisfeitos quando as cordas ficaram finalmente seguras.
    O capitão tinha agora feito tudo o que podia fazer para salvar o barco e as vidas dos homens a bordo. Veio a noite e com ela, ainda outra tempestade. A ligeira protecção da ilha e a âncora que tinha sido lançada, não foram suficientes contra as forças que os impeliam, e uma vez mais começaram a ser levados. Conduzir era impossível. Durante catorze  noites estiveram à mercê da tempestade. De dia não havia sol para os alegrar, de noite faltavam estrelas para os orientar. Toda a esperança de se salvarem parecia perdida. 
    Na manhã do décimo quinto dia, a tempestade era ainda furiosa. Paulo estava a dormir na cabine. O capitão e Júlio estavam sentados silenciosos e desanimados. O capitão olhou quando Lucas entrou, a perguntar como estava a sua tripulação – porque Lucas tinha estado a dar a ajuda que podia tanto à tripulação como aos prisioneiros.
   “Estão mal, a maior parte deles, senhor,” disse Lucas. “Há já alguns  dias que não comem nada. 
   “Porque não? perguntou o capitão. “Temos ainda bastante comida. Não a deitámos fora com a minha carga.”
    Lucas explicou que uma grande quantidade se tinha estragado com a  água do mar, e a maior parte dos homens estava demasiado doente ou tinha medo de comer. O capitão estava preocupado e disse que tinha que ir ter com eles, porque se os homens perdessem a coragem, o barco estaria realmente perdido. Mas ele não tinha nada reconfortante para lhes dizer.
   Houve um súbito movimento no canto onde Paulo tinha estado a dormir. Levantou-se.
  “Diz-lhes que tenham coragem,” sugeriu, “Nenhum deles há-de morrer.”
   Os outros três olharam para ele admirados, e o capitão perguntou como poderia fazer  tal afirmação, quando sabiam que não era verdade.
  “É verdade,” disse Paulo com calma. “Quando estava a dormir o Senhor Deus falou-me num sonho. Prometeu-me que, ainda que perdêssemos o barco, nenhuma vida se havia de perder.” 
   O capitão, que era um homem supersticioso, e estava agora preparado para se agarrar a qualquer solução, perguntou qual era o deus de que falava, ao que Paulo replicou, “O único Deus.”
   Houve uma investida de ar, e a ventania soprou com mais força na pequena cabine quando um soldado entrou, e empurrou a porta a fechar de novo contra o vento. Falou apressadamente em voz baixa com Júlio, que explicou aos outros que alguns elementos da tripulação estavam a baixar a chalupa como se tencionassem abandonar o barco.
   “Se não estiverem todos a bordo ninguém se pode salvar,” disse Paulo.
   Tomando o comando da situação, Júlio disse ao soldado que  cortassem a corda, e puxando pelas espadas correram para o convés.
    Houve algum protesto dos homens, a dizer que o que pretendiam era lançar âncoras no mar. Mas Júlio olhou para o lado e viu a chalupa na água. Imediatamente deu um golpe de espada na corda e a chalupa  afastando-se do barco, foi apanhada pelas enormes vagas, atirada ao ar –  e desapareceu de vista.
    Levantou-se uma gritaria dos marinheiros, que sentiram que a sua última esperança estava perdida.
    Voltaram-se furiosos contra Júlio, mas outros soldados vieram para seu lado com as espadas desembainhadas. E ainda os marinheiros os ameaçavam, gritando pragas contra o vento violento – porque tinham pouco a perder, e o medo da fome e das ondas era maior naquele momento  do que o medo das espadas.
    Subitamente, mais alto que a gritaria, ouviu-se uma ordem, “Venham comer!” 
    Soldados e marinheiros amotinados voltaram-se com esta ordem e viram Paulo de pé com um cesto de pão nos braços. Com relutância a princípio, os soldados juntaram-se à volta dele, e vagarosamente se acocoraram para receberem os nacos de pão que ele lhes entregava. Lucas ajudou um marinheiro doente a juntar-se aos outros, e alguns que estavam deitados no convés, doentes de fome, encontraram força suficiente para se arrastarem até junto de Paulo para receberem a sua parte. Paulo entregou o cesto a Lucas que o passou à volta; mas os homens estavam demasiado espantados para comerem. Olhavam para Paulo, admirados, porque o pão era bom e não encharcado com água do mar.
Paulo tomou um bocado do pão, e depois quase para si próprio disse a bênção familiar: “Graças Te sejam dadas a Ti, Ó Senhor Deus, Rei do Universo Que da terra nos dás o pão.”
Paulo comeu e os homens acompanharam-no, alguns cheios de fome, os doentes com algum esforço. O capitão e Júlio olhavam um para o outro inquisitoriamente, e houve uma agitação de esperança na cara do capitão. Enquanto ali estavam em súbito silêncio, com os únicos sons do monótono ruído do vento e o estremecer do barco, o timoneiro que tinha ido aos arcos, e ainda trazia um bocado de pão na mão, voltou para falar urgentemente em voz baixa com o capitão, que o acompanhou. Apontou para frente.
    “Eu não sei que terra é, senhor,” disse o timoneiro. “Mas, seja o que for, há uma hipótese de encalhar o barco, se houver uma praia de areia.”
     O capitão olhava atentamente a linha da costa, e disse com grande animação: “Há uma baía logo à frente. Parece areia.” Tomou a sua decisão. “Vamos arriscar, cortem as cordas da âncora, levantem a vela principal e deixem que o barco  avançou com o vento.”
    Naquela altura, o resto da tripulação tinha já visto a costa, e repetiu o grito jubiloso do timoneiro, “Terra, olá!” Então, com renovada esperança, dispuseram-se a obedecer às suas ordens. Num instante tinham cortado as cordas da âncora, e esperavam outras ordens.
    Um marinheiro voltava a correr da proa. “Que é que se passa com os remos da condução, Senhor?” perguntou.” Com certeza andam às voltas e desviam-nos da rota.”
    “Cortem-nos à deriva,” ordenou o timoneiro.
    Júlio tinha-se juntado com o capitão na proa, onde quatro marinheiros estavam à espera preparados para içar a vela principal. O capitão estudava a direcção do vento antes de ordenar o levantar da vela. O timoneiro avançou para comunicar que não havia âncoras   nem remos de condução.
    “Bom” disse o capitão, “o vento agora está a nosso favor e a baía está mesmo à frente. Levantem a vela!”
    Os quatro marinheiros puxaram as cordas. A vela principal subiu e encheu com o vento. A tripulação ficou animada de alegria, porque o barco começou a seguir a rota certa na direcção da ilha. 
    Foi Júlio quem deu o primeiro alarme de perigo, apontando para uma linha escura ao longo da costa, visível quando as ondas os levantavam. O timoneiro correu para a proa e deu um grito de horror. “São rochas,” gritou.
   “Recolher a vela principal,” ordenou o capitão e a tripulação empenhou-se em obedecer, mas não conseguiam vencer a força da ventania que os empurrava. A vela principal continuava içada, e o barco corria para a frente sem controlo, na direcção de um rochedo parcialmente submerso. Houve um súbito solavanco de roçar nos rochedos e o barulho de madeira a estilhaçar. Foram todos atirados para o convés, quando a proa parecia levantar-se no ar e inclinar-se para o lado. O mar bravo começou a rebentar contra a popa, e pouco depois uma onda enorme rebentou contra o mastro deitando-o abaixo. Oscilou vagarosamente para um e outro lado e foi cair no mar.
    Do porão um grupo frenético de prisioneiros algemados disputavam o convés, e foram ali impedidos por um soldado com a espada desembainhada, e a apelar a Júlio que  desse ordem de matar os prisioneiros. “Eles soltaram-se, e vão tentar nadar por isso, senhor,” argumentou.
    “Não,” disse Júlio. “Soltem-nos, e aqueles que sabem nadar saltem borda fora e se salvem se forem capazes.”
    Somente os extremos do barco estavam agora fora da água, e o capitão viu que não havia um momento a perder. “Cada um por si!” ordenou, e imediatamente os prisioneiros, a tripulação e os soldados começaram a saltar ou a mergulhar para fora de bordo.
    Júlio tirou as cadeias das mãos de Paulo, e disse-lhe que se salvasse, mas  em vez de saltar ao mar, Paulo voltou-se para um grupo de prisioneiros acocorados, demasiado aterrados para se moverem. Disse-lhes que se salvassem, e eles responderam que não valia a pena porque – não sabiam nadar.
    “Eu também não sei,” disse Paulo com boa disposição. “Vamos juntos. Havemos de encontrar algum bocado do naufrágio para nos agarrarmos. Vamos lá, irmãos.” Arrastou o homem que estava mais perto. “Vamos, todos vós, saibais nadar ou não. Há muita madeira a boiar para vos poder  aguentar.”
    Com Lucas agora a ajudá-lo, Paulo conduziu e convenceu os prisioneiros a saltar para a água, empurrando-os para pedaços do naufrágio que andavam a boiar , e ajudando um que pela sua fraqueza não era capaz de agarrar-se sem ser auxiliado. As ondas levavam-nos para a praia cada vez mais perto, e a voz de Paulo podia ser ouvida mais alto que o trovejar das ondas, animando-os a aguentar, porque em breve estariam salvos.
    E salvos estavam, porque nem uma só vida se perdeu. Feridos e exaustos, alcançaram a praia. A maioria deles estava demasiado cansada para fazer outra coisa que não fosse  estender-se na areia molhada. Tinham frio, e as vestes encharcadas colavam-se a eles, pesadas com a água do mar e com a areia.
    Quase de imediato os nativos da ilha, que tinham visto o navio a naufragar nas rochas, foram ao encontro deles. Falavam uma língua estranha que não entendiam, mas trataram os estrangeiros naufragados com delicadeza pouco vulgar, acendendo fogueiras na praia para que pudessem aquecer-se e secar. Lucas andava entre todos eles, tratando as feridas e dando coragem aos que precisavam de conforto, enquanto Paulo carregava mais lenha para o fogo, e ajudava alguns dos mais cansados para junto do calor da fogueira.
    Um dos ilhéus apontou subitamente ao longo da praia e clamou, “Públio…Públio.”
    Um homem de toga Romana dirigia-se para eles. Era o homem chefe, e Júlio foi ao seu encontro, dando-lhe um aperto de mão Romano. Ficou aliviado ao descobrir que aquele homem sabia falar a sua língua, e depressa lhe explicou a sua situação. 
    “Nós teremos que ficar nesta tua ilha, senhor,” disse, “até podermos embarcar noutro barco que viaje para a Itália. Qual é o nome da ilha?”
    “Malta,” disse Públio, e subitamente gritou aterrado, apontando para Paulo que tinha  trazido mais lenha para o fogo, e agora trazia também uma pequena cobra enrolada ao pulso. “Uma cobra!” gritou Públio.
    Os outros nativos começaram a falar excitadamente, e Paulo estremeceu de súbito, com uma dura e repentina dor quando a cobra lhe mordeu.  Retirou então a cobra do seu pulso, atirando-a à fogueira, e com indiferença continuou a deitar lenha no lume.
    Lucas rapidamente aproximou-se dele, pedindo para lhe ver o pulso, porque a mordedura da cobra era fatal, mas depois de o examinar… nem havia qualquer sinal.
    Paulo sorriu com a preocupação dele. “Eu não sobrevivi à tormenta e ao naufrágio,” disse, “para ser morto por uma cobra. Não te esqueças que vamos a caminho de Roma.”
    Um exaltado falatório começou entre os ilhéus quando se espalhou a notícia de este homem ter sido mordido por uma víbora mortal, e nem sequer tinha uma ferida. Alguns deles foram ajoelhar-se à volta de Paulo, tocando-lhe nas suas roupas e falando reverentemente na sua língua estrangeira.
   “Que estão eles a dizer?” perguntou Júlio a Públio.
   “Eles pensam que o teu amigo deve ser um deus,” respondeu Públio. “Quem é ele?”
    Júlio disse-lhe que era um prisioneiro de Jerusalém, a caminho de Roma para ser julgado diante de César. “É crença minha,” acrescentou Júlio, “que nós não teríamos sobrevivido se não fosse  ele.” 
    “Senhor,” disse Públio, “tu vais ficar em minha casa, e peço-te que tragas este homem também contigo, para que eu e a minha família possamos conhecê-lo. Aos outros teus companheiros será dado abrigo nas nossas vilas até podermos encontrar um barco que vos leve até à Itália.”
    Ficaram na praia tempo suficiente para verificarem que todos os homens – soldados, marinheiros e prisioneiros – tinham sido bem acolhidos pelos simpáticos nativos; depois encaminharam-se para casa do homem chefe, onde a sua mulher e criados se apressaram a fornecer roupa lavada a Júlio, Paulo, Lucas e ao capitão que estavam muito agradecidos  por terem uma tal hospitalidade, e poderem dormir com segurança em terra, naquela noite.
    Malta foi a sua casa durante os próximos três meses. Durante esses três meses, Paulo e Lucas fizeram muito trabalho entre os doentes da ilha. Tudo começou quando Paulo impôs as mãos ao idoso pai de Públio que tinha febre alta com desinteria. Com o toque de Paulo, o ancião que estava muito agitado e sem descanso, ficou subitamente tranquilo.
    Isso foi o princípio, mas a notícia espalhou-se, e depressa as mães começaram a trazer a Paulo as crianças doentes, e o terreiro fora da casa de Públio enchia-se de gente, homens, mulheres e crianças, alguns deitados em macas, outros a amparar os amigos. Lucas, como médico, examinava-os e tratava-os; e Paulo impunha-lhes as mãos.  
    Finalmente Júlio encontrou um barco que tinha passado o Inverno no porto e ia navegar para Itália. Quando chegou o dia de eles deixarem Malta, todas as pessoas vieram ao porto para assistir à sua partida, muitos deles a chorar. Os ilhéus carregaram-nos de ofertas: cestos de fruta, bordados de linho, grinaldas de flores, montes de ofertas de toda a espécie. Era uma bela manhã de primavera quando o seu navio, The twin Brothers (Os Irmãos Gémeos), começou a navegar pelo azul Mediterrâneo a caminho da Itália. 
    Uma vez mais Paulo era um prisioneiro, a caminho de Roma. Uma vez mais ele estava encadeado, e na companhia de outros prisioneiros. Chegaram a Puteoli na Itália e começaram a longa caminhada para Roma pela Via Ápia. Paulo, que caminhava a pé algemado a Júlio, à cabeça da errante procissão de prisioneiros e soldados, parou subitamente. Júlio que tinha sido educado com rigor, voltou-se com uma reprimenda nos lábios. Mas o olhar do rosto de Paulo silenciou-o. Estava transfigurado de alegria e com os olhos cheios de lágrimas a olhar para a frente da estrada. Júlio seguiu o olhar dele e viu um jovem a correr na sua direcção. Paulo levantou os braços, ofegante e a rir, o jovem atirou-se para o seu abraço.
    “Timóteo, meu filho.”
    “Mestre!”


 A Via Ápia

    Foi um encontro emocionante que Júlio, encadeado como estava a Paulo, partilhou com algum embaraço. Cerca de cem jardas acima da estrada estavam as Três Tavernas, um lugar de repouso para os viajantes da Via Ápia. Disse a Paulo que iriam parar lá para um pouco de algum descanso e que então ele teria oportunidade de conversar com o seu amigo. Continuaram a  andar, Timóteo com o braço à volta dos ombros de Paulo. Ali nas Três Tavernas havia outra surpresa para Paulo, porque lá à beira da estrada, com o jumento a seu lado, estavam Priscila e Áquila. O fiel velho casal tinha feito a longa viagem desde Roma para saudar o seu amigo. Júlio desapertou a cadeia do seu próprio pulso, mas deixou os pulsos de Paulo encadeados juntamente. Disse a Paulo que podia ficar e falar com os seus  amigos durante algum tempo e deixou-os juntos sozinhos, enquanto ele ia à estalagem para refrescar.
    Paulo sentou-se na beira do poço com os velhos amigos, enquanto Timóteo lavava os pés do seu mestre e Lucas ia buscar comida e vinho para eles.
   “Ora, isto é como chegar a casa,” disse Paulo. “Como é que souberam que eu ia a Roma?” 
   “Tu escreveste de Cesareia a dizer que vinhas,” explicou Priscila.   “Os irmãos de Éfeso mandaram-nos a notícia.”
   “Nós continuamos ainda com o nosso velho negócio, a fazer tendas”, disse-lhe Áquila.
   “Arranjámos um bonito pequeno negócio nos bancos do Tibre. Os comerciantes trazem-nos novidades de todo o mundo.”                          
   “E tu, Timóteo?” perguntou Paulo.
   “Eu estava em Filipos, sabes,” disse Timóteo, “com Lídia. Ela ouviu de alguns comerciantes que tu tinhas apelado para César. Parti para aqui tão depressa como foi possível. Tinha receio de poder chegar demasiado tarde.”
   “Podia ter acontecido se não tivéssemos tido o naufrágio,” disse-lhe Paulo. 
Timóteo estava desejoso de saber o que tinha acontecido, mas Paulo estava mais ansioso de ouvir como eles e a pequena igreja que se reunia em sua casa tinham continuado, do que perder tempo a contar as suas próprias aventuras.
    Priscila deu-lhe a certeza de que a igreja estava fiel e forte, embora sem crescer em número tanto como desejavam.
    “O Senhor guiou-me para Roma,” disse Paulo. “Há nisto um desígnio. Se vou morrer aqui ou viver, não sabemos. Mas qualquer que seja o caminho que deva seguir, uma coisa é certa. A igreja de Cristo estará viva.”
    Depois de terem tomado o pão e o vinho Júlio regressou e disse-lhes que tinham que  retomar a viagem. Perguntou se Áquila e Priscila também os acompanhavam, e, quando o velho casal respondeu que sim, ele lembrou-lhes que eram ainda quarenta milhas até  chegarem à cidade.
    “Está bem,” disse Priscila alegremente.”Já fizemos a viagem muitas vezes. Temos o nosso jumento. Permite que o nosso amigo possa acompanhar-nos?”
    “Muito bem,” disse Júlio. “Mas ele tem que ser outra vez encadeado, quando chegarmos à vista da cidade. É a lei, compreendem.”
    Áquila disse que entendiam e agradeceu a Júlio. Foram buscar o jumento, e Júlio ficou a olhar para eles por um momento, depois foi reunir-se com as suas tropas e os prisioneiros.
    Era uma longa e cansativa caminhada até Roma, mas muito menos cansativa para os cinco amigos do que para os soldados e prisioneiros atrás deles, porque havia muitas notícias a comunicar, e muitas mensagens de amor a dar da parte dos velhos amigos, e muito a contar acerca do progresso das igrejas.
    Quando finalmente chegaram à vista da grande cidade de Roma, a cavalgada parou num campo mesmo fora das muralhas. Daí foi enviada uma mensagem para a tenda de Afrânio Burro, o Capitão da guarda Pretoriana, a comunicar-lhe que tinha chegado o Centurião Júlio de Cesareia com um grupo de prisioneiros, um de especial importância, porque era para comparecer perante do Imperador.
    “Ah sim,” disse Burro, “eu recebi uma carta a respeito dele. Do Governador Festo de Cesareia. Paulo de Tarso, eh?”
    Mandou chamar Júlio, e quando ele entrou disse-lhe brevemente que tinham levado muito tempo a chegarem ali. Júlio explicou que ele e os seus prisioneiros tinham sofrido um naufrágio, e tiveram que nadar para salvar as vidas na costa de Malta.
   “Perderam algum prisioneiro?” inquiriu Burro.
   “Não, senhor. Nem uma vida se perdeu. Nenhum da tripulação nem algum prisioneiro. Aquilo foi alguma coisa de milagre.”
    Burro perguntou se o Judeu, Paulo de Tarso, tinha ocasionado alguma perturbação.
   “Oh não, senhor,” replicou Júlio. “Ele viajou como passageiro. Foi ordem do Governador, sabes. Todos tivemos muito gosto em tê-lo a bordo, posso afirmar-te.”
   “Porquê?” perguntou o capitão.
   “Ele tem uma maneira própria,” foi a resposta. “Uma espécie de poder. Parece saber o que vai acontecer.” Júlio continuou a explicar acerca do naufrágio, e como Paulo tinha prometido aos homens que nenhum iria morrer.
    Burro estava interessado – e curioso; mas disse que tinham que esperar para ver o que o Imperador ia fazer de Paulo. Entretanto podia alugar um alojamento para ele enquanto esperava o julgamento – embora  tivesse de ser guardado.
    Paulo estava sentado no seu aposento em Roma, ligeiramente acorrentado a um soldado Romano que estava sentado a seu lado, quando Lucas introduziu seis anciãos da sinagoga. Os Judeus olharam cautelosos e suspicazes, ainda que não hostis, e Paulo saudou-os formalmente.
    “Eu devo agradecer-vos por terem vindo aqui visitar-me,” disse ele. “Como vêem” – e indicou as suas cadeias – “eu não tinha capacidade de olhar pela sinagoga, como gostaria. Por favor sentem-se.”
    Os seis Judeus sentaram-se no chão, enquanto Lucas ficou à porta.
    Paulo explicou-lhes porque é que ele, Judeu compatriota deles, estava em Roma como prisioneiro. Assegurou-lhes que não tinha feito nada contra os costumes dos seus antepassados. Mas apesar disso os Judeus de Jerusalém tinham procurado matá-lo e entregaram-no às autoridades Romanas, fazendo acusações falsas contra ele. Não estava em Roma para fazer queixas contra os Judeus, mas para se defender perante César. “Na verdade”, eu de verdade, “é pela esperança de Israel que trago estas cadeias.” 
    “A esperança de Israel?” perguntou um dos Judeus.
    “Vós sabeis o que é essa esperança. “O Messias prometido”, disse Paulo, e os Judeus começaram a falar baixo uns com os outros. Paulo ouviu as palavras “Cristãos” e “problema na Ásia.” Então o porta-voz dirigiu-se a Paulo.
    “É verdade que não recebemos cartas de Jerusalém a teu respeito, nem alguma palavra chegou até nós oficialmente ou não oficialmente. Nós estaremos interessados em ouvir o que tens a dizer, ainda que saibamos que esta seita que pregas de um Messias – Cristãos, creio que é assim que lhe chamam – não encontrou aprovação nas sinagogas de outros países.”
    “Mas não permitais que seja dito de vós em Roma, meus irmãos,” suplicou Paulo, “que vós também rejeitastes o Messias. A maior angústia do meu coração, a dor que nunca me abandona, é este conhecimento de tantos dos meus compatriotas Israelitas terem falhado em agarrar nesta herança que é deles. Na verdade, eu quase preferia ser eu próprio afastado do amor de Cristo, se procedendo assim, pudesse trazer para Ele os meus irmãos.”  
    Continuou a lembrar-lhes as riquezas que Jesus lhes tinha entregado. Eles eram o povo escolhido por Deus ao qual Ele tinha revelado a Sua glória, dado a Lei, ensinado o caminho da verdadeira adoração, mandado os Seus profetas e agora enviado o Seu Messias. E contudo foi o Seu povo que fechou os corações contra a palavra de Deus.
     “A palavra de Deus?” perguntou um dos Judeus, chocado. “Tu proclamas trazer aos homens a palavra de Deus?”
    “De que outra maneira haveria de Deus falar aos Seus filhos a não ser pela boca dos Seus mensageiros?” perguntou Paulo tranquilamente. “Supões que a última palavra de Deus ao homem foram os dez mandamentos que Ele nos deu através da boca de Moisés? Perguntou Paulo tranquilamente. “Então e o Único Santo de que os profetas falaram? O Salvador que era para levar a humanidade para mais perto de Deus o Pai?”
    Houve mais murmúrios desconfortáveis entre os Judeus, mas Paulo continuou.
   “Eu vos digo que é contra Ele que os Judeus fecham os corações. Contra o Cristo que Deus enviou de maneira a não continuarmos a estar mais sozinhos na nossa luta contra o pecado e a doença, de maneira que tenhamos por fim uma oportunidade de construir o Reino de Deus na terra com a ajuda de Seu Filho Jesus Cristo.”
    Houve mais murmúrios dos seus ouvintes. Alguns dos Judeus estavam interessados e impressionados, mas outros mantinham a certeza de isto ser uma doutrina perigosa.
    O porta-voz deles levantou-se. “Fique claro, Paulo,” disse ele, “que não temos problemas contigo em qualquer ponto da Lei, e desejamos que tudo te corra bem no teu julgamento, mas esta tua doutrina não pode ser aceite na sinagoga….”
    Foi interrompido pelos outros, uns a dizer que precisavam de ouvir mais provas antes de poderem decidir rejeitar ou aceitar, outros declarando zangados que já tinham ouvido quanto bastava, e que o que Paulo dizia era heresia. Ainda a argumentar, despediram-se dele, prometendo lembrá-lo nas suas  orações..
    Mas quando começaram a fazer fila de saída, Paulo deteve-os. “Eram palavras de verdade,” disse,”que o Espírito Santo pôs na boca do profeta Isaías:” “Ouvireis sem nunca entender. Vereis sem nunca perceber”… “Mas ficai certos disto: a salvação que o nosso Deus enviou, foi também enviada aos Gentios e eles hão-de ouvi-la.”
    Os Judeus ficaram a olhar para ele desconfortavelmente por um momento. Depois, sem outra palavra deixaram a sala, e Paulo, ainda encadeado ao soldado, ficou a vê-los sair.

    Dois anos passaram, e Paulo ainda esperava em Roma pelo seu julgamento. Tinha muitas visitas, tanto de Judeus como de Gentios, que vinham ouvir dos próprios lábios de Paulo a história do Senhor Jesus Cristo. Apesar de ser prisioneiro, era ainda sobre os ombros de Paulo que pesava o fardo de todas as igrejas.
    Com Paulo a ditar, Lucas escreveu muitas cartas para as alegrar e fortalecer. Uma dessas cartas foi para o seu “amado filho” Timóteo.
 
“… Aceita a tua parte de sofrimento como um soldado leal do exército de Cristo, e o Senhor te dará o entendimento. Lembra, sempre como centro de tudo, Jesus Cristo, o homem nascido da linhagem de David e ressuscitado dos mortos para ser o nosso Salvador. Por pregar este evangelho estou encadeado como um criminoso, mas não podem encadear a Palavra de Deus e eu posso suportar todas as coisas por amor daqueles que Deus está a chamar. Por isso, meu querido filho, nunca te envergonhes do evangelho do Senhor, nem de mim, seu prisioneiro, mas agarra-te às coisas que de mim ouviste na fé e no amor. Porque nota isto, virão tempos difíceis. Encontrarás homens egoístas, amantes do dinheiro, orgulhosos, dissolutos e selvagens. Homens que gostam de guardar uma forma de religião sem terem nada a fazer com ela como uma força. Mas nunca abandones o que aprendeste, ainda que volte o tempo em que as pessoas não desejem ser ensinadas na verdadeira doutrina e procurem mestres que satisfaçam o seu modo de viver,  seguindo as suas fantasias, preferindo mitos à verdade. Aconteça o que acontecer, faz o teu trabalho como um evangelista e um ministro, e aceita o sofrimento que há-de vir….Estás sempre nas minhas orações e eu anseio noite e dia ver-te de novo, mas o tempo da minha partida está perto. Tenho combatido o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé… Agora, somente Lucas está comigo.” 

Paulo estava nos seus aposentos em Roma, agora encadeado pelo pulso a uma argola na parede, a olhar pela janela para a grande cidade de Roma, com as suas estátuas e nobres edifícios. Lucas  sentava-se no chão junto dele, com as suas penas e rolos à volta, preparado para o caso de Paulo desejar enviar alguma outra carta de consolação e encorajamento a qualquer das igrejas.

Agora somente Lucas estava com ele…


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sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

"Paulo de Tarso - JERUSALÉM" - Joy Harington (parte 9)

NONA PARTE. JERUSALÉM — Página: 119
(Tradução: Padre José Vicente Martins, SJ em 2013)

Paulo e Lucas chegam a Jerusalém para a festa do Pentecostes. 
Os Judeus agitam-se contra Paulo que é protegido pelo Comandante Romano, julgado pelo Sinédrio e enviado para Félix na Cesareia. Depois de dois anos Paulo apela para César.

DE TROADES, Paulo começou a longa viagem para Jerusalém. Sentindo necessidade de um dia de solidão, meteu-se a caminho a pé enquanto Lucas e os seus outros amigos viajavam de barco para Assos onde Paulo se juntava com eles. Passaram ao lado das ilhas de Mitilene, Chios e Samos, e uma vez que o barco tinha que esperar ao largo de Mileto para receber carga, Paulo tinha solicitado aos anciãos da Igreja de Éfeso para se encontrarem lá com ele, de maneira que pudesse fazer a despedida. Paulo e Lucas foram levados para terra num bote a remos, e desembarcaram no meio de uma cena atarefada, porque as pessoas da localidade estavam a carregar os seus botes com fardos e embrulhos para serem levados  ao barco que estava ancorado a alguma distância dali.
    À espera deles na praia para os saudar, estavam os irmãos de Éfeso. Depois das saudações, Paulo de costas para o mar, não fazendo caso da gritaria dos homens que carregavam os  botes, dirigiu a palavra aos seus amigos.
    “Meus irmãos,” disse, “eu vou a Jerusalém, e apesar de não saber o que lá me poderá acontecer, o Espírito Santo deu-me a conhecer claramente  que em qualquer cidade que visite, haverá problemas e perseguição. Não me preocupo nada com isso. Eu encaro a minha vida como não tendo  qualquer valor, comparada com a alegria de terminar a carreira que prossigo, que é completar a tarefa de que o Senhor Jesus me encarregou, de pregar a boa nova da graça de Deus. Mas sei que nenhum de vós voltará a ver-me de novo, e por isso, cuidai de vós e do vosso rebanho. Porque vós sois os pastores e eu sei bem que depois de eu ter ido, hão-de aparecer entre vós lobos raivosos. Sim, haverá no meio de vós mesmos quem queira perverter a verdade e encontrar discípulos que os sigam. Procurai portanto manter-vos vigilantes e lembrai-vos de como durante três anos eu próprio estive convosco dia e noite, a cuidar de vós e a avisar-vos, muitas vezes com lágrimas. Agora confio-vos a Deus, que na Sua graça vos pode fortalecer para tomardes o vosso lugar entre os Seus santos.”
    O pequeno grupo ajoelhou-se na praia, e quando Paulo impôs as suas mãos sobre eles a abençoá-los, lembrou uma última palavra de aviso.
   “Vós lembrais”, disse, “como estas minhas mãos sempre conseguiram o suficiente para as minhas necessidades e as dos meus companheiros. Tentei mostrar-vos que  temos o dever de trabalhar duramente, de maneira a podermos ajudar os necessitados, lembrando as palavras do Senhor Jesus que disse, ‘É melhor dar que receber’.”
    Então ajoelhou-se no meio deles na praia, rezando: “Ó Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo e Pai de todos os homens em todo o lado. Fortalece os nossos corações, nós te pedimos, e enche-nos com a graça do Teu Espírito Santo, de forma que as nossas vidas estejam fundamentadas no amor que ultrapassa todo o entendimento. A Ti, oh Deus, Que pelo Teu poder dentro de nós tudo podes fazer, a Ti seja dada a glória na igreja, por Cristo Jesus.”
     Muitos choravam quando Paulo se levantou e abraçou a cada um deles.  Depois ele e Lucas voltaram para a beira-mar, onde o bote a remos os esperava. Entraram, o bote avançou, e uma vez mais embarcaram no barco que os havia de levar a Cesareia. Daí viajaram por terra a caminho de Jerusalém, para a festa do Pentecostes.
   Tinham passado vinte e três anos desde aquele outro dia de Pentecostes, quando a história dos actos dos apóstolos de Cristo começou. 
   Iam encontrar-se primeiro com Tiago “O Justo” que era agora o líder da igreja de Jerusalém. Ele recebeu-os com alegria e Paulo entregou-lhe o dinheiro que tinha angariado na Grécia e na Ásia para ajuda do trabalho da igreja. Depois apresentou-o a Lucas, que notou um certo embaraço na saudação de Tiago. Havia ainda um forte ressentimento entre alguns dos Judeus Cristãos, contrários à cordial aceitação dos Gentios por parte de Paulo.
    Depois de terem ficado na cidade durante sete dias, Paulo e quatro dos irmãos foram ao santuário do Templo para uma cerimónia particular. Tudo era familiar para Paulo: os pregadores no Pórtico de Salomão, os mendigos na Porta Preciosa, os grupos de alunos a ouvirem os Rabis; mas para Lucas era tudo novo, e enquanto esperava Paulo e os outros no Pátio dos Gentios, ouvia particularmente um Rabi, um homem de idade, delicado, de olhar vigoroso, que estava sentado com cerca de uma dúzia de jovens em círculo a seus pés, a ouvirem atentamente as palavras que ele lhes lia.
    “Quando chegar o dia da nova aliança, disse o Senhor, eu implantarei as minhas leis nas mentes dos homens, e inscrevê-las-ei nos seus corações. Serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Não haverá mais necessidade de um cidadão ensinar o seu semelhante, dizendo-lhe “Conhece o Senhor”, porque todos me conhecerão, do mais pequeno ao maior. E eu serei misericordioso para com eles e não mais lembrarei os seus pecados…” 
    Paulo tinha chegado do portão de acesso ao santuário, e enquanto estava ao lado de Lucas, a ouvir com ele o velho Rabi, parecia que os anos se escapavam e imaginou-se a si próprio como um dos arrebatados jovens da sua aula.
    O ancião tinha chegado ao fim da sua lição. Enrolou o pergaminho e despediu-se dos alunos, dizendo, “Meditai nestas palavras esta noite, meus filhos, e amanhã quando chegarem, discutiremos o que significam.”
    Os jovens começaram a levantar-se. O Rabi, deu-se conta da presença de Paulo e Lucas, e olhou para eles interrogativamente. Paulo aproximou-se.
    “Rabi Gamaliel,” disse ele, “Quanto gosto em ver que continua bem, passados tantos anos.” Depois, vendo que o ancião olhava admirado, continuou, “Lembra-se de um aluno seu, deve haver – oh, há vinte e três anos. Um jovem chamado Saulo de Tarso?”
    “Saulo de Tarso,” repetiu Gamaliel, olhando inquisitoriamente para Paulo. “Claro que sim… Aconteceu alguma perturbação, se bem me lembro. Onde tens estado todos estes anos, meu filho?”
    “A viajar.”
    “E agora estás de volta entre o teu povo. Quem é este?” perguntou, ao notar Lucas  subitamente.
    Quando Paulo lhe disse que era o seu amigo, Lucas, da Macedónia, o ancião ficou retraído por um instante a pensar que o seu antigo aluno estava na companhia de um Gentio. A sua saudação foi educada, mas fria.
    Voltou-se para Paulo com algum alívio, e fez mais perguntas sobre as suas viagens. Continuaram a falar, sem notarem que estavam a ser vistos de forma pouco amistosa por um grupo de homens ali perto. No centro do grupo, e obviamente entre eles a mais enfática personalidade, estava o comerciante de Icónio, vindo a Jerusalém como um dos peregrinos do Pentecostes, e com ele estava o padeiro Judeu de Lystra que tinha dado um aviso a Timóteo.
    “Aí está ele outra vez,” disse o comerciante. “Eu disse-te que havíamos de encontrá-lo aqui. E olha… tem um Gentio com ele. Não prova isso o que tenho vindo a dizer-te? Ele tem estado a profanar o santuário, levando Gregos lá dentro.” 
    “Ele não se importa nada com a Lei,” disse o padeiro, recordando o seu último encontro com Paulo.
    “Isso é verdade,” disse o comerciante. “É o que tenho estado a dizer-lhes. Por toda a Ásia tem andado a desviar Judeus da Lei de Moisés. Tivemos problemas com ele na Galáxia há anos. Fizemo-lo fugir da cidade, lá isso fizemos, da nossa cidade. Mas noutros lugares conseguiu arranjar um bom acompanhamento, conforme me dizem.”
    Um Judeu local, rígido na sua observância da lei Judaica, foi mais rigoroso a desaprovar, e disse. “Quem se importa com os seguidores que tem entre os Gentios?” “Que ele se perca na ignorância com eles! Mas profanar o Templo! Levar pagãos para a Casa do Senhor!” Com os braços erguidos acima da cabeça voltou-se para a multidão. “Filhos de Abraão, estais a  ouvir? A Casa de Deus está a ser profanada.”
    Um lamento se levantou a partir do ancião, e gritos de ira dos mais jovens. O comerciante estava muito satisfeito. Tinha-os revoltado contra Paulo, e agora lembrava-lhes que nem era preciso apontar-lhes o que tinham que fazer , porque sabiam bem que desrespeitar as leis do Templo podia ser punido com a morte.
    “Sim”, afirmou. “E morte para quem? Não para o estúpido pagão que o segue como ovelha para o santuário, mas para” – levantou a voz a gritar – “Paulo de Tarso!”
    A multidão agora, completamente enfurecida, assumiu o grito: “Morte para Paulo de Tarso. Morte para Paulo de Tarso!” Aproximavam-se dele cada vez mais, – os  devotos peregrinos da Festa de Pentecostes tinham-se convertido numa populaça desvairada.
    Demasiado tarde para os deter, um soldado Romano que tinha ouvido a gritaria desceu a correr as escadas que levam da Torre Antónia para o pátio. Olhou por um momento para a cena desordeira, e depois percebendo que sozinho nada podia fazer, subiu as escadas para dentro da torre à procura de reforço.
    No seu gabinete o Comandante, Cláudio Lysias, estava a ver dois ordenanças a polir o seu colete de peito e o elmo, quando um soldado entrou  à pressa a relatar que havia desordem lá em baixo, no pátio do Templo.
  “Que queres dizer com, desordem?” perguntou Cláudio Lysias.
   O soldado disse-lhe que uma quantidade de Judeus estava a querer atacar dois homens e que aquilo parecia  feio.
   “Oh, estes Judeus,” disse o Comandante. “Se não é no Pentecostes é na Páscoa, sempre uma desordem. Mas geralmente fazem-no fora do Santo Templo. E hoje estamos com falta de homens nas casernas – foram distribuídos por toda a cidade.”
    Voltou-se para os dois ordenanças, a dizer-lhes que teriam de ir eles. Ajudaram-no com o seu colete de peito e depois saíram à pressa com o outro soldado. Cláudio Lysias foi à porta e olhou para baixo das escadas das casernas. Viu os três soldados a tentarem passar  através da multidão e os guardas da Porta Preciosa a abrir caminho do outro lado do pátio. No centro da multidão barulhenta, estava Paulo, esbofeteado por todos os lados por gente furiosa, até que os soldados chegaram junto dele e se esforçaram por fazer recuar a população. Mas não eram capazes de controlar aquela multidão agitada.
    Cláudio Lysias percebeu que tinha que agir depressa. Desceu as escadas a correr, e gritou, “Para trás!”
    A multidão respeitou a voz da autoridade. Recuaram, e quando viram o Comandante, encaminharam-se para ele que marchava por entre eles para o centro da desordem. Com voz breve e militar perguntou a Paulo quem era ele, e o que é que estava a acontecer, mas antes de Paulo poder responder a multidão começou novamente a gritar.
   “Ele profanou o Templo!” “É um blasfemo!” “Pratica feitiçaria!” “Crucifica-o!” 
   “Tragam-no para as casernas,” ordenou Cláudio Lysias aos soldados. “É melhor transportá-lo.”
    Quatro soldados levantaram Paulo acima das cabeças, e o Comandante dirigiu o caminho de regresso às casernas. A multidão acompanhou-os, com mãos levantadas a ameaçar  Paulo e tornando difícil aos soldados avançar. Subiram por fim as escadas com dificuldade, e colocaram-no no topo; e aí Paulo pediu que o ouvissem.
   “Eu sou Judeu,” disse, “um homem de Tarso. Não fiz nada contra a Lei.”
   “Parece pensarem que fizeste,” disse o Comandante; e Paulo pediu para falar à multidão.
   “Falar-lhes?” repetiu Cláudio Lysias. “Não percebes que tentaram matar-te?”
    Mas Paulo insistiu, e o Comandante, curioso, disse que podia tentar.
    Paulo voltou-se para a multidão em baixo e levantou os braços.
   “Meus irmãos e pais,” disse, “ouvi o que tenho para dizer em minha defesa.”
    Era a forma Hebraica de iniciar um discurso e fez imediatamente que se calassem.


Cláudio Lysias resgata Paulo dos judeus no Templo



O Conselho do Senedrim
     
Paulo disse-lhes que era Judeu, como eles, nascido em Tarso da Cilícia, mas  educado em Jerusalém aos pés do mais honrado Rabi Gamaliel, e treinado na mais rigorosa observância da Lei Judaica, para manter o respeito de Deus. Lembrou-lhes que tinha sido ele que tinha perseguido os homens e mulheres que eram seguidores de Jesus de Nazaré, e que foi com a autorização do Sumo-sacerdote e do Conselho que se deslocou a Damasco para trazer os Nazarenos para Jerusalém, presos com cadeias.
   “Meus irmãos e Pais,” continuou “foi na estrada para Damasco que me aconteceu o que mudou a minha vida.” Fez uma pausa e a multidão esperou em silêncio. “Tinha quase chegado à cidade, de facto já podia ver as portas à minha frente, quando subitamente fui detido no caminho por uma luz ofuscante e abrasadora. Aterrado caí no chão e enquanto ali estava estendido, ouvi uma voz a chamar  pelo meu nome: “Saulo…Saulo;” ”e como ouvi e não me atrevi a falar, essa voz perguntou, “Porque é que me persegues?”Ainda a tremer de medo, olhei para a luz a perguntar quem é que falava e ouvi a resposta , “Eu sou Jesus de Nazaré a quem tu persegues.”
    Havia silêncio absoluto no pátio. A multidão estava calada, dominada pela história de Paulo.
   “Os meus companheiros correram ao meu encontro,” continuou. “Encontraram-me voltado para a luz com olhos sem poder ver. Tinha ficado cego pela glória daquela visão e como homem cego, Saulo o perseguidor, foi conduzido a Damasco. Não diríeis vós que foi a mão do Senhor que me tornou cego? Oiçam então o que aconteceu em Damasco, e vejam a mão do Senhor a trabalhar em mim. Um Judeu devoto, um reverente observador da lei, um homem altamente respeitado por todos os Judeus em Damasco, veio ter comigo quando estava deitado cego no meu alojamento e colocou as suas mãos sobre os meus olhos; e pelo poder do Senhor, a vista foi-me restituída. Este homem, Ananias, disse-me: “O Deus dos nossos pais escolheu-te para conheceres a Sua vontade, para veres o Messias, para ouvires palavras dos Seus próprios lábios, para poderes ser Sua testemunha diante de todos os homens. ”
    A multidão estava ainda a ouvir atentamente. Parecia que os tinha conquistado a todos. Tudo o que até agora tinha dito, tinha o selo da verdade para quem o ouvia. Encorajado, continuou.
   “Pouco depois disto voltei a Jerusalém de maneira a poder dar testemunho do Messias, aqui no próprio lugar onde tinha visto o seu primeiro mártir, Estêvão, apedrejado até à morte. Mas uma vez mais o Senhor interveio. Disse-me que deixasse esta cidade e…vou dizer-vos as próprias palavras do Senhor…” ‘Vai’, disse, ‘Porque te envio para longe, para levares o meu nome aos Gentios’.”
    Com estas últimas palavras, o frenesim apoderou-se novamente da multidão.
   “Fora com ele!” gritou um, e outros, “condenou-se pela própria boca!”, “Voltou-se para os Gentios!”, “É um traidor, devia morrer!”
    E a multidão, facilmente volúvel, primeiro murmurava e depois juntou-se ao intenso clamor: “Fora com ele… Morte ao traidor…”
    O pandemónio era agora pior do que antes. Cláudio Lysias ouvia com desespero. Ele não se tinha importado com o discurso de Paulo, nem com o explosivo comportamento daquela multidão Hebraica. Voltou-se furiosamente para Paulo, e disse-lhe com brevidade que tinha tido a sua oportunidade, e que muito o tinha ajudado. 
    Paulo ficou amargamente desapontado. “Não entendem…” murmurou; e Cláudio Lysias disse bruscamente que também ele não tinha entendido, e que o melhor era que Paulo lhe dissesse o que tinha feito.
   “Não fiz nada contra a Lei,” disse Paulo com firmeza, e com isso o Comandante ordenou aos soldados que o levassem para dentro.
   “Para ser flagelado, senhor?” Perguntou um dos soldados.
   “Sim. Temos que o fazer falar.”
    Dois dos soldados empurraram Paulo para dentro das casernas, enquanto o Comandante ordenava aos outros que desimpedissem o pátio. Viu a multidão a dispersar, depois foi para dentro do seu gabinete, onde estava Paulo entre os dois soldados, com as correntes a prenderem-lhe as mãos à frente. O casaco tinha-lhe sido tirado.
    “Porque está ele aqui?” perguntou Cláudio Lysias. “Eu pensei que lhes tinha dito para que o examinassem com o chicote.”
    “Sim, senhor,” disse um dos soldados. “Mas o prisioneiro diz que é cidadão Romano, Senhor. E é contra as ordens…”
    Cláudio Lysias ficou espantado. Perguntou a Paulo em tom severo se ele se dava conta que a pena por fazer uma falsa declaração de cidadania Romana era a morte, e Paulo respondeu que sim; mas continuava a insistir que era cidadão Romano.
    O Comandante olhou para ele fixamente e fez uma pergunta a testá-lo. “Quanto é que te custou?”  perguntou.
   “Nada,” disse Paulo. “Nasci cidadão.”
    Imediatamente os soldados tiveram ordem de o libertarem e de lhe tirarem as correntes  das mãos. O Comandante pediu desculpa pelo que tinha acontecido; mas continuou. “Eu não posso simplesmente deixar-te ir, sabes. Os Judeus estão a fazer queixas contra ti,e embora eu não me importe nada com o que eles são, tens que ter alguma espécie de julgamento ao menos para tua protecção.”
    Paulo replicou que podia responder a qualquer acusação que fizessem contra ele, ao que o Comandante respondeu que ia ordenar ao Conselho do Senedrim que reunisse, e que no dia seguinte poderia encará-los e defender-se. 

    Na Câmara do Conselho o Senedrim reuniu de manhã com a cerimónia habitual. Na cadeira do juiz estava sentado Ananias, o Sumo-sacerdote e a seguir a ele os representantes dos Saduceus. Do lado oposto estavam sentados os Fariseus, entre os quais o velho Gamaliel com os seus alunos, e no centro estava Paulo de pé, como Estêvão tinha estado no seu julgamento havia tantos anos. Somente o Sumo-sacerdote parecia uma figura pouco familiar, muito diferente do seu competente e douto predecessor. Ananias era um homem grosseiro, mundano, com uma reputação de violência, impopular tanto para os Judeus como para os Romanos.
    O Comandante sentou-se num estrado junto dos sacerdotes,  atento aos  Saduceus e Fariseus, que segredavam entre si, por terem sido apanhados desprevenidos pela ordem do tribunal. Ninguém sabia quais eram as acusações e havia uma boa dose de especulação entre eles.
    Foi Paulo, cansado de esperar, que iniciou os procedimentos.
   “Meus irmãos,” disse alto e claramente aos Fariseus. “Oiçam e eu vos direi o que querem saber. Toda a minha vida vivi perante  Deus com uma consciência limpa…”
    Imediatamente Ananias interrompeu furioso, “Batam-lhe na boca!”
    Um guarda avançou e deu uma bofetada na face de Paulo. Ele girou à volta e apontando para o Sumo-sacerdote gritou, “Deus te atingirá a ti, seu muro caiado de branco.  Estás aí sentado a pretender julgar-me segundo a Lei e contudo é contra a Lei que dás a ordem de me baterem?”
    Houve um murmúrio na corte, e o guarda do Templo ameaçou-o de mão levantada, a perguntar se ele se atrevia a insultar o Sumo-sacerdote de Deus.
   “Irmãos,” disse Paulo, agora mais calmo, “tinha-me esquecido que ele era o Sumo-sacerdote.”
    Ananias silenciou-o. À pressa, declarou que considerava Paulo réu de blasfémia, traição e feitiçaria. Gamaliel levantou-se imediatamente para protestar, dizendo que ele não podia ser declarado culpado, porque nem sequer lhe tinham dada a oportunidade de falar em própria defesa.
    “Ele não tem defesa,” declarou Ananias a finalizar. “Tenho ouvido testemunhas que juraram pela sua culpa. Peço que te controles, Rabi Gamaliel. Lembra-te da presença do Comandante. Ele pediu-me para ver justiça administrada segundo a nossa Lei. Não dêmos o espectáculo de divisão entre nós.”
    Fez sinal aos guardas para deterem o prisioneiro, mas Paulo apelou para os Fariseus, clamando que era um deles, e como eles vivia na esperança de uma vida depois da morte. Era por esta crença que estava a ser julgado.
    Alguns dos Fariseus levantaram-se. Era este o mais forte osso de desacordo entre eles e os Saduceus.
    Gamaliel falou por todos. “Não encontramos culpa neste homem. Quem sabe, talvez um espírito ou um anjo tenha falado com ele como afirma. Não vamos duvidar da palavra de um irmão. Que as vossas testemunhas provem que ele é mentiroso.”
    Olhando nervosamente para o Comandante, Ananias apelou ao silêncio na corte. “Pedimos pena de morte para Paulo de Tarso”, disse, mas os Fariseus exigiram em voz alta que Paulo pudesse falar. O Comandante tinha tido quanto bastava; apelou para ordem na corte, e quando houve silêncio anunciou que uma vez que a corte parecia indecisa relativamente às acusações contra Paulo, ia guardá-lo em custódia de protecção por alguns dias. Entretanto esperava que o Sumo-sacerdote havia de ter o cuidado de vigiar para que as cortes do Templo não fossem utilizadas para demonstrações violentas quanto a assuntos que tivessem que ver com a religião Judaica e a lei.
   Com isto desceu do estrado e fazendo um sinal a Paulo para o seguir, abandonou a corte.

   Numa cela das casernas Paulo estava sentado em profundo abatimento. Estava triste por aquilo que tinha acontecido na corte, e também preocupado quanto a Lucas, que se tinha  retirado sem ser molestado pela multidão, mas estaria ansiosamente à espera de notícias. Ele tinha julgado mais prudente não tentar contactá-lo, com receio de dirigir a atenção para ele, pondo-o também em risco.
    Os seus pensamentos tristes foram interrompidos pelo abrir da porta da cela. O seu guarda, com quem tinha bom relacionamento, entrou com um jovem.
   “Há alguém que o quer ver.”
    Paulo levantou-se e olhou para o rapaz com surpresa. O soldado, lembrando ao visitante que não podia ficar por muito tempo, deixou-os juntamente sós, com a porta aberta.
   “Quem és tu?” perguntou Paulo.
   “Saulo de Tarso.”
   “Saulo de Tarso?” repetiu Paulo com admiração.
   “Sim, sou teu sobrinho.”
   “O filho da minha irmã?”
    Saulo acenou que sim. Paulo abraçou o seu sobrinho, dominado pela emoção. Quando conseguiu falar, disse ao rapaz que a sua irmã era apenas uma criança quando ele deixou Tarso. E agora, vinha a saber por Saulo que o filho dela já tinha dezasseis anos, e que a família tinha vindo para Jerusalém onde Saulo estava a estudar com o Rabi Gamaliel.
    O rapaz continuava a olhar nervosamente para a porta, com o guarda do lado de fora à espera. Falou com urgência. “Ouve, eu vim para te avisar. Estão a combinar matar-te.”
    “Quem?” perguntou Paulo.
    “Alguns dos Saduceus. Fizeram um voto; falaram até com o Sumo-sacerdote sobre esse assunto.
    Paulo chamou a atenção para o facto de dificilmente o poderem atingir na prisão – numa fortaleza, guardada pelo exército Romano, mas o rapaz continuou ansiosamente em voz baixa.
    “Sim, eu sei, é aí onde entra a conspiração. O Sumo-sacerdote combinou pedir ao Comandante que te descessem para seres sujeito de novo a outro julgamento… algo ligado com outras provas… De qualquer modo estes homens planeiam estar à espera fora da corte, e assassinarem-te quando fores levado para baixo.”


  A praia de Mileto
    Paulo ficou em silêncio por um momento. Depois louvou Saulo por ser tão corajoso, pondo em risco a vida por ter vindo. Se eles soubessem o que ele tinha feito…O rapaz interrompeu a perguntar o que é que o seu tio tinha ideia de fazer.
    “Temos que avisar o Comandante,” disse Paulo, “para ele estar preparado. Podes ir ter com ele e dizer-lhe o que me disseste a mim? Eu penso que ele te vai receber. É um homem justo.”
    Foram interrompidos pelo soldado, que voltava para dizer que era tempo de o visitante  sair já, porque o tempo tinha acabado.
    “Oficial,” disse Paulo, “por favor leve este jovem a falar com o Comandante. Ele tem alguma coisa muito importante para lhe dizer – alguma coisa que tem que ver com a segurança de um cidadão Romano.”
    O soldado ficou bastante  embaraçado pelo pedido, e começou por dizer que não podia ser, mas depois abrandou, e prometeu ver o que se podia fazer. Ficou de pé, à espera de fechar a porta, enquanto Saulo voltava para uma última palavra com seu tio.
    “A mãe enviou este dinheiro,” disse ele, entregando uma bolsa de coiro que trazia no seu cinto. “É uma parte do que o avô deixou. Ela diz que és tu que o deves ter.”
    “Deus te abençoe, filho,” disse Paulo. O seu desalento tinha desaparecido, com a ameaça de novo risco, e ficou contente por ter encontrado o seu sobrinho – e um sobrinho que por ele tanto tinha arriscado.  Nem o som da porta a ser-lhe fechada outra vez, o tinha agora incomodado. “Talvez isto não seja o fim,” pensou. “Talvez, apesar de tudo, tenha que ir a Roma.

    Era ainda manhã cedo quando o soldado bateu à porta do Comandante, e foi mandado entrar. Saulo sentia-se agora muito atemorizado, mas entrou e ficou aprumado diante do Comandante, enquanto o soldado explicava que ele era um parente do prisioneiro com alguma coisa urgente a dizer.
    O Comandante estava interessado, e preparado para ouvir tudo o que pudesse lançar alguma luz sobre o mistério do seu prisioneiro. Viu, contudo, que o rapaz estava nervoso por falar à frente do soldado, e por isso levou-o para o lado mais afastado da sala, fora de ouvidos indiscretos, e disse-lhe para falar.
    Com pressa nervosa, Saulo contou a história da conspiração para matar o seu tio. “Se ele deixar estas casernas não chega à sala da corte vivo, senhor. No encontro da noite passada, mais de quarenta Judeus se comprometeram por juramento a não comer nem beber até o terem matado. Estão colocados à volta de toda a cidade, senhor.”
    “Que é que o teu tio fez,” perguntou Cláudio Lysias, “para que sacerdotes se tornassem assassinos?” e quando o rapaz disse defensivamente que seu tio não tinha feito nada contra a Lei, o Comandante suspirou. Não estava mais perto do segredo do mistério, mas pelo menos havia agora um motivo para agir e levar o assunto a uma autoridade superior.
    Disse a Saulo que fosse para casa, e que tivesse cuidado em não falar a ninguém sobre este assunto. Depois despediu-se dele, e o rapaz partiu para o sol da manhã, enquanto no seu gabinete o Comandante dava ordens para um grupo de setenta homens a cavalo e duzentos tropas armados estarem pelas nove horas dessa noite, com um cavalo para o prisioneiro Paulo de Tarso, preparados para o levarem até Cesareia,
    Depois Cláudio Lysias pegou numa pena e tinta e começou a escrever uma carta.            
      
    Naquela noite Paulo foi tirado da sua cela e desceu as escadas das casernas. Aí na escuridão viu um grande ajuntamento de homens armados e cavalos. Foi montado num cavalo, e a caravana pôs-se a caminho com ele no meio.
    Eram vistos por um homem solitário: Lucas, não pôde descansar até saber o que tinha acontecido a Paulo, e todo o dia tinha mantido a vigilância sem ser visto, fora da fortaleza onde estavam as casernas. Quando viu a caravana a andar, encontrou um cavalo e   partiu a correr a todo o galope até apanhar a caravana de homens armados, para os acompanhar até Cesareia.
    Em Cesareia Paulo foi posto sob guarda, enquanto um mensageiro levou a carta de Cláudio Lysias à casa do Governador. Félix era um homem de idade e cauteloso, mas um bom Governador. Ordenou ao escrivão que lesse a carta, e ficou informado que tinha que julgar um prisioneiro enviado de Jerusalém.
   “Este homem,” leu o escrivão, “foi apanhado pelos Judeus e estava na iminência de ser morto por eles quando cheguei com as minhas tropas e o resgatei, tendo ficado a saber que era um cidadão Romano. Descobri que estava a ser acusado acerca de uma questão
ou questões da sua Lei, mas não havia nenhuma acusação contra ele que merecesse morte ou prisão. Agora, porém, recebi informação privada de uma conspiração contra a vida dele e por isso o enviei sem dilação. Notificarei os seus acusadores que se quiserem insistir nas acusações, devem ir a Cesareia a fazê-lo na vossa presença.”
    O Governador perguntou onde estava este homem, e quando foi informado que o prisioneiro ficara sob a guarda do palácio de Herodes, disse imediatamente, “Bem, tratem de ver que seja bem tratado. É um cidadão Romano. Que espécie de homem é ele? Rico?”
   “Está bastante mal vestido, senhor,” disse-lhe o Centurião que lhe tinha levado a carta, mas parece ter muito dinheiro com ele.
   “Amigos?” perguntou o Governador.
   “Há um Grego com ele, senhor, um doutor, chamado Lucas.
   “Bem, deixem que ele tenha acesso livre ao prisioneiro. “Como é que se chama?”
   “Os Judeus chamam-lhe Saulo, senhor, mas parece-me que ele prefere ser tratado como Paulo.”
    O Governador sorriu, e comentou que ele estava obviamente orgulhoso da cidadania Romana. Perguntou de onde era ele e foi informado que era de Tarso, da sua própria província.
  “Tratarei do caso quando os acusadores chegarem de Jerusalém,” disse.

   Cinco dias mais tarde, Paulo foi levado à corte para aparecer diante do Governador Félix. O Sumo-sacerdote tinha chegado de Jerusalém trazendo consigo um hábil advogado, Tertulo, para propor o caso do processo.
   Paulo sentou-se acorrentado, confortado por saber que Lucas estava perto dele na corte quando Tertulo se levantou para abrir o processo.
  “Excelência,” disse Tertulo suavemente, “é devido ao vosso justo governo que podemos gozar de uma paz nunca perturbada, e devido ao vosso sábio cuidado que o estado desta nação tem progredido todos os dias. Tudo isto reconhecemos com a mais profunda gratidão. Não tenho vontade de incomodar Vª Excelência com um longo discurso, mas peço-lhe que me oiça por um pouco com a vossa habitual cortesia.
   “O simples facto é que encontrámos que este homem, Saulo ou Paulo de Tarso, é  uma
peste absoluta, provocando sedições e pondo em risco a paz entre os Judeus por todo o mundo. Ele é o líder de uma seita chamada “Os Nazarenos,” e estava de facto a violar o Templo quando o prendemos. Nós tê-lo-íamos julgado conforme a nossa lei, mas o Comandante Cláudio tirou-o das nossas mãos com grande violência, e insistiu que o caso devia ser tratado diante de Vª Excelência. Da nossa parte lamentamos que Vª Excelência tenha que ser incomodado com este assunto, mas se desejar interrogar o prisioneiro, descobrirá por si próprio a verdade das acusações que trazemos contra ele.”
    Tertulo sentou-se, e houve um murmúrio de aprovação da parte dos sacerdotes. O Governador consultou o seu escrivão, e leu as notas que tinha tomado. Com voz fraca Félix perguntou que é que a prossecução queria dizer por “Nazarenos”, e foi-lhe dito que eram os seguidores de um Judeu chamado Jesus de Nazaré crucificado alguns anos antes.
    “Oh, esse cavalheiro, sim,” disse o Governador. “Ouvi falar dele.” E então com voz mais elevada disse, “Chamem o prisioneiro.”
    O escrivão assim fez, e Paulo levantou-se, descobrindo logo com o olhar os olhos de  Lucas antes de se voltar para o Governador, e  falar. Disse que não tinha receio de expor o seu caso, uma vez que o Governador estava bem familiarizado com a Lei Judaica. Doze dias antes tinha ido a Jerusalém para a Festa de Pentecostes. Nunca tinha discutido com ninguém no Templo, nem tinha juntado uma multidão quer fosse nas sinagogas ou qualquer outro lugar da cidade, nem a prossecução poderia apresentar prova de qualquer das acusações que traziam contra ele.
    “E quanto a essa seita, os Nazarenos?” perguntou o Governador.
    “Chamam-lhe seita. Nós chamamos-lhe um Caminho,” afirmou Paulo. “O caminho de adorar o Deus de nossos pais pela fé no Seu Messias. Chamam a isto de heresia. Não é heresia, porque ponho a confiança em tudo o que está escrito na Lei dos profetas. Partilho com eles a esperança na vida que há-de vir. Com esta esperança que tenho, faço o possível para viver a minha vida com uma consciência limpa diante Deus e dos homens.”
    O Governador disse-lhe para relatar à corte o que tinha acontecido em Jerusalém; e Paulo explicou-lhe que depois de uma ausência de alguns anos tinha ido lá levar dinheiro que tinha sido colectado para os pobres da sua nação, e para participar nalgumas cerimónias no Templo. Nestas cerimónias, nem é preciso dizê-lo, o seu amigo Lucas, um Gentio, tinha ficado fora no pátio. Foi quando Paulo saiu para se juntar com ele que a perturbação começou. Alguns Judeus da Ásia tinham incitado a multidão para o atacarem.
    “Esses são os homens que hoje deviam estar diante de vós,” disse Paulo. “Noto que não estão cá. Mas está aqui o Sumo-sacerdote; portanto ele devia ser chamado para vos dizer se me tinham encontrado culpado de qualquer crime, quando estive diante do Conselho de Senedrim.”
    Houve silêncio na corte por um momento, até Félix perguntar se o Senhor Sumo-sacerdote tinha alguma coisa a acrescentar a este testemunho.Tertulo olhou para Ananias a pedir instruções, mas Ananias acenou com a cabeça a dizer que não.
   “Nada a acrescentar às acusações já feitas, Excelência,” disse Tertulo, ao que Félix respondeu que não podia declarar o prisioneiro culpado com os testemunhos disponíveis. O Comandante Lysias seria instruído para fazer outras investigações em Jerusalém. Entretanto Paulo seria guardado em custódia preventiva, mas os seus amigos poderiam visitá-lo e ele teria uma liberdade considerável.
    Levantou-se e dissolveu a corte.

    Durante dois anos não apareceram mais provas de Jerusalém tanto a favor de Paulo como contra ele. Entretanto tinha sido nomeado em Jerusalém um novo Sumo-sacerdote e um novo Governador Festo, em Cesareia.
    Festo, um homem mais novo que o seu predecessor, entretinha-se com  o jovem Rei Herodes Agripa II. O último e provavelmente o melhor da sua linha, estava ainda bem relacionado com Roma, e tinha a aparência e o comportamento de um jovem Romano. Com ele estava a sua irmã Berenice – uma jovem, alegre e espirituosa mulher, que tinha estado duas vezes casada, mas agora vivia com o seu irmão a quem era muito dedicada. Apesar de ser uma mulher mundana, entrava em estados extremos de fervor religioso. 
    No gabinete de Festo os dois jovens bebiam vinho com ele, e Agripa perguntou ao Governador como avaliava o seu novo ofício.
   “Razoavelmente bem,” foi a resposta de Festo.
    Falavam de Jerusalém e de Cláudio Lysias, que Festo considerava ser um homem bom.
   “Eu libertei-me do Sumo-sacerdote Ananias,” disse Agripa. “O novo que nomeei, Ismael, penso que tem mais ideia da justiça.”
   “Pode ser que sim,” disse Festo, duvidosamente. “Eu não conheci o último. Confesso que quando se entra nas intolerâncias da Lei Judaica e seus costumes, me encontro baralhado.”
    Agripa riu-se. Tem que se ser treinado para isso desde a meninice, disse, como ele tinha sido – apesar de em muitos aspectos, acrescentou, se sentir mais Romano que Judeu.
   “Não digas isso. Não o digas,” suplicou Berenice. “Vais atrair a ira de Deus sobre ti.”
    O seu irmão riu novamente. “A minha irmã é a religiosa da família,” disse, “Ou deveria dizer a supersticiosa? O teu interesse em coisas espirituais vem e vai, eh, Berenice?”
   “E porque não?” retorquiu ela. “Há um tempo para tudo, como dizem as Escrituras.”
   “Eu tenho neste momento entre mãos um mistério sem solução,” disse Festo, “que suponho poderia ser encarado como um assunto de religião.” E falou-lhes das suas suspeitas acerca de Paulo, um Judeu que agora tinha já dois anos de custódia. Tinha-lhe oferecido a oportunidade de voltar a Jerusalém para ali ser julgado de novo, mas agora tinha apelado para César.
    “Então é a César que deve ir,” disse Agripa, enquanto Berenice, intrigada, perguntou o que é que Paulo tinha feito.
    Festo disse que era difícil para ele ajuizar agora uma coisa ou outra, mas que tudo tinha a ver com as crenças da religião Judaica. Paulo tinha sido acusado de ser Cristão. “Sabeis o que isto quer dizer?” perguntou Festo, e quando Agripa disse que não, ele explicou: “Bem, tanto quanto posso perceber é alguma coisa relacionada com um homem chamado Jesus que morreu, e que Paulo afirma que está ainda vivo.”
    Berenice inclinou-se para a frente com ansiedade. “Jesus? Mas eu conheço esse nome.”
   “Um nome muito comum, minha querida,” disse Agripa.
   “Não…Não te lembras, Agripa, quando éramos crianças,” disse Berenice. “Durante a fome quando estávamos com o pai em Jerusalém?... Eu nunca me esqueci. Aqueles homens fora do palácio que andavam a dar alimento às pessoas e a curar os doentes. Eles continuavam a dizer o nome “Jesus”…”De Nazaré,” não era?
   “Jesus de Nazaré – o homem Messias. Sim, claro que me lembro,” disse o irmão dela.
   “É uma grande sorte para mim estardes aqui, se me puderdes esclarecer por completo o   assunto,” disse Festo.
   “Eu não tinha ideia que houvesse ainda membros da seita de “Jesus” no país,” disse Agripa. “Ora, há anos que está a andar. E é muito estranho, sabem, que eu me viesse a cruzar com isso. A minha família tem tido confrontos com Jesus ao longo de três gerações. Eu serei a quarta! O meu bisavô, Herodes o Magno, como sabeis, era Rei da Judeia quando meteu na cabeça que uma criança nascida em Belém se ia tornar “Rei dos Judeus.” Não sei porque pensou tal coisa.
    Berenice interrompeu-o. “Oh sim, o pai contou-nos a história. Alguns astrónomos ou homens sábios de alguma espécie, disseram que tinham visto um sinal nas estrelas.”
   “É isso,” disse Agripa. “Ele era supersticioso, já vêem, como aqui a Berenice! E mandou que todas as crianças masculinas nascidas na região fossem mortas.”
   “Que drástico,” disse Festo, e Agripa concordou, acrescentando que o seu bisavô era um tirano.
   “Mas o menino Jesus escapou,” disse Berenice. “Precisamente como Moisés no meio dos juncos. Penso que os seus pais O esconderam.”
    Agripa fez notar que não podiam estar certos de se tratar do mesmo Jesus, mas que  de qualquer maneira o Herodes seguinte a ouvir falar de Jesus foi o tio Antipas, cerca de trinta anos mais tarde. Tinha andado um homem pela Judeia a pregar que Jesus era o Messias. Antipas considerou este homem como um rival rei dos Judeus, e mandou cortar-lhe a cabeça.Depois disso, Antipas foi quem teve o encargo de julgar o Próprio Jesus.
   “De verdade?” disse Festo. “Então Jesus era um agitador?
   “Bem, assim disseram,” concordou Agripa. “Muitas vezes tenho duvidado disso, sabendo como os Sumos-sacerdotes gostam de fabricar acusações. Bem, tu mesmo já tens passado por isso algumas vezes. De qualquer maneira, ele foi acusado pelo Senedrim da mesma forma que este homem de que nos falaste, e apresentado ao Governador para ser julgado.”
    Quem era então o Governador?” perguntou Festo.
   “Oh, quem era ele?” Agripa procurou lembrar-se. “O pai disse-me – Pilatos?”
   “Pôncio Pilatos?” sugeriu Festo.
   “Sim, penso que o nome era esse. Como tu, ele teve dificuldade em entender as acusações feitas pelos sacerdotes, e assim enviou Jesus ao meu tio a ver se ele podia ajudar. O meu tio teve a impressão de que Ele era apenas um lunático inofensivo.”
   “Mas o que é deveras fascinante,” disse Berenice, com a voz a ganhar entusiasmo, “é que o vosso prisioneiro diga que Jesus ainda está vivo. É por isso que penso que há alguma coisa mágica a respeito dele.”
   “Então Jesus morreu? Mesmo apesar de o teu tio O ter julgado inofensivo?” perguntou Festo.
   “Oh sim,” disse Agripa. “O meu tio enviou-O de volta a Pilatos que O mandou crucificar.” 
   “Mas porque é que as pessoas haviam ainda de estar a falar dele e a arriscar serem  também presas por isso”, insistiu Berenice. “Eu penso que é tudo muito curioso. Vamos ouvir este homem e tentar encontrar alguma coisa mais.”
    Agripa concordou que seria interessante ver Paulo e ouvir o que tem a dizer.
   “Trataremos disso,” disse Festo, satisfeito por agradar aos seus convidados reais. “Vou tratar de tudo para amanhã.”
 

Paulo, prisioneiro, levado para Roma



  Viajando para o porto de Mira
        
 

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